O Acolhimento

Maya

Antes de se afastar completamente em direção ao corredor que levava às escadas dos nobres, a Matriarca Eleonora deu dois passos de volta e tocou levemente o ombro de Marta, a governanta-chefe.

— Marta, um detalhe importante — disse a senhora do palácio, mantendo o tom baixo e atencioso, com o olhar cinzento repousando brevemente sobre a minha figura. — Esta jovem parece exausta e visivelmente pálida. Não permita que ela toque em uma única bandeja antes de ter uma refeição adequada e reforçada. Ninguém trabalha com o estômago vazio na minha cozinha.

— Pode deixar, minha senhora — respondeu a governanta com uma reverência respeitosa. — Cuidarei para que ela se alimente imediatamente.

Com um último aceno elegante, Eleonora retirou-se, deixando para trás apenas a vibração acolhedora de sua presença.

Marta esperou a porta dupla de madeira se fechar e virou-se para mim com as mãos na cintura e um olhar maternal refinado pela experiência de anos administrando aquele palácio. Ela fez um sinal para que eu me sentasse em um pequeno banco de madeira ao lado da bancada de trabalho, afastado do fluxo mais denso de cozinheiros.

— A senhora Eleonora tem razão — disse Marta, puxando uma bandeja limpa. — Você está branca como um fantasma, menina. Espere um instante aqui.

A governanta caminhou até a despensa e voltou em poucos minutos trazendo um prato com um sanduíche generoso de pão caseiro macio, recheado com queijo fresco e fatias de assado, além de uma xícara fumegante de café forte recém-passado, cujo aroma denso logo se espalhou pelo ar.

— Beba e coma tudo — ordenou ela com gentileza, colocando a bandeja sobre a mesa diante de mim. — Vai lhe devolver as forças para a jornada da noite.

No momento em que o cheiro forte, amargo e concentrado do café quente atingiu minhas narinas, o meu estômago deu um nó instantâneo e violento.

Uma onda avassaladora de náusea subiu pela minha garganta com tanta força que fui obrigada a cobrir a boca com as duas mãos e empurrar a xícara para longe, desviando o rosto e fechando os olhos com força para conter o espasmo do meu corpo. A tontura fez a minha vista escurecer por uma fração de segundo.

Sofia, a mais jovem das três garotas da montagem que observava a cena de perto, inclinou a cabeça e me encarou com olhos arregalados e curiosos.

— Nossa... — disparou Sofia, sem nenhum filtro na voz. — Essa rejeição súbita a cheiro forte... você por acaso está grávida, Maya?

O meu coração disparou de forma descontrolada, martelando contra as minhas costelas como se quisesse escapar do peito. Senti o sangue fugir completamente do meu rosto. O pavor de ter o meu maior segredo exposto ali, na frente de estranhas e sob o teto do Alfa Supremo, travou a minha língua por um segundo.

— N-não! — gaguejei, a voz saindo fina e trêmula enquanto eu balançava a cabeça em desespero. — Não, claro que não! É só... eu fiquei o dia inteiro sem comer por causa da viagem do Sul. O meu estômago está completamente vazio e sensível, só isso. O cheiro do café ficou forte demais para mim.

Sofia franziu o cenho, parecendo desconfiada por um instante, mas Clara deu um leve empurrão no braço da amiga para cortá-la.

— Deixe a garota respirar, Sofia — repreendeu Clara. — Ficar um dia inteiro sem colocar nada no estômago embrulha tudo mesmo.

Marta, percebendo a minha agitação e a palidez do meu rosto, agiu rapidamente. Ela recolheu a xícara de café sem fazer mais perguntas ou pressionar por explicações, caminhou até a bancada de sucos e serviu um copo grande de suco de laranja fresco e bem gelado.

— Tome isto — disse Marta, entregando-me o copo com um olhar sereno e compreensivo. — O suco de fruta vai fazer bem melhor para o seu estômago do que a cafeína. Coma o pão devagar, sem pressa.

Peguei o copo com as mãos ainda trêmulas. O líquido cítrico e gelado desceu suavizando a queimação da minha garganta e acalmando a náusea no meu peito. Aos poucos, dei pequenas mordidas no sanduíche, sentindo as forças finalmente retornarem ao meu corpo. O meu lobo interior, antes tenso com a pergunta de Sofia, relaxou e pareceu se aquietar com o sustento fresco, enviando uma sensação morna de alívio por todo o meu ventre.

Assim que terminei a refeição e limpei os lábios, levantei-me do banco, sentindo-me consideravelmente mais disposta e segura.

— Muito obrigada, dona Marta — disse, ajeitando o avental na cintura. — Já estou me sentindo bem melhor. Posso começar a trabalhar.

— É assim que se fala — sorriu a governanta-chefe, acenando para a grande mesa central. — Clara e as meninas vão lhe mostrar o padrão de montagem.

Me aproximei da bancada onde Clara, Sofia e Beatriz organizavam as travessas de prata refinada. Clara pegou uma travessa oval e começou a posicionar delicadamente fatias de assado, ornamentando os bordos com ramos de alecrim fresco e pequenas uvas cristalizadas.

— O segredo aqui na Mansão Rossini é a simetria — explicou Clara com paciência, mostrando como alinhar cada item sem deixar espaços vagos. — Os nobres lá em cima comem primeiro com os olhos. Cada bandeja que sai desta cozinha precisa parecer uma obra de arte perfeita.

— Entendi — respondi, observando atentamente os movimentos hábeis das suas mãos.

Apanhei a minha primeira bandeja de prata e comecei a repetir o processo. No início, meus dedos vacilaram um pouco devido ao nervosismo, mas o ritmo acelerado e organizado da cozinha logo me envolveu. Sofia me passava os ramos de ervas frescas, Beatriz organizava as frutas e Clara inspecionava o toque final de cada peça antes que os garçons as levassem para o salão principal.

Trabalhar lado a lado com elas, ouvindo suas conversas descontraídas e risadas abafadas sobre a rotina do palácio, trouxe-me uma paz que eu não vivenciava há anos. Ali, imersa no aroma de pão fresco e temperos simples, protegida pelo calor da cozinha e pelo trabalho honesto, eu não era a bastarda indesejada dos Davenport e nem a serva trancada no porão.

Eu era apenas uma jovem entre iguais, escondendo sob o avental o maior segredo de Valência, enquanto a noite de banquete corria do outro lado das paredes.

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