Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV AMÁLIA
Por alguns segundos, eu não consegui gritar.
Fiquei parada na escadaria, olhando para o corpo daquele guarda como se meu cérebro tivesse simplesmente desistido de entender qualquer coisa. O sangue escorria pelos degraus devagar, grosso, escuro, fresco demais para que aquilo tivesse acontecido há muito tempo, e os olhos arrancados dele pareciam duas janelas vazias encarando o teto. Minha mão foi até minha boca, mas não consegui emitir nenhum som. Eu só conseguia olhar para a frase aberta no peito dele, aquelas palavras entalhadas na carne como se alguém tivesse usado o corpo de um homem para mandar um recado direto para mim.
A Luna foi traída.
O Supremo despertou.
Que merda era aquela?
— Ali! — uma voz gritou atrás de mim. — Tem alguém na escadaria!
Virei tão rápido que quase escorreguei no sangue. Três guardas apareceram no alto do corredor, com lanças nas mãos e olhos arregalados, mas nenhum deles correu para me proteger ou para ver se eu estava ferida. Todos olharam para mim, depois para o corpo, depois para minhas mãos. Minhas mãos tremiam, sujas com um pouco de sangue porque eu tinha me apoiado no degrau ao tropeçar, e foi aí que entendi, com um frio horrível descendo pela minha barriga, que para eles eu não era a noiva assustada que encontrou um morto.
Eu era a mulher sozinha ao lado de um cadáver.
— Não fui eu — falei, antes mesmo que perguntassem. — Eu só tropecei nele, estava saindo do salão e...
— Fique onde está! — um guarda ordenou, apontando a lança para mim.
— Eu não fiz nada!
— Então por que está coberta de sangue?
Olhei para os meus dedos, para a barra do vestido branco manchada, o rubro subindo pelo tecido devagar, estava por toda parte e minha cabeça girava...
Que merda.
Aquilo não podia estar acontecendo!
Eu mal tinha conseguido sobreviver ao meu próprio casamento e agora estava parada em cima de um corpo sem olhos, com uma frase maldita escrita no peito dele. Respirei fundo, tentando não vomitar, mas o cheiro de sangue era forte demais.
— Eu só... Tropecei... — expliquei, mas minha voz saiu baixa demais. — Chamem alguém, por favor. Chamem o Imperador.
— O Imperador já está vindo.
Quando ouvi passos se aproximando, meu corpo inteiro travou. Primeiro vieram os guardas, depois alguns anciãos e sacerdotes, todos com rostos sérios demais, e por último Dalle Arkan apareceu no corredor, ainda com a taça do banquete na mão, como se tivesse sido arrancado de uma comemoração que continuou muito bem sem mim. Mirella vinha logo atrás dele com uma expressão tão satisfeita que meu estômago embrulhou.
Ela olhou para o corpo, fingiu um susto delicado e se enrolou no braço de Dalle como uma cobra.
— Pela deusa lua... — sussurrou. — Ela estava sozinha com ele?
— Eu não estava com ele — falei, olhando para Dalle. — Só o encontrei assim.
Dalle não respondeu de imediato. Seus olhos dourados desceram pelo meu vestido manchado, pelas minhas mãos, pelo corpo e pela frase entalhada no peito do guarda. Nada em seu rosto mudou, mas todos pareceram mais tensos quando ele deu um passo a frente, talvez esperando que ele fosse arrancar minha cabeça ali mesmo... Deusa, isso seria uma benção para mim, isso sim. O vínculo, aquela coisa fraca e errada que eu tinha sentido no altar, ardeu no meu peito de novo, como uma linha puxada por mãos invisíveis. Eu vi o maxilar dele travar. Ele também sentiu. E odiou.
— Por que saiu do salão? — ele perguntou.
Soltei uma risada curta, sem humor nenhum.
— Sério? Sua amante anunciou que talvez esteja carregando seu filho no meio da festa do nosso casamento, e o senhor quer saber por que eu saí do salão?
Alguns nobres prenderam a respiração. Mirella estreitou os olhos, mas Dalle nem piscou.
— Tenha mais respeito.
— Eu saí porque precisava respirar, porque fui humilhada na frente de todo mundo pela segunda vez no mesmo dia. Porque estava vestida de noiva enquanto outra mulher recebia aplausos por talvez carregar seu herdeiro. Quer mais motivo ou isso já serve?
