O que Realmente Importa

Maya

O tempo na cozinha parecia fluir em um ritmo próprio, ritmado pelo tilintar das travessas de prata, o crepitar dos fogões e as risadas contidas das meninas. Conforme as horas passavam, a montagem das bandejas tornou-se quase mecânica para mim, um refúgio prático que mantinha minha mente ocupada e o meu lobo acalmado no peito.

Contudo, a ilusão de paz durou pouco.

O som pesado de passos descendo a escadaria de pedra cortou o burburinho do ambiente. A porta dupla de madeira da cozinha se abriu com um estrondo seco, e Helena adentrou o recinto. Vestida em um corpete de veludo rígido e cobertas de joias ostentosas, minha madrasta parecia completamente deslocada entre os vapores e o calor do subsolo.

Seu olhar varreu a bancada de trabalho até encontrar minha figura. A fúria em seu rosto era evidente, mascarada apenas pela maquiagem pesada que começava a derreter sob o calor das portas.

— Maya! — chamou ela, a voz baixa, mas carregada de uma peçonha afiada que fez Clara e Sofia congelarem ao meu lado.

Engoli em seco, soltando devagar o ramo de alecrim que segurava. Limpei as mãos no avental e dei três passos à frente, mantendo a postura curvada e o queixo cravado no peito.

— Sim, dona Helena? — respondi, o tom neutro.

Helena aproximou-se a passos rápidos, segurando-me pelo cotovelo com uma pressão dolorosa e arrastando-me para o corredor de serviço, longe dos olhares atentos de Marta e das outras criadas.

— O que você pensa que está fazendo, sua idiota? — sibilou ela, encostando-me contra a parede de pedra fria. — Você acha que só porque a Matriarca teve um momento de caridade ridículo você pode se achar livre para circular por onde bem entender?!

— A senhora Eleonora me trouxe pessoalmente para a cozinha... — tentei explicar, a voz trêmula pela surpresa do ataque. — Ela disse que a equipe precisava de ajuda e que eu não teria contato com ninguém do salão.

— Cale a boca! — cortou Helena, os olhos cravados nos meus como duas lâminas. — Não me importa o que a velha disse. Laura está lá em cima agora, sentada ao lado do Alfa Supremo, lutando para manter a atenção de um homem que mal se digna a olhar na cara dela! Aquele desgraçado do Dominic passa a metade do tempo encarando o vazio, farejando o ar como se estivesse procurando algo... ou alguém!

Um arrepio gelado percorreu a minha espinha. A lembrança de Dominic no corredor, congelado e farejando a minha essência, veio à minha mente com uma clareza aterrorizante.

— Se ele suspeitar de alguma coisa, se ele descer até aqui ou se o nome dos Davenport for manchado por causa da sua presença infeliz, eu garanto que o porão da nossa casa vai parecer um paraíso perto do lugar onde vou trancar você — ameaçou Helena, apertando ainda mais o meu braço antes de soltar com nojo. — Você vai terminar essas bandejas ridículas e se recolher imediatamente para o quarto de funcionários. Não quero ver nem a sua sombra perto das escadas principais até a hora de irmos embora!

— Sim, senhora — murmurei, engolindo as lágrimas de raiva e humilhação que queimavam meus olhos.

Helena deu-me as costas, ajeitando a saia do vestido com desdém e subindo as escadas a passos largos, deixando-me sozinha na penumbra do corredor.

Apoiei as costas na parede úmida, levando as mãos trêmulas ao peito para acalmar a respiração descontrolada. O meu lobo interior rosnou baixo, magoado pela humilhação contínua, mas no fundo do meu ventre, uma pulsação sutil lembrou-me do motivo pelo qual eu precisava aguentar tudo aquilo. Eu não estava mais sozinha. Tinha uma vida dependendo do meu silêncio e da minha prudência.

Ajustei o avental e retornei para a cozinha, tentando disfarçar a dor no braço e a pavor que me consumia. Clara olhou para mim com um semblante preocupado, abrindo a boca para perguntar algo, mas apenas balancei a cabeça devagar, pedindo silêncio sem usar palavras.

Peguei mais uma bandeja de prata e voltei ao trabalho. O banquete no andar superior continuaria pela noite adentro, mas, enquanto Helena e Laura lutavam para sustentar uma farsa sob a luz dos lustres de cristal, eu permaneceria ali, nas sombras de Valência, protegendo a única verdade que realmente importava.

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