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Herdeira por Contrato
Herdeira por Contrato
Por: Charles Wilde
1 - O Som do Martelo e o Peso do Silêncio

 

O ar no Tribunal de Londres não era apenas denso; era carregado de um peso histórico e de um cheiro persistente de papel antigo, cera de abelha e o suor frio dos desesperados. Sob o teto abobadado de carvalho escuro, onde as sombras pareciam sussurrar os pecados de séculos passados, Arthur Valla permanecia imóvel. Ele não era apenas um homem naquele recinto; era um monumento à ordem e à implacabilidade.

Arthur ajustou milimetricamente o punho de sua camisa de linho egípcio, garantindo que as abotoaduras de prata — brasões discretos, mas caros — estivessem perfeitamente alinhadas. Para ele, a aparência era a primeira linha de ataque. Um homem que permitia uma dobra em seu casaco de lã fina era um homem que permitia uma falha em seu raciocínio. E Arthur Valla não falhava.

— Meritíssimo — a voz de Arthur surgiu, não como um grito, mas como um violoncelo bem afinado que preenchia cada fresta da sala. — A questão que nos traz aqui hoje foi deliberadamente nublada por sentimentalismos baratos. Não estamos discutindo a moralidade da fortuna de meu cliente, nem a ética de seus investimentos. Estamos aqui para validar a soberania do contrato.

Ele caminhou dois passos à frente, o som de suas botas de couro polido ecoando no mármore. Seus olhos, de um cinza gélido que lembrava o aço das baionetas em dia de névoa, fixaram-se no juiz.

— A cláusula de rescisão foi assinada em plena posse das faculdades mentais de ambas as partes. Se o autor da ação optou por ignorar as letras miúdas em favor de um lucro imediato, o custo de sua negligência não deve, sob hipótese alguma, recair sobre o meu constituinte. A lei não é uma rede de segurança para os imprudentes, mas um trilho para os precisos.

O advogado da acusação, um homem de meia-idade cujo colarinho parecia apertado demais, levantou-se com as mãos tremendo visivelmente.

— Mas, Sr. Valla! — exclamou ele, a voz falhando. — Estamos falando da ruína total de uma linhagem! A falência de uma família inteira, com crianças que perderão o teto sobre suas cabeças!

Arthur virou a cabeça de forma lenta, predatória. Um sorriso que jamais alcançava os olhos curvou o canto de seus lábios, uma expressão que era mais um aviso do que um gesto de cortesia.

— O tribunal, meu caro colega, lida com fatos, datas e assinaturas. Se o senhor deseja discutir o destino de famílias ou a salvação de almas, sugiro que procure o clero em Westminster, não o banco dos réus. Aqui, o único deus é o texto escrito.

O martelo do juiz bateu com um som seco, finalista. Vitória para os Valla. Arthur não sorriu, não comemorou e não apertou mãos. Ele apenas recolheu seus papéis com uma precisão cirúrgica, organizando-os na pasta de couro como se estivesse guardando instrumentos médicos após uma operação bem-sucedida. Para ele, a vitória não era um motivo de alegria, mas a confirmação de que o mundo ainda operava sob sua lógica. O fracasso, para Arthur, era uma variável estatística que ele simplesmente se recusava a incluir em suas equações.

Ao sair para a rua cinzenta, a neblina de Londres — o famoso "London Fog" — começava a descer, abraçando os lampiões de gás e dando à cidade um ar fantasmagórico. Seu secretário, um jovem pálido chamado Pendergast, já segurava a porta da carruagem preta e brilhante.

— Excelente desempenho, Sr. Valla — murmurou o assistente. — O clube estaria honrado em recebê-lo para um brinde hoje.

— Para o escritório, Pendergast — respondeu Arthur, a voz desprovida de qualquer traço de cansaço. — O mundo não para de girar porque um contrato foi assinado. O silêncio da minha mesa é muito mais produtivo do que as fofocas vazias e o cheiro de charuto barato do clube.

