Início / Romance / Herdeira por Contrato / 2 - O Ultimato de Mármore
2 - O Ultimato de Mármore

 

Se o escritório de Arthur Valla era seu santuário de lógica e ordem, a sala de visitas da mansão, naquela manhã de terça-feira, havia se transformado em um campo de batalha jurídico onde as armas não eram códigos penais, mas as percepções da moralidade vitoriana. O sol pálido de Londres, lutando contra a névoa persistente, filtrava-se pelas pesadas cortinas de veludo carmesim, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar denso entre Arthur e seu visitante, o Meritíssimo Juiz Alistair Thorne.

Thorne não era apenas um magistrado; ele era uma instituição. Um homem cujas sobrancelhas espessas e grisalhas pareciam permanentemente unidas em um julgamento severo sobre a alma humana. Ele não se sentava; ele ocupava o espaço, exalando o cheiro de tabaco caro e o peso de décadas decidindo o destino alheio. Ele pigarreou, um som seco que ecoou como um tiro no silêncio da sala.

— Sr. Valla, sejamos francos, pois meu tempo é tão escasso quanto sua paciência para formalidades — começou Thorne, folheando um dossiê com dedos curtos e decididos. — Sua reputação nos tribunais é... brilhante, admito. O senhor é o bisturi que corta as ambiguidades da lei. Mas sua reputação fora deles?

Thorne fez uma pausa dramática, levantando os olhos para Arthur.

— Boatos de noitadas em clubes de cavalheiros de reputação duvidosa, um histórico de completa indiferença a qualquer laço doméstico e, o mais preocupante de tudo, a ausência total de uma presença feminina nesta casa. Onde está o toque de suavidade que uma criança exige, Valla?

Arthur, sentado em sua poltrona de couro capitonê, não moveu um músculo. Seus dedos estavam unidos pelas pontas, formando uma pirâmide perfeita diante do rosto, uma barreira física entre ele e o ataque de Thorne.

— Meu irmão confiou a guarda de Sophie a mim em seu testamento, Meritíssimo — respondeu Arthur, sua voz mantendo a cadência fria de um relógio de precisão. — A lei é clara sobre a soberania dos desejos do falecido. Eu sou o sangue dela. Eu sou sua proteção legal.

— A lei também é clara sobre o parens patriae, o dever do Estado de zelar pelo bem-estar do menor — rebateu Thorne, inclinando-se para a frente, a poltrona rangendo sob seu peso. — Uma criança de seis anos, traumatizada pela perda trágica dos pais, não precisa de um "gestor de ativos" ou de um tutor que a veja como um item em um balanço patrimonial. Ela precisa de um lar, de calor, de uma estrutura que o senhor, em sua vida de solteiro convicto e workaholic, parece incapaz de fornecer.

— Eu contratei uma governanta altamente qualificada — disse Arthur, o tom de voz subindo um oitavo, tornando-se mais cortante. — A Srta. Sterling já está exercendo suas funções. A casa está sob nova administração.

— Uma funcionária, Valla? — O juiz soltou uma risada seca e sem alegria. — Uma governanta é uma peça de engrenagem. O que o conselho tutelar exige é a estabilidade de uma família completa. Há primos na Escócia, os Campbell, que já peticionaram a guarda. Eles têm uma propriedade rural, cinco filhos e uma esposa dedicada que cheira a sabão e bondade.

Arthur sentiu uma pontada de fúria genuína, uma rachadura em sua armadura de gelo. Ele conhecia os Campbell. Eram abutres de linhagem antiga, cujas terras estavam hipotecadas até o último centímetro. Eles mal esperaram o enterro de seu irmão para começar a calcular o valor das propriedades que Sophie herdaria aos dezoito anos.

— Os Campbell não estão interessados na menina, Thorne. Eles estão interessados no dote e no controle das terras que ela carrega. Entregá-la a eles seria o mesmo que entregar uma ovelha a lobos famintos que usam tartã.

— Talvez — admitiu Thorne, levantando-se e ajeitando o casaco. — Mas, aos olhos da Corte, eles oferecem a moldura de um lar. O senhor oferece apenas um museu elegante e silencioso. Farei uma inspeção formal em uma semana. Se eu não vir provas concretas de que esta casa se tornou um ambiente familiar genuíno, eu assinarei a transferência. O dinheiro não compra a benevolência do tribunal desta vez, Arthur. Considere-se avisado.

