O Mistério de Valência

Dominic

O silêncio que se seguiu à declaração da minha mãe não era apenas ausência de som; era a calmaria densa e perigosa que antecede o impacto de uma tempestade.

A palavra bastarda continuava martelando na minha cabeça. Olhei para a jovem Maya e depois para Helena e Laura, que permaneciam imóveis como duas estátuas de sal. O perfume de lavanda silvestre que emanava de Maya preenchia toda a antissala, impregnando meus sentidos com uma clareza avassaladora. O meu lobo interior não apenas arranhava meu peito; ele uivava em fúria, reconhecendo a mentira grotesca que me fora servida em prato de ouro pela elite dos Davenport.

— Trancada no porão? — murmurei, a voz saindo como um rosnado grave e gutural que fez o ar do ambiente esquentar.

Dei mais um passo na direção de Helena. A mulher recuou instantaneamente, esbarrando na moldura da porta com os olhos arregalados de puro terror. A arrogância que ela ostentara segundos antes evaporou por completo.

— S-Supremo... isso são exageros da garota! — gaguejou Helena, tentando inutilmente recompor a postura, enquanto as mãos tremiam contra a seda do vestido. — Arthur apenas a acolheu por piedade... ela é uma garota instável, cheia de invenções...

— Silêncio — ordenei. Uma única palavra, dita sem elevar a voz, mas carregada com todo o peso do comando de um Alfa Supremo.

Helena calou-se no mesmo milissegundo, tremendo visivelmente.

Virei o rosto devagar em direção a Laura. A minha pretensa noiva apertava os próprios braços, pálida, com a maquiagem impecável contrastando de forma grotesca com o pavor estampado em suas feições. O toque dela no meu braço minutos atrás ainda queimava na minha pele como uma mancha de impureza.

— Vocês trouxeram uma serva da sua casa — comecei, os olhos dourados cravados em Laura —, afirmaram que ela era sua confidente e criada pessoal, e esconderam da Coroa que ela carrega o sangue do próprio patriarca dos Davenport?

— Dominic, meu amor, por favor, me escute... — implorou Laura, com a voz embargada por lágrimas histéricas, dando um passo trêmulo na minha direção. — Eu não sabia de nada! Foi a minha mãe quem cuidou desses assuntos... eu só queria proteger a reputação da nossa família para ser uma noiva digna de você!

— Chega de farsa — decretei, a fisionomia gélida. — A senhora e sua filha vão retornar imediatamente para os seus aposentos. Ficarão lá até que toda essa história seja devidamente esclarecida. Eu pretendo conversar com cada um de vocês separadamente — com Arthur, com Helena e com você, Laura. Não saiam das suas acomodações até que eu as chame.

Helena engoliu em seco, puxando Laura pelo braço. A garota ainda tentou olhar para mim uma última vez, mas a frieza no meu rosto selou qualquer tentativa de contestação. Elas deram meia-volta e deixaram a antissala sob o olhar vigilante dos guardas reais posicionados no corredor.

Assim que as duas saíram, Maya deu um passo hesitante para trás, abaixando a cabeça e fazendo menção de se retirar em silêncio para os aposentos internos, buscando esconder-se na sombra da sua habitual submissão.

— Onde pensa que vai, Maya? — a voz da minha mãe interveio suavemente, interrompendo o movimento da garota. Eleonora caminhou até a mesa de centro, ajustando a saia do vestido com elegância impecável. — O seu lugar é aqui. Nós ainda não terminamos de tomar o nosso chá.

A jovem estancou, piscando surpresa, enquanto minha mãe se virava para mim com um olhar profundo e pleno de significado.

Inspirei fundo, sentindo o aroma de lavanda de Maya envolver meus sentidos mais uma vez, fazendo o meu peito doer com uma urgência que eu já não conseguia ignorar.

— Mãe... — pedi, a voz rouca baixando de tom ao me aproximar de Eleonora. — Deixe-me a sós com ela por alguns minutos. Por favor.

Minha mãe encarou-me por um longo segundo. Seus olhos cinzentos pareciam ler cada canto da minha mente, enxergando a tempestade que devastava o meu autocontrole. Ela não fez perguntas, não fez exigências. Apenas deu um leve passo à frente, pousou a mão sobre o meu braço e apertou-o com carinho firme.

— Eu deixo, Dominic — murmurou ela, para que apenas eu ouvisse, antes de olhar de relance para Maya. — Mas faça um favor a si mesmo e ao seu sangue... ouça essa menina. Ouça cada palavra que ela tem a dizer com o coração, e não apenas com a razão de um governante.

Minha mãe inclinou a cabeça em um gesto nobre e retirou-se em direção aos seus cômodos privados, fechando a porta dupla atrás de si.

O silêncio caiu como uma cortina pesada sobre a antissala.

Ficamos apenas os dois. De pé no centro do ambiente, Maya mantinha os olhos fixos nas pedras do chão, as mãos trêmulas entrelaçadas sobre o tecido azul do vestido, a respiração curta e descontrolada. O meu lobo arranhou o meu peito, clamando para que eu encurtasse a distância entre nós.

Dei o primeiro passo na direção dela, sentindo o mistério de Valência finalmente começar a se desvendar sob o meu teto.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App