Enquanto a carruagem partia, o reflexo de Arthur no vidro da janela mostrava um homem jovem, rico e poderoso, mas estranhamente isolado. Ele era uma fortaleza de mármore: imponente por fora, mas com portões trancados por dentro.

 

A quilômetros dali, o cenário era outro. Em um bairro onde o brilho das carruagens raramente penetrava e o cheiro de carvão queimado era onipresente, o mundo de Lara estava desmoronando. Não havia mármore aqui, apenas madeira podre e o medo constante.

Lara apertou o xale contra o peito, sentindo o frio úmido penetrar até os ossos. Ela subia as escadas da pensão com passos leves, tentando não fazer as tábuas rangerem, mas o som de vozes masculinas vindo do corredor superior a fez congelar.

— Eu sei que a ratinha está escondida aí! — a voz era grossa, carregada de fumo e maldade. — O velho bêbado do pai dela nos deve cinquenta libras de jogo e juros. Se ela não aparecer com o dinheiro, vou levar os móveis, as joias que sobraram e talvez a própria moça para trabalhar nas docas e pagar a dívida do pai!

Lara sentiu um nó na garganta. Cinquenta libras. Para ela, naquele momento, o valor poderia ser uma fortuna real. Desde que o pai falecera, deixando apenas dívidas e um rastro de vergonha, ela vivia de migalhas. Ela, que um dia teve mãos feitas para o piano e vestidos de seda, agora tinha os dedos picados por agulhas de costura e a pele pálida de quem pulava refeições para manter o teto sobre a cabeça.

Com a agilidade de quem aprendeu a sobreviver nas sombras, ela recuou. Desceu os degraus em silêncio e saiu por uma porta lateral, mergulhando em um beco estreito onde a água da chuva escorria pelas calhas entupidas.

— Pense, Lara. Pense — sussurrou para si mesma, encostando a testa na parede fria de tijolos.

Sua bolsa continha apenas algumas moedas e uma carta amassada que era sua última esperança. Era uma resposta de uma agência de empregos de elite, a Standard & Cross. Havia uma vaga urgente para governanta na residência de um "homem de negócios de grande prestígio". O salário era astronômico para os padrões de uma babá, mas as exigências eram quase impossíveis: educação de lady, discrição absoluta e a força necessária para lidar com uma tragédia familiar.

Lara olhou para suas mãos. Elas ainda guardavam a elegância da antiga nobreza que sua família ostentara antes das apostas e do álcool destruírem tudo. Ela ainda sabia como se portar, como falar e como ocultar o pânico sob uma máscara de gelo.

— É a minha única saída — murmurou ela, as palavras virando vapor no ar frio. — Se eu conseguir esse emprego, poderei desaparecer. Eles nunca me procurarão em uma mansão em Mayfair.

 

Enquanto Lara planejava sua fuga da miséria, Arthur Valla chegava à sua mansão, um monumento à ordem e ao luxo silencioso. No entanto, ao cruzar o hall de mármore negro, o silêncio que ele tanto prezava foi estilhaçado por um som que ele considerava uma afronta à lógica: o choro.

Era um pranto agudo, desesperado, vindo da biblioteca de painéis de carvalho. Arthur caminhou até lá, seus passos rápidos revelando sua irritação. Ao abrir a porta, encontrou uma cena de puro caos. O Sr. Henderson, seu mordomo de confiança, tentava equilibrar uma bandeja de chá enquanto Sophie, uma menina de seis anos com cachos loiros em total desordem, soluçava sobre um tapete persa que valia mais do que a maioria das casas de Londres.

— Sr. Valla! — Henderson parecia ter envelhecido dez anos em uma tarde. — Ela se recusa a comer, senhor. Ela quebrou o bule de porcelana e diz que não quer ficar aqui. Ela quer... ela quer a mãe.

