CAP. 8 — Eu preciso de um homem.

POV/ CHARLLOTE

— Todo local tem banheiros. — Ele rebateu, sem se impressionar.

— Vai ficar me entediando? Qual é a especialidade da casa?

— O quê? — Ele piscou atordoado com a minha audácia e soltou um risinho de canto. — Bom... Temos Whisky, Gin, Rum, Vodka.

— O que menos mata. — Respondi de pronto.

O homem ergueu uma sobrancelha, pegou uma garrafa de líquido transparente e despejou em um copo curto. Virou a dose na minha direção.

— Cadê o canudo? — Perguntei, olhando para o copo pequeno.

O barman parou todos os movimentos com as mãos e ficou me olhando. Passaram-se cinco segundos, mas ele não disse nada. Olhei para ele novamente e ele me olhou de volta, olhou para o copo e depois para o meu rosto.

Aí ele respondeu:

— Isso... é... um... shot. — Ele disse, pausadamente.

— Ah... — Fiquei completamente sem graça, sentindo as minhas bochechas queimarem. — Então vocês bebem errado por escolha.

Peguei o copo com os dedos trêmulos e entornei o líquido na boca de uma vez só. No mesmo segundo, o fogo explodiu na minha garganta. Muito mais forte que vinho ou champanhe.

Comecei a tossir de forma desesperada, batendo no peito com a mão livre enquanto tentava respirar. Fiquei um bom tempo limpando as lágrimas que escorreram até o ar voltar ao normal. O homem apenas me assistia com os braços cruzados sobre o peito nu.

— Quer água?

— Não. — Falei, mas pensei: por que a gente tem que beber água depois de beber um shot?

Ele balançou a cabeça sorrindo, um sorriso lindo, muito lindo.

Caramba.

Minhas bochechas queimaram ainda mais de vergonha. Desviei o olhar para o lado com pressa. Depois, virei o rosto de leve e comecei a observar discretamente o peito dele, reparando nos detalhes dos músculos. O sujeito mexeu o braço rápido e percebeu o meu mapeamento visual na mesma hora.

— Tinha uma mosca no seu ombro. — Disparei a primeira mentira que passou pela minha cabeça para disfarçar o flagrante.

O homem olhou para o próprio ombro nu, voltou a me encarar e deu um sorriso cínico.

— Ela morreu de rir e foi embora. — Ele desdenhou.

Nunca mais invento uma desculpa dessas. Empurrei o copo vazio para a frente para tentar mudar de assunto.

— Me dá mais uma dose.

Ele colocou a segunda quantidade do líquido. Eu virei com muito mais cuidado dessa vez.

Tentei me ajeitar na banqueta alta para recuperar a minha postura de mulher experiente, mas acabei errando o apoio do pé de metal e o meu corpo pendeu feio para o lado esquerdo. Quase caí direto no granito do chão. Firmei as mãos no mármore com pressa e estiquei os dois braços para cima em um movimento rápido.

— Eu só... queria dar uma alongada. — Justifiquei, fingindo naturalidade. — É que eu sempre testo os móveis antes de confiar neles. O banco passou no teste e a mesa também. Era um teste de estabilidade.

O homem mordeu o lábio inferior na tentativa de esconder um sorriso, mas vi os lábios se contorcerem e ele voltou a limpar a bancada com o pano.

— Você costuma alongar, fazer esses testes, derrubar bandejas, em todo lugar que entra? — Ele perguntou, sem tirar os olhos do trabalho.

— Não. — Respondi, muito séria.

— Você veio sozinha?

— Sim.

— Corajosa.

— Não. Desesperada. — Soltei a verdade sem querer, o álcool fazendo efeito.

Assim que respondi, percebi que talvez não fosse uma informação muito inteligente para contar a um estranho dentro de uma boate. Bebi mais um pouco do líquido do copo.

Respirei fundo. Era a minha chance de ouro. Minha mão coçou na alça da bolsa de couro cheia de notas. Eu precisava resolver o meu problema jurídico de uma vez por todas com aquele estranho.

— Moço... — Chamei, a minha voz falhando de leve. — Quanto custa...

O homem parou e ficou me esperando concluir.

— ...uma vodka. — Recuei no último segundo.

— Acabou de beber uma. — Ele respondeu, confuso.

— Quero outra. — Menti.

Ele colocou o líquido no copo. Eu bebi. Cinco minutos se passaram em um silêncio pesado entre nós. Juntei as forças restantes que eu tinha no corpo e apoiei os dois cotovelos no balcão, olhando bem no fundo dos olhos escuros daquele estranho.

— Na verdade... Uma pergunta totalmente hipotética. — Comecei, engolindo em seco.

— Se for sobre uniformes de novo, vou me abster. — Ele resmungou.

— Se uma pessoa precisasse... comprar um marido...

— Comprar o quê? — O homem indagou, a voz grossa ecoando por todo o balcão.

Entrei em completo desespero com o tamanho do absurdo da minha própria fala.

— Nada! Esquece! — Gritei, abanando as mãos no ar para apagar o assunto de vez. — Você tem amendoim?

— Você entrou aqui para comer amendoim?

Dei de ombros e bebi mais um gole da minha bebida  enquanto desviava o olhar,

Fiquei ali parada, agarrada à minha bolsa de couro estufada de dinheiro, observando o movimento caótico da boate erótica sob a luz neon vermelha. O homem de gravata preta e peito nu, o gerente grosseiro que eu tinha acabado de insultar, saiu de trás do balcão para atender umas mesas, me deixando sozinha na banqueta.

Antes de sair, ele me deixou um copo alto com um líquido amarelo intenso e uma rodela de limão boiando. Eu não fazia ideia do que era aquilo, mas o álcool já estava flutuando na minha cabeça. Dei o primeiro gole. O gosto era... diferente. Dei o segundo. O terceiro foi mais rápido. Eu estava com tanta vergonha de estar ali que só queria que o tempo passasse.

Passou um tempo. Quando ele voltou para o balcão, ajeitando as guirlandas de garrafas, eu empurrei o copo vazio na direção dele, tentando manter a pose de mulher experiente que nunca tinha entrado em um lugar daqueles.

— Mais um. — Pedi.

Ele arqueou uma sobrancelha,  foi em direção a uma portinha que tinha e voltou com outro copo com aquele líquido meio amarelo e a rodela de limão.. Eu peguei o vidro, dei um gole grande e franzi o nariz imediatamente.

— Nossa, isso é muito ruim. — Reclamei.

— É água com limão. — Ele respondeu, seco.

— Água? Você serve isso para todo cliente?

— É para ver se você volta para o planeta Terra.

Fiquei encarando o copo de água com desgosto.

Olhei para o sujeito de novo, analisando discretamente o peito nu dele. Que desperdício de homem ignorante.

— Agora me diz o que você quer? — ele perguntou desviando o meu foco do seu peitoral musculoso.

— Um homem.

— O que? 

— É isso que você ouviu. — Apertei o copo com força e repeti. — Um homem.

— Por que você quer um homem? — Ele perguntou do nada, voltando a limpar o balcão.

— Eu não quero um homem. Eu preciso de um.

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