 

Enquanto a tempestade política rugia no andar de baixo, Lara Sterling enfrentava seu próprio julgamento no quarto de Sophie. A menina estava sentada no meio da imensa cama de dossel, parecendo ainda menor sob os lençóis de seda. Ela abraçava um urso de pelúcia surrado, que perdera um dos olhos de botão em algum momento do caos das últimas semanas. Sophie não chorava mais alto; ela emitia um soluço silencioso, um tremor rítmico que era muito mais dilacerante do que qualquer grito.

Lara não tentou forçar uma aproximação. Ela sabia que a confiança de uma criança ferida era como o vidro: demorava a ser moldada e quebrava-se com um sopro. Ela sentou-se no chão, sobre o tapete grosso, e começou a abrir sua pequena caixa de costura de jacarandá.

— Sabe, Sophie — começou Lara, sua voz suave como o veludo das cortinas —, eu tive um urso muito parecido com esse. O nome dele era Barnaby. Ele também perdeu um olho em uma aventura terrível contra um gato de rua que tentou roubar um biscoito.

O soluço de Sophie parou por um segundo. Um olho azul, úmido e curioso, espiou por trás da massa de cachos loiros desgrenhados.

— O que... o que aconteceu com ele? — a voz da menina era um sussurro rouco, quase sem uso.

— Bem, eu não sou exatamente uma médica de ursos — disse Lara, tirando um carretel de linha de seda azul e uma agulha fina —, mas sou uma costureira razoável. Eu dei a ele um olho de pérola que pertencia a um brinco antigo. Ele ficou parecendo um pirata muito elegante e corajoso.

Lentamente, Sophie engatinhou até a beira da cama e estendeu o brinquedo. Lara o pegou com uma reverência solene, tratando o pedaço de pano como se fosse uma relíquia sagrada.

— Como ele se chama?

— Sr. Pompom — respondeu Sophie, finalmente descendo da cama e sentando-se no tapete, a uma distância cautelosa de Lara.

— Um nome nobre para um guerreiro de tantas batalhas — sorriu Lara.

Enquanto seus dedos ágeis trabalhavam na reparação, Lara começou a narrar histórias de dragões que, em vez de cuspir fogo, preferiam organizar festas de chá com tortas de maçã. Ela sentia o olhar de Sophie pesando sobre ela. Lara via a si mesma naquela menina; ela conhecia o abismo de perder o mundo e ser deixada à mercê de parentes que viam apenas números e obrigações.

De repente, a porta do quarto abriu-se com um estrondo. Arthur Valla entrou, a aura de autoridade e frustração exalando dele como uma tempestade iminente. Sophie imediatamente encolheu-se, escondendo-se atrás do ombro de Lara, o progresso de dez minutos sendo ameaçado pela presença esmagadora do tio.

Lara sentiu o tremor da menina e, instintivamente, colocou a mão sobre o pequeno ombro dela. Ela levantou o olhar para Arthur com uma severidade que o fez estacar no meio do quarto.

— Sr. Valla — disse ela, o tom de voz indicando claramente que ele era um intruso indesejado. — Estamos no meio de uma cirurgia de emergência no Sr. Pompom. O paciente exige silêncio e concentração. Poderia nos dar um momento?

Arthur piscou, pego de surpresa. Em sua vida inteira, ninguém jamais pedira para que ele se retirasse de um cômodo de sua própria casa, muito menos uma funcionária contratada há menos de vinte e quatro horas. Ele olhou para a governanta sentada no chão, rodeada de linhas, e para sua sobrinha, que o encarava com um medo que lhe causou um desconforto gástrico que ele não sabia identificar como culpa.

— Preciso falar com você, Srta. Sterling. No escritório. Agora.

— Assim que o paciente estiver estável, senhor — respondeu Lara, voltando sua atenção para o urso com uma calma irritante.

Arthur abriu a boca para retrucar, mas as palavras morreram em sua garganta ao notar que Sophie não estava mais chorando. Ela estava observando Lara com uma admiração silenciosa. Ele deu meia-volta e saiu, fechando a porta com uma força controlada que ainda assim fez os quadros no corredor vibrarem.

 

Dez minutos depois, Lara entrou no escritório. O ambiente cheirava a conhaque e papel antigo. Arthur estava de pé junto à janela, observando o movimento da rua com a intensidade de um general planejando um cerco.

— Você tem um modo muito peculiar de tratar seu empregador, Srta. Sterling — disse ele, sem se virar.

— E o senhor tem um modo muito peculiar de tratar uma criança, Sr. Valla. Ela não é uma ré em um tribunal, nem uma testemunha a ser intimidada. Ela está de luto. E o luto não segue o horário comercial.

