CAP. 2 - A ARTE DA SABOTAGEM

POV CHARLOTTE

O táxi freou em frente à entrada principal do shopping com um rangido leve nos pneus. Paguei a corrida rápido antes de abrir a porta e sair para o ar abafado do meio do dia.

Caminhei pelos corredores movimentados, ignorando os olhares de algumas pessoas que passavam por mim. Eu conseguia sentir o rastro do sangue do meu lábio já seco e duro na pele, mas limpei o excesso com o polegar com força, empurrando a ardência para o fundo da minha mente.

Avistei a cafeteria de canto perto da praça de alimentação. Moon Bittencourt estava sentada em uma das mesas do fundo, mexendo no celular. Ajeitei o meu vestido e fui na direção dela. Assim que ela me viu, ela se levantou em um salto e me envolveu em um abraço aberto e apertado.

O calor do abraço da Moon fez o meu peito aliviar um pouco daquela pressão esmagadora. Nós duas fazíamos faculdade de Design juntas. No futuro eu pretendia fazer uma especialização na área de joias e gemologia porque a minha família comanda uma holding gigantesca desse setor, mas faço a faculdade em segredo, porque eles acham que curso Economia.

A minha mãe morreu quando eu nasci. Fui criada por uma linha infinita de babás pagas, pelo meu pai e pelos meus avós Alfonso e Mariza. Para piorar, a minha avó, que era a única que me dava algum afeto real, faleceu quando eu tinha apenas sete anos. Quando completei doze anos, meu pai e meu avô simplesmente me despacharam para um internato tradicional e isolado na Suíça, onde fiquei por um longo tempo, fiz o colegial, me formei e só voltou ao Brasil depois de muitos anos longe após um grande incidente, na verdade um grande incêndio do qual fui considerada culpada, que ocorreu na faculdade de lá.

Eles achavam que eu continuava cursando a faculdade de Economia que me impuseram. Nem imaginavam que eu tinha trancado a matrícula após um ano de tortura e mudado para o Design. Foi nesse curso secreto que conheci a Moon.

— Lottie, o que aconteceu com você? — Moon se afastou do abraço, os olhos arregalados focando direto no meu lábio cortado.

— Não é nada demais — respondi, a minha voz saindo rouca enquanto eu me sentava na cadeira de vime.

— Tem certeza? Você está com uma cara péssima.

— O problema é que meu progenitor quer que eu me case com um herdeiro de uma empresa e eu preciso conhecer minha futura sogra amanhã.

— Nossa, que aristocrático! — ela comentou. — Casamento arranjado?

— Pois é, em pleno século XXI, eu me casar com um cara que eu nunca vi na vida, que não sei quem é, mas aposto que é um babaca, idiota, autoritário e arrogante. Nem entendo o motivo desse casamento direito.

Moon sentou-se logo em frente, segurando a minha mão por cima da mesa com firmeza.

— Sinto muito, se eu soubesse que você estava passando por essas turbulências nem teria te mandado mensagem incomodando.

— Não, eu que agradeço, pelo menos assim eu não enlouqueço — disse a ela, ajeitando o meu cabelo em um coque frouxo. — Mas por que você me chamou logo hoje, Moon? Fazia um tempo que a gente não se falava direito por causa da correria e do seu novo emprego.

Mudei de assunto, tentando afastar a náusea que voltava ao meu estômago.

— Me desculpe, sou uma péssima amiga — ela me disse, coçando os cabelos loiros. — É que tipo... eu estou conhecendo uma pessoa, Lottie. — Moon sorriu de canto, os olhos brilhando com uma emoção contida. — É um cara que tem me ajudado a ver o mundo de outra forma. Ele me disse que eu preciso ser feliz, voltar a ser quem eu era antes e reviver os meus antigos laços. Por causa disso, eu pensei em você. Queria espairecer.

— Fico feliz por você, de verdade — forcei um sorriso, sentindo o bolo na garganta apertar. — Mas a minha vida acabou de virar um lixo completo.

— E o que você vai fazer sobre esse almoço de noivado amanhã? — ela perguntou, preocupada.

— Eu não tenho escolha, Moon. Se eu não for, o meu avô Alfonso corta a minha mesada, cancela os meus cartões, me expulsa da faculdade e me j**a na rua da amargura. Eu vou ter que ir. Não sei nada sobre o sujeito, só que o sobrenome dele é Zeiberg.