Dalle se aproximou mais um passo, e o ardor no meu peito ficou pior. Não era desejo, não do jeito que as histórias falavam. Era incômodo, uma dor esquisita, como se alguma coisa dentro de mim reconhecesse ele, mas outra parte, mais profunda e intensa, se recusasse a responder. Ele parou perto demais, olhando para mim como se só seu olhar pudesse matar.
— Você matou esse homem?
— Não.
— Sabe o que essa frase significa?
Olhei de novo para as palavras no peito do guarda, respirando fundo de forma trêmula.
— Não.
— Ouviu alguém? Viu alguém? Sentiu algum cheiro?
A voz voltou à minha cabeça por um segundo.
Minta... Minta, Luna...
Apertei os dedos contra a saia, tentando não mostrar o que estava acontecendo dentro de mim para o imperador que me avaliava como uma presa indo direto pro abate.
— Não vi ninguém.
Mirella soltou um suspiro baixo, teatral demais.
— Majestade, com todo respeito, ela é uma estrangeira, apareceu aqui hoje e agora foi encontrada sobre um corpo profanado. Isso tem cheiro de bruxaria...
O silêncio que veio depois daquela palavra foi diferente.
Bruxaria.
Até os guardas pareceram se afastar meio passo de mim.
Eu sabia o que aquilo significava. Todo lobo sabia, memso eu, que nem tinha loba. Bruxas e lobos eram inimigos mortais desde antes do império existir. Diziam que uma bruxa podia apodrecer o sangue de um alfa, roubar a forma de um lobo, prender almas em ossos e costurar maldições na pele de uma criança. Praticar bruxaria dentro de território lupino não era só proibido, era pássivel de morte, uma morte lenta e horrenda.
— Eu não sou uma bruxa — falei, sentindo minha garganta fechar. — Nem tenho loba, como é que eu teria poder para fazer magia?
— Justamente por isso — Mirella respondeu, doce. — Ninguém sabe do que uma coisinha como você seria capaz pra chamar a atenção do meu imperador.
Dei um passo na direção dela, sem pensar.
— Seu imperador? Você é só uma vadia, pode andar com esse diamante por ai, mas nunca será ujma luna de verdade.
Um guarda segurou meu braço na mesma hora.
Mirella arregalou os olhos que logo se encheram de lágrimas que eu podia ver que eram falsas, começando a fungar enquanto olhava para Dalle.
— Viu? Ela é uma selvagem! Majestade, ela deveria ser presa antes que mate mais alguém.
Mas o imperador não disse uma palavra sequer.
— O senhor deveria... — Mirella continuou, quase esfregando o decote no braço dele enquanto chorava.
— Você não diz o que eu deveria ou não fazer — Dalle a cortou, seco.
Os olhos dela quase dobraram de tamanho e, por um segundo, vi sua expressão de santa-puta rachar..
— Meu amor, eu só estou tentando proteger...
— Eu disse que você não decide nada — ele repetiu, mais baixo, mais perigoso. — Não confunda o que eu tolero com poder.
Aquilo deveria ter me dado alguma satisfação, talvez desse, se eu não estivesse com um guarda me segurando pelo braço e um morto aos meus pés. Mirella fechou a boca, mas seus olhos prometeram que aquilo não acabaria ali. Foi então que um ancião de cabelos brancos se aproximou do corpo. Eu o tinha visto no altar, entre os outros, mas agora ele parecia mais velho, mais pálido, quase doente.
— Caelo — Dalle chamou. — Você conhece essas palavras?
O ancião Caelo fitou a frase , e todo o sangue pareceu sumir do rosto dele. Seus dedos tremeram perto do próprio peito, como se procurassem algum amuleto escondido sob a roupa. Ele demorou demais para responder, e quando respondeu, sua voz veio baixa.
— São... palavras antigas, Majestade.
— Eu perguntei se conhece.
Caelo engoliu em seco.
— Conheço lendas, só isso.
Mentiroso.
Eu não sabia de quase nada sobre aquele mundo, mas sabia reconhecer medo, e Caelo não estava assustado por causa do corpo. Estava assustado por causa da frase.
Dalle olhou para mim de novo.
— Levem-na.
Meu coração pulou.
— Para onde?
— Para um lugar onde você não tropece em mais mortos.
— Eu disse que não fiz nada!
— Então reze para que consigamos provar isso antes que eu decida te matar por precaução.







