Capítulo 4

POV AMÁLIA

Os guardas me arrastaram pelos corredores como se eu fosse um saco de lixo que alguém tinha esquecido no meio do palácio. Tentei puxar meus braços, tentei firmar os pés no chão, tentei explicar pela décima vez que não tinha matado ninguém, mas nenhum deles parecia interessado em ouvir. 

— Eu não fiz nada! — gritei, tentando olhar para trás, mas um dos guardas apertou meu braço com tanta força que senti os dedos dele cravarem na minha pele. — Vocês estão me ouvindo? Eu não fiz nada! Eu só encontrei o corpo!

— Cala a boca — um deles rosnou. — Já deu problema demais por uma noite.

— Eu sou a Luna de vocês!

O guarda riu.

— Não vi marca nenhuma em você.

Aquilo me calou por um segundo, porque era verdade. Tinha sido casada com o Imperador diante de toda a corte, mas não tinha marca, não tinha quarto de Luna, não tinha joia, não tinha respeito. Tinha só um vestido que nem era meu, sangue na barra e a suspeita de ter feito bruxaria em um morto que eu nunca tinha visto na vida.

Ótimo.

Quando achei que nada poderia ser pior do que viver no porão, a vida deu um jeito de me surpreender. Achei que não fosse possível, mas o mundo sempre gostava de me provar as coisas podiam ficar mais fodidas do que já estavam...

Pararam diante da porta do quartinho que onde tinham me enfiado antes, um deles abriu a porta, outro me empurrou para dentro, e eu caí de joelhos no chão duro antes que conseguisse me equilibrar. A dor subiu pelas minhas pernas, mal tive tempo de respirar antes que a porta batesse atrás de mim com um som seco, pesado, definitivo.

Corri até ela e bati com as duas mãos.

— Abram! — gritei. — Eu não fiz nada! Vocês não podem me deixar aqui!

— Podemos sim — um guarda respondeu do outro lado. — E se continuar berrando, vamos te amordaçar!

— Seus idiotas! Eu não fiz nada!

Ninguém respondeu.

Bati mais uma vez, mas porta não abriu, claro que não abriu. Encostei a testa na madeira, respirando rápido, tentando segurar o choro por pura teimosia, porque parecia que eu tinha passado a vida inteira tentando não chorar na frente dos outros e agora estava sozinha demais para continuar fingindo.

Deslizei até o chão.

Foi ali que desabei.

Não foi um choro bonito, silencioso, delicado, desses que as damas deviam ter quando sofriam em vestidos caros. Foi feio, uma coisa presa no peito há anos, saindo junto com soluços que fizeram minhas costelas doerem. Chorei por Lyssandra,  pelo bilhete no meu espartilho, pelo vestido que me sufocava, pela marca que Dalle não me deu, e que eu nem queria, mas que seria algo que me protegeria aqui nesse lugar de merda, por Mirella rindo com a joia que deveria ser minha, pelo guarda morto, pela acusação de bruxaria, por todos aqueles olhos me tratando como se eu fosse uma coisa suja.

E chorei porque, no fundo, eu sabia a verdade.

Ninguém viria me salvar.

Nem meu pai, que me deu como substituta, nminha irmã que estava vivendo o amor dela as custas de meu sofrimento, muito menos aquele Imperador frio que me olhava como se eu fosse um problema político embrulhado em renda branca. Se eu fosse condenada por bruxaria, talvez ele nem ligasse, quem sabe só erguesse a taça de novo, brindasse ao futuro do império e deixasse que queimassem a esposa sem marca no pátio do palácio.

Era isso que eu era para ele, uma formalidade que não saiu como planejado, só estava aqui porque ele não podia assumir uma concubina como Luna, só isso, o reino não iria aceitar.

Aos poucos, o cansaço foi me vencendo. Estava com fome, com frio, com o corpo doendo. Tentei levantar para ir até a cama, mas minhas pernas não obedeceram. Então fiquei ali mesmo, no chão, encolhida perto da porta, usando o véu rasgado como travesseiro e o próprio vestido como coberta. A última coisa que vi antes de apagar foi a luz fraca da lua entrando pela janela estreita e formando uma linha pálida no chão.

Quando abri os olhos de novo, não estava mais no quarto.

Estava em uma caverna.

O chão sob meus pés era frio e molhado, e eu sabia que estava descalça mesmo sem olhar. Havia pedra por todos os lados, paredes enormes subindo até uma escuridão que parecia não terminar nunca. Água pingava em algum lugar distante, lenta, irritante, e o som ecoava por toda parte. Então ouvi o som de correntes pesadas se arrastando pelas pedras. Meu corpo inteiro ficou rígido, mas não havia para onde correr.

Então a escuridão à minha frente se mexeu como se estivesse viva.

— Frigg...

A voz veio de dentro dela.

Dei um passo para trás, o coração disparado.

— Esse não é meu nome.

As correntes rangeram de novo. Algo enorme respirou no fundo da caverna, e o ar pareceu ficar mais quente, mais pesado, cheio de uma presença que não parecia humana, mas também não parecia só fera. Eu queria ter medo, e eu tinha, mas havia outra coisa junto. Uma sensação absurda de reconhecimento, como se alguma parte de mim tivesse ouvido aquela voz por muito tempo antes.

