Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV AMÁLIA
Finalmente você voltou.
Olhei em volta, procurando alguém que também tivesse ouvido, mas os nobres só me encaravam como se eu tivesse cometido algum tipo de crime, a mulher de vermelho segurava o diamante-lua no pescoço com os dedos rígidos, e o Imperador respirava como um animal furioso, tentando se recompor diante da corte inteira.
Só que eu vi.
As mãos dele ainda tremiam.
— Continue — Dalle ordenou ao ancião, a voz baixa e dura.
O velho engoliu em seco, ainda segurando a fita dourada entre nós.
— Majestade, o vínculo... Eu percebi que...
— Mandei continuar!
O ancião baixou os olhos, claramente apavorado, e recomeçou as palavras antigas como se não tivesse acabado de ver o homem mais poderoso, o grande imperador, simplesmente ignorar a coisa mais sagrada entre os lobos. Dalle terminou os votos sem tocar em mim de novo, quando precisava responder, respondia seco, sem me olhar, como se eu não merecesse nem isso. Eu repetia as frases que o ancião mandava, tão mecanica quanto ele, porque não iria implorar pela atenção de um homem que nem conheço.
Quando a última frase foi dita, o ancião ergueu a mão.
— Pelo rito da Lua Dourada, a união está oficializada diante da corte. Agora, Vossa Majestade pode marcar sua Luna e selar o vínculo diante de todos.
Meu estômago se revirou, sabia o que uma marca significava. O alfa mordia a pele da companheira, selava o vínculo, era uma ligação de alma. Diziam que era uma entrega tão forte que nenhuma mulher saía igual. Mas Dalle sequer se aproximou. Ele olhou para o ancião como se a sugestão tivesse sido uma ofensa.
— Não haverá marca.
Um murmúrio atravessou o salão e a mulher de vermelho sorriu.
— Majestade... — o ancião tentou. — A tradição...
— A tradição já recebeu o que precisava receber — Dalle cortou. — A casa Veyra está unida à casa Arkan, como é preciso. O resto é desnecessário.
Desnecessário.
A palavra caiu em mim com mais força do que qualquer tapa. Não era só a marca que ele estava recusando. Era meu lugar, o lugar de luna que só me pertenceria de verdade se ele me marcasse. Aquele homem fazia questão de mostrar para todos que não me queria nem como esposa, nem como Luna, nem como mulher. A mulher de vermelho caminhou até ele como se aquele altar também pertencesse a ela.
— Meu amor — disse, baixo o bastante para parecer íntimo e alto o bastante para todos ouvirem. — Não se desgaste com uma formalidade...
Dalle não olhou para mim, apenas ofereceu o braço a ela.
— Vamos.
Então saiu sem nem olhar para trás.
O Alfa Imperador me deixou parada no altar, vestida de noiva, com a corte inteira assistindo. A mulher de vermelho segurou o braço dele e passou por mim devagar, perto o bastante para seu perfume doce me embrulhar o estômago. Quando chegou ao meu lado, inclinou o rosto sem perder o sorriso.
— Bem-vinda ao palácio, coisinha.
Eu não respondi. Se abrisse a boca, talvez chorasse, e eu não queria dar esse gostinho a ela. Fiquei parada enquanto os dois saíam juntos pelas portas laterais, e só então percebi que minhas pernas tremiam. O ancião anunciou alguma coisa sobre a cerimônia estar concluída, mas nem me dei ao trabalho de prestar atenção.
Eu era a noiva e, mesmo assim, não importava.
Passei anos trancada num porão e agora que sai, estava trancada numa prisão mais chique, só isso.
— Ele insiste em fazer isso... — um dos anciãos cochichou atrás de mim.
— Depois do que aconteceu com o pai e o avô, você esperava outra coisa?
— Mas se o vínculo acendeu...
— Cale a boca, aqui não.
Virei um pouco a cabeça, mas eles se afastaram rápido demais. Aquilo. Que merda era aquilo? O que Dalle insistia em fazer? Eu queria entender, mas estava cansada demais, humilhada demais, triste demais. Naquele momento, tudo o que eu conseguia pensar era que Lyssandra tinha fugido de um monstro e minha família tinha me colocado direto na boca dele.
Duas criadas me levaram para fora do salão sem me perguntar nada. Achei, por estupidez, que me levariam para a ala da Luna, ou para algum quarto onde eu pudesse arrancar aquele vestido e respirar. Mas os corredores dourados foram ficando mais estreitos, mais frios, menos iluminados. Subimos uma escada lateral, passamos por portas fechadas, até chegarmos a um quarto pequeno, com paredes cinzentas, uma cama simples e uma janela estreita. Não era um quarto de Luna, era um lugar para esconder alguém.
ótimo, aquele era meu novo porão.
— Fiquem aqui até chamarem — uma criada disse.
— Até chamarem para quê?
Ela olhou para a outra, desconfortável.
— Para o banquete de comemoração, senhora.
Senhora.
Quase ri.
