A sexta-feira chegou com cheiro de coisa boa.
Maya percebeu isso ainda cedo, quando abriu a janela do quarto e sentiu o ar fresco entrar sem pedir licença. Não havia pressa naquele dia. Nenhuma decisão pendente. Nenhuma conversa pesada à espera. Apenas a sucessão tranquila de horas comuns — e isso, para ela, ainda era novidade.
Na cozinha, Enzo já estava acordado, sentado no balcão, balançando as pernas enquanto Dona Cida preparava o café.
— Hoje é dia de filme — ele anunciou assim que viu Maya. — O pai deixou.
— Deixou? — ela perguntou, surpresa.
— Disse que sexta pode — Enzo respondeu, orgulhoso, como se tivesse conquistado um direito histórico.
Orion apareceu logo depois, ajeitando o relógio no pulso.
— Sexta-feira precisa de pequenas concessões — disse, como se justificasse para si mesmo.
Maya sorriu. Não comentou. Aprendera que algumas mudanças precisavam acontecer sem aplausos para continuarem existindo.
Depois que Enzo saiu para a escola, a casa ficou silenciosa outra vez. Maya