Entre a Carne e a Coroa

Dominic

A porta dupla de carvalho da Sala do Conselho fechou-se atrás de mim com um estrondo abafado, sepultando o falatório dos anciãos. A reunião fora um sucesso político do ponto de vista frio das aparências, mas a minha mente queimava como um caldeirão de fogo gélido.

Gabriel, me aguardava no corredor de mármore. Ele deu dois passos na minha direção assim que me viu surgir, ajustando o porte firme da farda de oficial.

— A reunião terminou mais rápido do que eu esperava, Supremo — começou Gabriel, acompanhando os meus passos largos em direção ao meu gabinete privado. — Os relatórios das patrulhas do Sul já estão na sua mesa, mas os anciãos pareciam... divididos.

— O Conselho aceitou os termos — ditei com a voz seca, sem desacelerar. — A data da cerimônia será marcada. O banimento dos Davenport permanece como crime de má conduta financeira e a aliança entre as famílias será mantida através de Laura.

Gabriel franziu o cenho, o olhar de conselheiro experiente perscrutando o meu perfil rígido.

— E você vai mesmo manter esse casamento com Laura? — perguntou ele, o tom carregado de uma dúvida sincera. — Não me leve a mal, Dominic, mas nós nos conhecemos desde garotos. Eu vi a sua reação quando a comitiva do Sul chegou. Eu conheço o cheiro e a presença de uma fêmea prometida pela Deusa. Eu não consigo entender como o seu lobo pode simplesmente se recusar a passar a marca para a sua própria companheira.

Parei bruscamente no meio do corredor deserto. Olhei para os dois lados, garantindo que nenhum guarda ou servo estivesse ao alcance do nosso som.

— Entre no gabinete — ordenei em um tom baixo e perigoso.

Gabriel obedeceu. Assim que cruzamos o limiar do meu escritório privado, passei a mão pela fechadura de ferro e fechei a porta pesada, trancando-nos na penumbra do cômodo. Caminhei até a janela alta, encarando a névoa de Valência enquanto a minha garganta queimava de uma raiva represada.

— Laura não é a minha verdadeira companheira — confidenciei, a palavra saindo da minha boca como uma gota de veneno.

Gabriel estancou no centro da sala, os olhos arregalados de choque.

— O quê?! — balbuciou ele, desacreditado. — Se Laura não é a sua fêmea? E a noite no Sul?

— Era Maya — soltei o nome da bastarda, e o simples som daquele nome fez o meu peito dar um solavanco violento, o meu lobo arranhando as minhas costelas em puro desespero. — Era ela no quarto escuro do Sul. Sempre foi ela.

O silêncio do escritório tornou-se sufocante. Gabriel piscou várias vezes, processando a revelação estarrecedora até que a sua expressão mudou de espanto para uma lógica óbvia.

— Se é a Maya... por que em nome da Deusa você vai se casar com Laura?! — questionou ele, dando um passo à frente. — Dominic, a lei do nosso povo é clara! O elo de companheiros de alma está acima de qualquer acordo político! Assuma a Maya! Cancele este noivado de fachada e case-se com a sua verdadeira metade!

Soltei uma risada curta, amarga e destituída de qualquer humor, virando-me para ele com os olhos dourados faiscando em fúria.

— Eu jamais casaria com a Maya — decretei, a voz embargada por um orgulho cego e inflexível. — Você ficou louco, Gabriel? Ela me enganou! Ela participou da farsa dos Davenport, mentiu na minha cara, usou o meu corpo e escondeu quem era até ser encurralada! Ela é uma bastarda sem nome, fruto de uma desonra daquela família podre!

— Mas ela é a sua companheira... — tentou intervir meu amigo.

— E isso não muda o fato de que ela não tem dignidade para usar a coroa de Valência! — interrompi com um rosnado grave. — O que o Conselho diria? O que a nobreza e o povo pensariam do Alfa Supremo se eu rejeitasse a herdeira legítima dos Davenport para me casar com uma bastarda criada como serva no porão? Isso enfraqueceria a imagem da família Rossini perante todo o reino! A nossa linhagem seria motivo de chacota! A minha decisão faz todo o sentido: Laura me dá a estabilidade política que a aliança exige, e a bastarda paga pelas suas mentiras permanecendo exatamente no lugar que merece!

Gabriel encarava-me com uma mistura de choque e desaprovação.

Respirei fundo, tentando conter o ritmo frenético do meu peito, e ajeitei as dobras da minha túnica. O perfume de lavanda silvestre parecia impregnado nas paredes do escritório, uma tortura constante que me deixava à beira da loucura.

— Vá aos aposentos da minha mãe — ordenei, a voz voltando ao tom gélido e autoritário. — Encontre a Maya no quarto das damas de companhia e diga que a presença dela está sendo solicitada no meu gabinete. Agora.

Gabriel não se moveu imediatamente. Ele franziu o testo, o olhar cravado no meu.

— O que você quer com a garota, Dominic? — perguntou ele, a voz carregada de uma firmeza preocupada. — Você acabou de selar a data do seu casamento com a irmã dela perante o Conselho. Disse com todas as letras que ela não passa de uma simples empregada. Por que trazê-la aqui a esta hora da noite?

— Isso não é da sua conta — rosnuei, dando um passo intimidador na direção dele.

— É da minha conta quando vejo o meu soberano agir como um tirano cego — combateu Gabriel, sem recuar um centímetro. — Por mais que o senhor diga que a odeia, o seu lobo anseia por ela. O seu corpo está queimando por ela e o senhor sabe disso. Dominic... não é justo fazer isso com a menina. Usá-la para satisfazer a sua carne enquanto a condena à servidão e se casa com a irmã. Isso é crueldade.

A acusação direta de Gabriel atingiu o meu orgulho como um golpe de espada. A fúria do Alfa Supremo explodiu no meu peito, fazendo a minha aura de poder expandir-se pela sala, pesada e sufocante.

— Chega! — esbravejei, a voz reverberando como um trovão contra as paredes de madeira. — Eu não pedi o seu conselho pessoal, Gabriel! Eu lhe dei uma ordem! Você é o meu oficial e deve obediência à minha Coroa!

Apertei os punhos, encarando-o com um olhar assassino.

— Saia do meu escritório agora e cumpra a minha ordem. Traga a Maya até aqui antes que eu perca o resto do meu autocontrole e faça isso eu mesmo.

Gabriel sustentou o meu olhar por mais alguns segundos em um silêncio tenso. Ele engoliu em seco, reconhecendo o ponto de não retorno na minha insanidade, e prestou uma reverência rígida e formal.

— Como desejar, Supremo — disse ele com a voz gélida.

Ele deu meia-volta, destrancou a porta pesada e saiu do gabinete, deixando-me sozinho na penumbra, à espera da mulher que destruíra a minha paz e da qual o meu lobo se recusava a se libertar.

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