Moon soltou um riso baixo, tentando quebrar o clima pesado da mesa.

— Vai que o cara é um bilionário absurdamente gostoso e lindo?

— Eu não ligo para isso. Odeio a ideia de ser vendida como uma mercadoria para salvar o pescoço do meu pai.

Moon ficou em silêncio por alguns segundos, batendo os dedos na xícara de café antes de abrir um sorriso travesso.

— Você é obrigada a ir ao almoço, certo? Mas você não é obrigada a fazer a sua futura sogra gostar de você. E se a mãe do noivo não gostar de você, se ela te odiar?

— Como assim? Tenho que ficar feia?

— Lottie, você é linda demais, você nunca vai ficar feia nem se tentar se estragar. Mas sua sogra deve ser tipo toda madame certinha, esperando uma boneca de porcelana.

— Isso significa que tenho que virar um monstro?

— Você tem que sei lá... Faça ela te odiar.

A ideia da Moon bateu na minha mente como um estalo de pura genialidade.

— Eu já sei exatamente o que eu vou fazer.

Levantei-me da cadeira num salto, segurei a Moon pela mão e a puxei pelo corredor do shopping em direção ao terceiro piso.

Entramos direto no estúdio de tatuagens e piercing. Viraria o pior pesadelo de uma madame como nora.

Encaixei uma argola de prata no nariz. A agulha perfurou a carne e a dor física foi imediata, fazendo uma lágrima involuntária escapar pelo canto do meu olho. Ardeu demais.

— Já que estamos no inferno, vamos completar o estrago — falei para o tatuador, apontando para a lateral do meu pescoço. — Quero três passarinhos bem aqui.

O zumbido da máquina de tatuagem preencheu o cubículo. A agulha começou a morder a pele sensível da minha jugular, raspando direto contra a área delicada. A ardência da tinta entrando na minha carne me deixou completamente desconfortável, uma queimação contínua que parecia arranhar o osso. Demorou uma eternidade, cada traço parecia uma lâmina quente cortando o meu pescoço, mas segurei o fôlego até o final.

Para a minha surpresa, a Moon riu alto da minha cara de dor e resolveu entrar na loucura também. Ela perdeu o medo e pediu para a profissional colocar um piercing na pepeka e fazer uma tatuagem pequena no ombro. Eu quase caí para trás quando ela me disse que faria isso.

Saímos de lá direto para uma loja de departamentos e comprei uma roupa preta totalmente esquisita, larga e com um corte bizarro que destruía qualquer pose aristocrática. Se a minha futura sogra queria uma boneca, ela receberia um corvo gótico.

Antes de sair do shopping, arrastei a Moon até a agência do banco no piso térreo. Preenchi uma folha de cheque com um valor alto e descontei direto no caixa, guardando os maços de dinheiro vivo na minha bolsa. Se o meu pai tentasse me matar ou o meu avô tivesse um infarto com o meu visual, eu teria dinheiro para pegar as minhas coisas e fugir para bem longe deles sem depender de esmolas.

Passamos no salão de beleza dos fundos para o toque final. Fiquei horas assistindo ao descolorante agir no meu cabelo castanho. Quando a tinta roxa e azul foi aplicada e lavada, o resultado no espelho me fez soltar uma gargalhada alta.

Mechas grossas, vibrantes e rebeldes moldavam o meu rosto e combinavam com os meus olhos azuis cinzentos, contrastando com o piercing de prata fresco no nariz e a tatuagem de passarinhos que ainda ardia no meu pescoço.

— Meu Deus, Lottie... — Moon riu alto, boquiaberta com o resultado, enquanto se ajeitava na cadeira com uma careta engraçada por causa do piercing novo na pepeka. — Agora você definitivamente não parece a nora mimada e perfeitinha que eles querem. Você parece uma herdeira rebelde e perigosa.

— É exatamente isso o que a mãe do herdeiro dos Zeiberg vai receber amanhã no restaurante — respondi, fechando a minha bolsa cheia de dinheiro com um prazer sombrio. — Vamos ver se a tal ricaça ainda vai querer que o filho dela se case com um pesadelo como eu.

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