Arthur sentiu um aperto estranho no peito, uma sensação física que ele rapidamente classificou como "indigestão" ou "irritação extrema". Seu irmão e a cunhada haviam morrido em um terrível acidente de carruagem há apenas duas semanas. Sophie era o que restava. E, por um testamento que ele agora amaldiçoava internamente, ela era sua responsabilidade legal.

— Sophie — disse Arthur, usando o mesmo tom que usava para interrogar testemunhas. — Levante-se. O chão não é o lugar apropriado para uma dama, e o tapete é antigo demais para ser arruinado por salitre e lágrimas.

A menina olhou para cima. Seus olhos grandes, azuis e inchados, fitaram o tio com uma mistura de medo e ressentimento.

— Eu não quero ser uma dama! — gritou ela, entre soluços. — Eu quero ir para minha casa! Quero meu papai!

— Esta é sua casa agora — respondeu Arthur, sua praticidade sendo quase cruel diante da dor infantil. — Chorar não alterará as leis da física nem os fatos da vida. Seus pais não voltarão, Sophie. O que você pode fazer é se comportar e comer seus biscoitos.

A menina soltou um grito de frustração e escondeu o rosto nas mãos, chorando ainda mais alto. Arthur deu um passo atrás, sentindo-se mais inadequado do que se estivesse sendo julgado por um crime que não cometeu. Ele sabia como vencer o Banco da Inglaterra, mas não tinha a menor ideia de como lidar com o coração partido de uma criança.

Ele saiu da biblioteca e fez sinal para Henderson segui-lo.

— Onde está a mulher que contratamos ontem? A governanta com recomendações da Duquesa de York?

— Ela pediu demissão há uma hora, Sr. Valla. Ela disse que o senhor é... — o mordomo hesitou — ... "assustador demais para se conviver" e que a criança é "emocionalmente instável".

Arthur parou abruptamente, virando-se para o mordomo com um olhar que faria um general recuar.

— Inaceitável. Eu não admito insubordinação ou incompetência. O Conselho Tutelar enviará um inspetor em três dias para avaliar se sou um tutor apto. Se eles virem essa bagunça, levarão Sophie para um orfanato ou para aqueles primos abutres na Escócia que só querem o fundo fiduciário dela.

— Eu compreendo, senhor — Henderson baixou a cabeça. — Mas as agências estão tendo dificuldade. Elas dizem que o "clima" nesta casa é difícil de suportar para as candidatas comuns.

— Então não me traga candidatas comuns! — rosnou Arthur. — Traga-me alguém que tenha espinha dorsal. Alguém que não se intimide comigo e que saiba transformar essa criança em um ser humano funcional. Não me importa o custo. Eu não perco casos, Henderson. E não vou perder a custódia da minha sobrinha por falta de uma funcionária capaz.

 

Na manhã seguinte, o destino, agindo com a precisão de um relojoeiro, colocou Lara diante do imponente portão de ferro forjado da Mansão Valla.

Ela estava usando seu melhor vestido — um azul-marinho que, embora estivesse fora de moda por pelo menos três estações, estava impecavelmente limpo e passado. Seu cabelo estava preso em um coque tão firme que puxava a pele de suas têmporas, conferindo-lhe um ar de severidade aristocrática. Por dentro, ela estava aterrorizada; por fora, era a imagem da compostura.

— Vim pela vaga de governanta — disse ela ao porteiro. — Meu nome é Lara Sterling.

Ela escolhera o sobrenome de solteira de sua mãe. Precisava de uma nova identidade tanto quanto precisava de oxigênio.

Ao ser conduzida pelo hall, Lara sentiu o frio da casa. Não era um frio de temperatura, mas de alma. A mansão era um museu de mármore e silêncio. Tudo era perfeito, mas nada parecia vivo.

Ela foi levada ao escritório de Arthur. Ele estava sentado atrás de uma mesa de carvalho maciço, mergulhado em documentos. A luz da manhã entrava pelas janelas altas, iluminando a poeira que dançava no ar, mas ele parecia absorver toda a claridade para si.

