O Mensageiro da Tempestade

Maya

O silêncio do pequeno quarto reservado às damas de companhia, situado a poucos passos dos aposentos da Matriarca, era o meu único refúgio ao fim daquele dia exaustivo. Sentada na beira da cama de madeira simples, passei as mãos pela saia de linho azul, tentando acalmar os sobressaltos do meu coração. O enjoo finalmente dera uma trégua, mas o peso da dor que sufocava o meu peito parecia crescer a cada hora.

A confirmação de que Dominic marcara a data do casamento com Laura sem passar a marca ecoava na minha cabeça como um eco cruel. Ele preferia condenar a própria vida a uma farsa de aparências a aceitar a verdade da nossa noite.

Duas batidas suaves e pausadas na porta de madeira interromperam os meus pensamentos.

Ergui-me num sobressalto, ajeitando apressadamente a túnica e secando o rastro seco de uma lágrima na bochecha antes de dar permissão para entrar.

— Pode entrar — pedi num tom de voz contido e trêmulo.

A porta abriu-se devagar, revelando a figura alta e imponente de Gabriel.

Como braço direito e conselheiro pessoal de Dominic, Gabriel era um dos raros homens no palácio que transitavam livremente entre as decisões do Supremo e a intimidade da família Rossini. Ele trazia a farda escura dos oficiais superiores, mas, ao contrário da aura gélida e colérica do Alfa, o olhar de Gabriel sobre mim carregava uma gravidade serena, quase ponderada.

Ele deu um passo para dentro do cômodo, mantendo a porta entreaberta, e fez uma mesura respeitosa com a cabeça.

— Senhorita Maya — cumprimentou ele, a voz grave e pausada rompendo a quietude do quarto.

— Senhor Gabriel... — respondi, mantendo a postura ereta e os braços cruzados sobre o ventre em um gesto instintivo de proteção. — Aconteceu alguma coisa? A Matriarca precisa de algo?

— A senhora Eleonora está em seus aposentos e já se recolheu para a noite — explicou Gabriel, dando mais um passo e observando a minha palidez com uma atenção discreta. — No entanto, a sua presença está sendo solicitada no gabinete principal.

Senti o meu sangue gelar nas veias. O chão pareceu oscilar sob os meus pés.

— O... o Alfa Supremo me chama? — murmurei, o pavor transparecendo na minha fala antes que eu pudesse conter.

Gabriel encarou-me por um longo segundo. Havia uma compaixão contida na sua expressão, o reconhecimento de quem testemunhara a ferocidade de Dominic após a reunião do Conselho e a luta interna que devastava o seu soberano por dentro.

— O Supremo está no gabinete examinando os relatórios das fronteiras do Sul — disse Gabriel, adotando um tom mais baixo e cauteloso. — Ele me ordenou que a conduzisse até lá.

Pisquei, engolindo em seco, a respiração engatando no peito.

— Ele... ele não é o mesmo, não é? — soltei a pergunta num sopro involuntário, a dor vencendo o meu orgulho. — Desde aquela noite na antissala... ele me olha como se me odiasse.

Gabriel soltou um suspiro pesado, cruzando as mãos atrás das costas.

— O Supremo Dominic é um homem de deveres inflexíveis, senhorita Maya — respondeu o conselheiro, escolhendo as palavras com extrema cautela. — Ele foi criado para governar com a razão acima da carne. Mas o homem que vi sair do Conselho hoje não é um soberano em paz. Ele traz no peito uma tempestade que jamais vi em todos os anos em que sirvo à Coroa Rossini. A raiva dele não é um estado normal... é o rugido de um lobo que tenta desesperadamente negar a própria natureza.

As palavras de Gabriel caíram sobre a minha alma como uma ferida aberta. Saber que Dominic sofria não aliviava a minha dor; apenas tornava a farsa que ele construía ainda mais trágica.

— Eu não fiz nada do que ele pensa, Gabriel — disse eu, encarando o conselheiro com os olhos brilhando pelas lágrimas represadas. — Eu nunca quis enganá-lo.

— Eu não estou aqui para julgá-la, senhorita — disse Gabriel com ternura solene, abrindo passagem e indicando o corredor com um gesto de mão. — Mas o Supremo a aguarda. E, seja qual for a tempestade que o espera naquele gabinete, é melhor não mantê-lo esperando.

Respirei fundo, ajeitando os ombros e buscando as últimas forças que me restavam no peito. Caminhei até a porta e cruzei o limiar ao lado do conselheiro, avançando em direção ao gabinete do Alfa Supremo, sem imaginar o desfecho que o destino reservava para os nossos caminhos naquela noite.

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