Mundo ficciónIniciar sesiónDominic
A espera no meu gabinete parecia esticar o próprio tempo, tornando cada segundo uma tortura insuportável. Eu permanecia de pé diante da janela alta, encarando o nevoeiro espesso que engolia as terras de Valência, mas meus olhos não viam a paisagem. Toda a minha atenção, todos os meus sentidos treinados de Alfa, estavam sintonizados no corredor do piso superior. Então, o meu lobo despertou no fundo do peito, rosnando baixinho em um misto de ansiedade e triunfo. O cheiro de lavanda silvestre atravessou a fresta da porta de carvalho antes mesmo que os passos sutis fossem ouvidos sobre o tapete nobre. Era uma essência doce, pura, desesperadamente impregnante, que inundava meus pulmões e fazia o meu sangue arder de uma forma que nenhuma razão ou decreto do Conselho jamais conseguiria apagar. Duas batidas hesitantes e leves soaram na madeira. — Entre — ordenei, mantendo a voz firme e gélida, embora o meu coração martelasse contra as minhas costelas como o galope de uma besta descontrolada. A porta abriu-se devagar. Gabriel deu um passo para o lado, permitindo que Maya entrasse no gabinete privado. O meu conselheiro trocou um breve olhar comigo, um olhar carregado daquela advertência silenciosa que eu terminara de ignorar antes de puxar a folha de madeira e nos deixar completamente sós, trancando a porta. Maya estancou a dois passos do limiar. Ela vestia a túnica simples de linho azul-pálido concedida às servidoras da casa. O tecido modesto não ocultava as curvas delicadas do seu corpo, nem a fragilidade de sua postura. Ela mantinha a cabeça levemente baixa, as mãos entrelaçadas à frente do corpo em um gesto automático de defesa que cobria a curva da sua cintura. A sua palidez era evidente, e os seus lábios, antes tão quentes e macios sob os meus na antissala, exibiam um tom rosado quase apagado. Apesar da postura de serva, a presença dela preenchia cada centímetro do meu escritório, anulando a minha autoridade e reduzindo a minha soberania a pó. — Pedi ao Gabriel que a trouxesse até aqui — comecei, dando dois passos lentos na direção dela, apreciando a forma como a respiração dela engatou ao notar a minha aproximação. — O silêncio do palácio parece não ser o bastante para fazer você entender o seu verdadeiro lugar nesta casa. Maya ergueu o rosto devagar. Os olhos grandes e expressivos brilhavam com o rastro seco de lágrimas recentes, mas havia neles uma dignidade ferida que me enfurecia. — O senhor mandou me chamar a esta hora da noite apenas para me humilhar novamente, Supremo? — a voz dela saiu num fio trêmulo, mas direto, sem as gagueiras de antes. — A Matriarca já me informou sobre a decisão do Conselho. O senhor conseguiu o que queria. O casamento com Laura está marcado. O som do nome de Laura saindo da boca de Maya soou como uma provocação. A minha mente lembrou-se da farsa, do pacto sem marca e da mentira que eu sustentaria perante todo o reino, enquanto o meu lobo arranhava a minha alma, exigindo que eu reivindicasse a fêmea que estava diante de mim. Avancei mais dois passos, encurtando a distância entre nós até estar a poucos centímetros do seu corpo. O calor que emanava da sua pele era um convite magnético. O cheiro de lavanda intensificou-se, tornando o ar ao nosso redor quase denso demais para respirar. — Você fala sobre o meu casamento com uma audácia fascinante para alguém que não passa de uma mentirosa — rosnei em um tom baixo, a minha voz ressoando como um trovão contido na penumbra da sala. — Acha mesmo que a data marcada muda alguma coisa entre nós? Acha que o pano azul que você veste apaga o fato de que o seu corpo responde ao meu? Maya deu um passo involuntário para trás, mas as suas costas bateram contra a folha de madeira da porta fechada. Ela ficou encurralada entre a madeira rígida e o meu corpo que a cercava. — O senhor disse que me odiava... disse que eu era uma traidora e uma bastarda — sussurrou ela, o peito subindo e descendo em arfadas curtas, as suas mãos pressionando a própria túnica como se tentasse criar uma barreira invisível entre nós. — Se eu não sou nada disso para o senhor, se a minha presença o enoja tanto... por que me trouxe até aqui? Por que não me deixa em paz?! Ergui a mão direita, roçando a parte de trás dos meus dedos na curva macia da sua bochecha. O toque fez Maya estremecer inteira, soltando um suspiro trêmulo de rendição instintiva que o seu próprio cérebro tentava negar. — Porque o meu lobo não se importa com a sua falta de honra — declarei, abaixando o rosto até que a minha boca ficasse a milímetros do seu ouvido, sentindo o pulso acelerado e desordenado na sua jugular. — Porque enquanto você estiver sob o meu teto, Maya... você atenderá aos meus chamados. Você pode ser uma simples empregada para o reino, mas entre estas paredes... você continuará pertencendo ao meu domínio.