— Mentiram para você.

Apertei os braços contra o peito.

— Quem é você?

Por um instante, dois olhos se abriram na escuridão. Não eram olhos humanos, eram grandes, claros, acesos como luas. Minha respiração ficou presa na garganta e eu recuei mais um passo, mas a voz não ficou brava, pelo contrário, veio baixa, quase triste.

— Sou aquele que esperou por tanto tempo... Tanto tempo...

— Esperou por quem?

— Por você.

Balancei a cabeça, sentindo lágrimas arderem nos olhos até dentro do sonho.

— Eu não sou essa Frigg. Eu sou Amália.

— Frigg...

— Eu não... Não sei quem é Frigg...

A escuridão pareceu se inclinar na minha direção.

— É você... Meu amor...

Senti uma dor atravessar meu peito, fina e profunda, como se alguma coisa dentro de mim tivesse ouvido aquilo e tentado responder. Levei a mão ao coração, respirando com dificuldade, e por um segundo ouvi um uivo tão distante que parecia vir debaixo da minha pele. As correntes se moveram outra vez, mais perto, e a presença no escuro falou com uma calma que me assustou mais do que se fosse um grito.

— Eles te arrancaram de você mesma.

— Para...

— Eles deixaram sua carne viva e enterraram sua alma aqui, comigo, como fazem vida após vida...

— Para!

A caverna tremeu.

Acordei com um soluço preso na garganta, sentando de uma vez no chão do quarto. O ar estava frio, a porta continuava trancada e a luz da manhã ainda não tinha chegado. Por alguns segundos, só fiquei ali, tentando entender onde estava, passando as mãos pelo rosto, pelo pescoço, pelo peito. Eu estava inteira, ainda estava no quarto, ainda estava usando o vestido sujo, ainda estava sozinha.

Então ouvi um rangido baixo.

Devagar, olhei para o chão ao meu lado.

Havia marcas fundas na madeira.

Marcas compridas, rasgadas, como se garras enormes tivessem arranhado o chão bem perto de onde eu tinha dormido. O sangue sumiu do meu rosto. Toquei uma das marcas com a ponta dos dedos e senti a madeira rasgada em vários pontos, quebrada, real demais para ser só coisa da minha cabeça.

Meu coração começou a bater tão rápido que o mundo pareceu girar ao meu redor.

— Não... — sussurrei. — O que...

Foi quando meu pulso queimou.

Puxei a manga do vestido para cima com tanta pressa que quase rasguei o tecido, e o que vi me fez esquecer até de respirar. Na parte de dentro do meu pulso havia uma manchinha escura, delicada e estranha, como uma marca de nascença pequena demais para chamar atenção de longe, mas nítida demais para mim. As linhas formavam um lobo curvado, com o focinho erguido para uma lua, não era um desenho perfeito, mas eu conseguia ver com clareza.

Então, a porta se abriu de repente.

Uma criada entrou com uma bandeja nas mãos e quase derrubou tudo quando me viu sentada no chão, com os olhos arregalados e a manga puxada até o cotovelo. Ela era jovem, talvez pouco mais velha do que eu, com cabelos castanhos presos de qualquer jeito, seus olhos estavam arregalados de susto enquanto ela encarava meu pulso e o chão ao meu lado, o rosto pálido.

— Pela deusa lua... — ela murmurou. — O que aconteceu aqui?

Tentei cobrir o pulso, mas ela já tinha visto, eu sabia.

A bandeja tremeu nas mãos dela.

— Essa marca...

— Não conta — pedi, levantando rápido demais e ficando tonta. — Por favor, não conta para ninguém. Eu não sei o que é, eu juro. Não fiz bruxaria, não matei aquele guarda, não sei que merda está acontecendo comigo e... E...

Ela olhou para a porta aberta, depois para mim, depois para as marcas de garras no chão. Por um segundo, achei que fosse gritar pelos guardas. Achei que fosse me entregar, dizer que a bruxa sem loba tinha acordado com símbolo estranho na pele e arranhões demoníacos no quarto. Mas ela entrou depressa, fechou a porta atrás de si e colocou a bandeja sobre a mesa com cuidado demais.

— Meu nome é Naya — disse, a voz quase sem som. — E se os guardas virem isso, eles matam você antes do café esfriar, cobre logo!

Meu corpo gelou.

— Você sabe o que é?

Naya se aproximou devagar, como se eu fosse uma fera acuada. Pegou meu pulso com cuidado, sem apertar, e olhou para a marca como se estivesse vendo uma assombração. Seus dedos estavam frios quando tocaram minha pele.

— Minha avó contava histórias sobre esse símbolo, os mais velhos sabem o que é isso — sussurrou. — Mas ela sempre mandava a gente fingir que não sabia. Dizia que só gente burra falava do Supremo em voz alta dentro de território imperial.

Meu estômago afundou.

— Supremo?

Naya ergueu os olhos para mim, pálida.

— Essa marca não pertence a nenhuma alcateia viva, senhora.

— Então pertence a quem?

Ela respirou fundo, tremendo tanto quanto eu.

— Às lendas do Lobo Supremo.

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