Mundo de ficçãoIniciar sessãoDominic
O ar na antissala dos aposentos da minha mãe parecia prestes a fulminar. Eu podia sentir a tensão pesada impregnada nas paredes de pedra, um odor denso de conflito e falsidade que fez o meu lobo se agitar no fundo da minha consciência assim que cruzei o limiar. O meu olhar travou imediatamente na garota de azul parada ao lado da minha mãe. A jovem criada do corredor... mas sem o avental encardido e sem a túnica surrada. Vestida em seda nobre, ela parecia outra pessoa, embora a palidez do seu rosto e o tremor contido em suas mãos revelassem o pavor que a consumia. No segundo em que as minhas narinas captaram o ar daquela sala, o aroma suave que emanava dela atingiu o meu sistema como um choque elétrico. O meu lobo rosnou, alerta, arranhando a minha mente para se aproximar. Antes que eu pudesse assimilar a visão, Laura adiantou-se sobre o tapete espesso. Ela abriu um sorriso trêmulo, claramente desesperado, e avançou na minha direção, grudando-se ao meu braço com um toque de posse que me fez enrijecer instantaneamente. — Oi, meu amor... que bom que você está aqui — disse ela, a voz afetada buscando resgatar a postura de noiva perfeita. — Nós estávamos justamente procurando por você. Precisamos definir os detalhes finais da cerimônia de marcação, o Conselho já está cobrando as datas... A repulsa foi visceral. O meu lobo recuou com fúria ao sentir o toque da pele dela contra a minha. Em um movimento lento, frio e absoluto, puxei o meu braço, desvencilhando-me da sua mão e fazendo-a dar um passo involuntário para trás, visivelmente humilhada. — O que está acontecendo aqui? — perguntei, a voz saindo mais grave e perigosa do que eu pretendia, ressoando pelas paredes do recinto. Helena deu um passo à frente, ajustando a estola de pele com visível nervosismo e tentando assumir o controle da narrativa. — Supremo Dominic, é uma situação verdadeiramente lamentável... — começou a mulher, polindo o tom de voz. — Nós estávamos apenas tentando explicar à sua mãe que... — Eu não perguntei a você, senhora Davenport — cortei sem sequer olhar para ela, mantendo a minha atenção cravada na Matriarca. — Eu perguntei à minha mãe. Helena calou-se no mesmo segundo, o rosto queimando em um tom vivo de vergonha diante do meu desprezo. Minha mãe deu um passo à frente, mantendo a postura impecável e a serenidade inabalável que sempre a caracterizaram. — A senhora Helena e a filha estavam contestando a minha autoridade dentro dos meus próprios aposentos, Dominic — explicou Eleonora, a voz límpida cortejando o silêncio. — Elas vieram até aqui para debater, questionar e exigir que eu revogasse a minha decisão de nomear a Maya como minha nova dama de companhia pessoal. Laura piscou apressadamente, os olhos marejados de pavor ao perceber o terreno perigoso em que pisava. — Não é nada disso, meu Alfa! — apressou-se Laura em dizer, juntando as mãos sobre o peito em uma demonstração teatral de inocência. — O Supremo precisa entender o nosso lado... a Maya é serva da nossa família há muitos anos. Nós sempre a tratamos muito bem, com todo o carinho e generosidade! Ela é extremamente apegada a mim... afinal, fomos criadas juntas como irmãs! Nós apenas achamos estranha essa mudança repentina, já que a Maya é, na verdade, a minha dama de companhia e confidente. Criei um silêncio absoluto ao desviar meus olhos de Laura. Cravei o olhar diretamente na garota de azul. Dei dois passos lentos e calculados na direção dela, sentindo a aura predatória do meu lobo se expandir. Quanto mais me aproximava, mais o perfume dela — uma mistura avassaladora de lavanda silvestre e ar limpo — preenchia os meus pulmões, queimando a minha razão. Era a mesma essência. A mesma presença que incendiara os meus sentidos no banquete. — Isso é verdade? — perguntei diretamente para ela, a voz rouca falhando pela tensão. — É mentira — cortou minha mãe antes que a garota pudesse formular uma palavra. Ignorei a interrupção da minha mãe por um segundo, fixando-me na jovem à minha frente. A proximidade revelava a delicadeza dos seus traços, os lábios trêmulos e os olhos assustados que tentavam fugir dos meus. A sensação de familiaridade era tão brutal que o meu peito doeu. — Quem é você? — perguntei em um tom baixo, quase um rosnado contido que fez todos na antissala prenderem a respiração. Ela engoliu em seco, mantendo as mãos trêmulas escondidas nas dobras do vestido. — Eu... eu era apenas uma serva na casa dos Davenport, Supremo... — respondeu ela num fio de voz rouca, sem coragem para sustentar o meu olhar por mais do que um segundo. — Ela não era apenas uma serva — declarou Eleonora com severidade, dando um passo para o lado da garota e pousando uma mão firme sobre o ombro dela. — Maya é a filha bastarda de Arthur Davenport. Uma jovem que foi cruelmente escondida da sociedade, trancada no porão e maltratada por esta família durante a vida inteira. E é precisamente por isso que decretei o fim da servidão dela e a nomeei minha dama de companhia. Sob este teto, ela jamais voltará a ser humilhada. As palavras da minha mãe caíram como uma bomba sobre a minha mente. Filha bastarda. Escondida. Maltratada. Olhei para Helena e Laura, testemunhando a palidez cadavérica que tomou conta dos rostos de ambas. A máscara de perfeição dos Davenport ruiu em mil pedaços diante de mim. Um rosnado baixo e perigoso vibrou no fundo da minha garganta enquanto o meu lobo finalmente encontrava a peça que faltava naquele quebra-cabeça de mentiras.






