Mundo ficciónIniciar sesiónMaya
As horas finais da noite avançaram como uma maré lenta e exaustiva. A correria na cozinha do subsolo finalmente começava a diminuir. A maioria das travessas de assados já fora servida, e a equipe agora se dedicava a organizar os pratos de sobremesa e as taças de cristal refinado para o licor. As meninas conversavam em um tom mais baixo, visivelmente cansadas, enquanto Marta supervisionava a contagem das louças no fundo da sala. Sentei-me por um instante no banco de madeira perto da bancada, sentindo o peso do cansaço físico abater-se sobre o meu corpo. Minhas pernas doíam e minhas costas queimavam pelo esforço contínuo de passar horas de pé. No entanto, a náusea avassaladora do início da noite dera trégua, substituída por uma fome sutil e uma calmaria estranha que emanava do meu ventre. Deslizei a mão por baixo do avental de pano, descansando os dedos sobre a barriga ainda plana. Nós conseguimos passar por hoje, pensei em silêncio, deixando um suspiro fraco escapar entre meus lábios. O medo de ser descoberta por Dominic ou de sofrer uma nova agressão de Helena parecia um pouco mais distante ali naquele canto escuro da cozinha. De repente, o som de passos apressados ecoou na escadaria de serviço. A porta dupla de madeira abriu-se com um solavanco, e um dos jovens garçons da guarda real adentrou o recinto, arfando e com o semblante visivelmente tenso. Ele procurou por Marta com os olhos e caminhou rápido até a governanta. — Dona Marta! — chamou o rapaz, a voz trêmula revelando o nervosismo. — O Alfa Supremo ordenou que a senhora suba imediatamente ao salão principal. Ele quer que a senhora e as responsáveis pela preparação do banquete se apresentem perante os anciãos do Conselho. O silêncio caiu instantaneamente sobre a cozinha. O tilintar dos talheres cessou, e até o crepitar dos fogões pareceu silenciar diante da menção ao nome de Dominic. Marta franziu o cenho, ajustando o avental branco sobre o peito com uma postura impecável, embora seus olhos demonstrassem surpresa. — O Alfa Supremo? Por qual motivo, garoto? Aconteceu algum problema com a comida ou com o serviço do banquete? — Não, senhora — explicou o jovem guarda, limpando o suor da testa. — Pelo contrário. O ancião idoso do Conselho do Norte elogiou abertamente a ornamentação das bandejas de prata e a escolha dos temperos. O Alfa Supremo, então, exigiu que as servas que montaram as travessas venham pessoalmente ao salão para receber o agradecimento formal do reino diante de todos os convidados. Um arrepio glacial percorreu a minha espinha, paralisando cada músculo do meu corpo. Senti a cor fugir completamente do meu rosto. Clara e Sofia deram um salto de empolgação, soltando pequenos risinhos contidos e ajeitando os cabelos com ansiedade. Para elas, ser chamada ao salão principal pelo Alfa Supremo era uma honra inédita, uma história para contar por anos. Para mim, era uma sentença de morte. Subir ao salão de banquete significava andar sob a luz direta dos lustres de cristal. Significava ficar a poucos metros de Dominic, exposta ao seu olfato implacável, diante dos olhos de Helena, Arthur e Laura. Se eu colocasse os pés naquele salão, a farsa dos Davenport ruiria em segundos, e a fúria do Alfa Supremo cairia sobre mim e sobre o filho que eu carregava. — Que notícia maravilhosa! — exclamou Marta, abrindo um sorriso orgulhoso e virando-se para a nossa bancada. — Meninas, ajeitem os aventais e limpem as mãos agora mesmo. Clara, Sofia, Beatriz e Maya... vocês vêm comigo. Vamos mostrar ao Conselho a eficiência da nossa equipe. O meu coração martelou contra as costelas com tanta violência que achei que desmaiaria ali mesmo. Levantei-me do banco com as pernas bambas, os olhos arregalados de puro pavor encarando a governanta-chefe. — Dona Marta... — murmurei, a voz falhando e saindo como um sussurro desesperado. — Por favor... eu não posso subir. Marta parou no meio do caminho, franzindo a testa e encarando-me com uma mistura de preocupação e incompreensão. — Como não pode, Maya? É uma ordem direta do Alfa Supremo. Ninguém recusa um chamado do soberano de Valência sob este teto. O que há de errado com você?