A palavra parecia uma piada naquele quarto frio, com meu vestido torto, meus punhos doloridos e um noivo que saiu com sua amante, me largando sozinha no altar. As duas saíram, e a porta fechou por fora. Fiquei sozinha no meio do quarto, respirando ofegante, até minhas pernas falharem e eu sentar na beira da cama.
Foi só ali que consegui pensar no toque dele.
No vínculo.
Levei a mão ao peito, esperando sentir alguma coisa forte, alguma atração inevitável, aquele desejo devorador que as lendas descreviam quando falavam de companheiros destinados. Mas não havia nada assim. Eu tinha sentido algo, sim, mas era fraco, distante, como uma linha esticada demais prestes a se romper. Como se o vínculo tivesse acendido em mim, mas não totalmente, parecia que faltava algo.
— Porque eu não tenho loba... É ela que falta.
***
Horas depois, a porta se abriu com um rompante.
Eu ainda estava com o vestido de noiva, porque ninguém trouxe outra roupa. Desci acompanhada por duas criadas silenciosas, passando por corredores cheios de música, risadas e cheiro de carne assada. O salão de festas estava lotado de generais, conselheiros e sacerdotes. Quando entrei, algumas conversas morreram por um segundo.
Depois continuaram como se eu só fosse uma convidada indesejada.
Dalle estava na mesa principal, sentado no centro, e a mulher de vermelho estava ao lado dele. Não em uma cadeira distante, ao lado, perto o bastante para tocar seu braço, rir em seu ouvido, inclinar-se sobre a taça dele como se já fosse dona de tudo, mostrando aquele decote enorme com peitos quase saltando pra fora pra ele como uma prostituta. Será que ela era uma das mulheres do tal harém que ele tinha? Não... Uma concubina qualquer não usaria aquela joia...
Ela deve ser uma amante.
Quando uma criada passou perto dela, ouvi alguém chamá-la de senhora Mirella, e o nome grudou na minha cabeça. Mirella. A mulher que usava minha joia, amulher que segurava o imperador que deveria ser meu marido agora. A mulher que todos pareciam aceitar como rainha enquanto eu era empurrada para uma cadeira na lateral, ainda vestida de noiva.
Eu assisti ao meu próprio casamento ser comemorado sem mim.
Que merda era aquela? Por que ele me mantinha ali?
Mirella ria o tempo inteiro, tocava o braço de Dalle, aceitava elogios, deixava o diamante-lua brilhar sobre o peito como se aquilo não fosse uma afronta. Ele não a afastava, não me olhava, não dizia nada.
Eu comi duas garfadas sem sentir gosto, segurando o choro, e então, quando as taças foram erguidas para o primeiro brinde da noite, Mirella levantou-se devagar, levando uma mão elegante até a barriga.
— Antes que celebremos essa união tão importante para o império — ela disse, olhando para mim com um ar de soberba —, talvez exista outra bênção que mereça ser celebrada.
O salão ficou atento e Dalle virou o rosto para ela.
Mirella sorriu.
— Talvez eu já esteja carregando o primeiro filho do Imperador.
Por um segundo, ninguém respirou, depois o salão explodiu em aplausos.
Generais bateram taças na mesa, conselheiros sorriram, sacerdotes ergueram as mãos como se aquilo fosse uma dádiva. Alguns anciãos ficaram sérios ao longe, mas não manifestaram sua insatisfação, afinal, quem iria contrariar o imperador?
Eu fiquei imóvel, olhando para Dalle e esperando que ele ao menos dissesse algo, que olhasse para mim uma vez, uma única vez, e lembrasse que tinha se casado comigo naquela tarde.
Mas ele não negou.
Dalle apenas pegou a taça, ergueu-a diante da corte e disse:
— Ao futuro do império!
Minha respiração ficou ofegante, meu peito se apertou e minha visão começou a escurecer.
Era disso que minha irmã tinha fugido, de ser só um enfeite, humilhada publicamente, apenas uma peça para a união das duas famílias.
Por que ele precisava de mim se já tinha ela? Que prazer de merda era esse em me humilhar na frente de todos?
Levantei antes que percebesse o que estava fazendo, a cadeira arrastou no chão, algumas pessoas olharam, mas ninguém tentou me impedir. Saí do salão com passos rápidos, sem saber para onde estava indo. Só precisava sair dali antes que o choro me vencesse na frente de todos. Atravessei um corredor, depois outro, até chegar à escadaria que descia por trás da sala do trono.
Foi quando meu pé bateu em alguma coisa, me fazendo tropeçar desajeitada.
Olhei para baixo, esperando ver um degrau quebrado ou um pedaço de tecido, mas não era isso.
Era um corpo.
Um guarda estava caído de costas sob a escadaria, a boca aberta em um grito que nunca saiu. Seus olhos tinham sido arrancados, deixando duas órbitas vazias e ensaguentadas encarando o teto. O sangue escorria pelos degraus, escuro, grosso, fresco.
Soltei o ar num gemido quebrado, então vi a frase entalhada no peito dele.
A Luna foi traída.
O Supremo despertou.