— Sente-se — disse ele, sem levantar os olhos. Não era um convite; era uma ordem processual.

Lara sentou-se, mantendo as costas perfeitamente eretas, as mãos cruzadas sobre o colo. Ela o observou. Ele era mais jovem do que os boatos sugeriam, com traços esculpidos como se tivessem sido talhados em granito. Havia uma força nele, uma gravidade que puxava tudo ao redor para o seu centro.

— A agência diz que você tem referências excelentes de famílias que, convenientemente, se mudaram para as colônias ou faleceram — disse Arthur, finalmente fechando a pasta e cravando o olhar cinzento nela. — Para um homem que vive de provas, Srta. Sterling, isso soa como uma ficção muito bem elaborada.

Lara não desviou o olhar. Ela sentiu o suor frio descendo por suas costas, mas manteve o sorriso leve e profissional.

— Às vezes, a realidade é mais estranha que a ficção, Sr. Valla. Minhas referências pertencem a pessoas que valorizavam a discrição acima de qualquer outra virtude. Algo que, pelo que fui informada, o senhor também preza muito.

Arthur estreitou os olhos. Ele detectou algo nela — não era submissão, mas um desafio silencioso. Ela falava como uma mulher que estava acostumada a dar ordens, não a recebê-las.

— Deixe-me ser direto — disse ele, inclinando-se para a frente. — Eu não procuro uma amiga ou uma companhia para o chá. Procuro uma estrategista. Alguém que pegue uma criança traumatizada e a transforme em uma integrante aceitável da sociedade em tempo recorde. Alguém que ignore meu temperamento e não faça perguntas sobre o que acontece dentro destas paredes.

— Eu sou excelente em não fazer perguntas — respondeu Lara, sua voz firme como o toque de um sino. — Desde que o pagamento seja pontual e as instruções sejam claras.

Arthur sentiu o perfume dela. Não era o perfume pesado e floral das mulheres da corte, mas algo que lembrava lavanda seca e sabão simples, um cheiro de limpeza e ordem que o desconcertou por um breve segundo.

— Você parece educada demais para ser apenas uma babá, Srta. Sterling. Por que está aqui? Qual é o seu verdadeiro objetivo?

Lara sentiu o coração martelar. Ela deu a única resposta que um homem como ele entenderia.

— Pela mesma razão que o senhor está naquele tribunal todos os dias, imagino — disse ela, com uma audácia que a fez tremer por dentro. — Para sobreviver, vencer e garantir que meu futuro não seja decidido pela incompetência alheia.

Um silêncio tenso e elétrico se instalou entre os dois. Era como se duas forças da natureza tivessem finalmente se encontrado. Arthur estudou o rosto de Lara, procurando por qualquer sinal de hesitação ou mentira. Ele viu apenas uma determinação que era o espelho da sua.

— Muito bem — disse ele, levantando-se abruptamente. — O salário é o dobro do que a agência propôs, mas eu exijo dedicação absoluta. Se você falhar, ou se a pequena Sophie não parar de gritar em vinte e quatro horas, você estará na rua antes do pôr do sol. Entendido?

— Perfeitamente — disse Lara, levantando-se com a mesma graça. — Quando começo?

— Agora. Henderson mostrará seus aposentos.

Lara não sabia, mas ao atravessar aquela porta, ela não estava apenas aceitando um emprego; ela estava entrando em um campo de batalha. Arthur Valla, o homem que acreditava que o amor e a dor eram apenas falhas na lógica contratual, estava prestes a descobrir que nem tudo na vida pode ser resolvido com uma cláusula de rescisão.

O mundo de aço dele e o mundo de seda ferida dela haviam acabado de colidir. E as fagulhas dessa colisão estavam prestes a incendiar não apenas a mansão, mas toda a alta sociedade londrina.

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