Arthur virou-se, o rosto parcialmente obscurecido pelas sombras. O juiz Thorne havia deixado uma marca nele que a lógica não conseguia apagar.

— O juiz Thorne esteve aqui. Ele acredita que sou um libertino frio e que esta casa é um hotel de luxo para minha conveniência, não um lar para uma órfã. Ele ameaçou dar a guarda aos Campbell em uma semana se eu não provar que sou um "homem de família".

Lara cruzou os braços sobre o peito, sustentando o olhar dele.

— E o senhor é? Ou pretende apenas contratar alguém para fingir que é?

— Eu sou o único que garantirá que a fortuna de Sophie permaneça dela e que ela receba a melhor educação da Europa. Mas Thorne deixou claro: um solteiro é um sinal de instabilidade. Ele quer ver uma união. Ele quer ver uma esposa.

Lara sentiu um calafrio. O ar no escritório pareceu subitamente rarefeito.

— O que o senhor está sugerindo, Sr. Valla? — perguntou ela, a voz baixa, o instinto de sobrevivência gritando em seus ouvidos.

Arthur caminhou até a mesa e pegou um copo de conhaque, mas não bebeu. Ele olhou para Lara, não como uma governanta, mas como um parceiro de negócios que possuía o único ativo que ele não podia comprar com dinheiro: credibilidade.

— O juiz não voltará para ver uma babá, Lara. Ele voltará para ver uma noiva.

O coração de Lara deu um salto violento contra as costelas.

— Perdão? O senhor enlouqueceu?

— Você precisa de dinheiro. Muito dinheiro. Para pagar dívidas de jogo de um pai falecido que, se eu pesquisar, provavelmente me levarão a cobradores que não usam luvas de pelica — disse Arthur, dando um passo em direção a ela. — E eu preciso de uma imagem de respeitabilidade que só uma mulher com sua educação, seus modos aristocráticos e sua estranha capacidade de acalmar aquela criança pode me dar.

— O senhor está me propondo uma fraude contra a Coroa? — ela sussurrou, horrorizada e, ao mesmo tempo, sentindo o peso daquela tábua de salvação.

— Estou propondo um contrato de benefício mútuo — corrigiu ele, a voz agora suave, sedutora como uma sentença favorável. — Um noivado de conveniência. Seis meses. Você assume o papel de minha futura esposa diante de Thorne e da sociedade. Garante que Sophie fique sob minha tutela. No final do período, o noivado é desfeito por "incompatibilidade irreconciliável". Em troca, eu liquido cada centavo de suas dívidas hoje mesmo e lhe dou uma soma ao final do contrato que garantirá que você nunca mais precise costurar um botão para ninguém.

Lara recuou, a mente girando. Era a liberdade. Era o fim do medo de ser arrastada para os becos pelos credores. Mas era também uma mentira que, se descoberta, a levaria para a prisão de Newgate.

— Por que eu? — perguntou ela, a voz trêmula. — O senhor poderia encontrar qualquer debutante desesperada por sua fortuna.

— Porque aquelas damas querem o meu nome para sempre. Elas querem o amor, a posse, a chave do cofre. E você... você só quer desaparecer. Somos iguais nisso, Srta. Sterling. Não temos espaço para o amor em nossos planos, mas temos uma necessidade mútua de sobrevivência.

Lara olhou para a porta, visualizando o rosto de Sophie, e depois para o homem à sua frente — belo, implacável e claramente tão quebrado quanto a casa que tentava proteger.

— Se eu aceitar — disse ela, a voz ganhando uma firmeza nova —, quero que fique claro: isso é estritamente um negócio. Não haverá... intimidades. O senhor será meu empregador no papel de noivo, nada mais.

Arthur soltou um riso curto e seco, sem qualquer traço de humor.

— Pode ficar tranquila, Lara. O amor não faz parte do meu vocabulário, e muito menos deste contrato.

Ele estendeu a mão, grande e forte. Lara hesitou por um segundo eterno, vendo seu passado de miséria e seu futuro de incertezas colidirem. Ela colocou sua mão sobre a dele. O toque foi como um choque, uma faísca que prometia incendiar a mentira que acabavam de criar.

— Temos um acordo? — perguntou ele, os olhos cinzentos brilhando com a vitória.

— Temos um acordo — respondeu ela.

Naquele momento, o destino riu nos corredores da mansão Valla. O contrato estava assinado, mas ambos haviam esquecido que, em tribunais do coração, não existem advogados capazes de prever o veredito final.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App