O Brilho de uma Ilusão

Maya

O som das cornetas reais anunciando o início da manhã não trouxe a promessa da partida, mas o peso sufocante de uma sentença prolongada.

Quando a porta do meu pequeno aposento no subsolo foi aberta por Marta logo nas primeiras luzes da alvorada, a notícia caiu sobre o meu peito como uma rocha pesada. A comitiva dos Davenport não retornaria ao Sul. Por ordens expressas de Dominic, a família permaneceria na Mansão Rossini por mais alguns dias para que o Alfa Supremo pudesse conhecer a fundo a sua futura noiva.

Senti todo o sangue fugir do meu rosto enquanto absorvia a revelação. Ficar no palácio significava continuar pisando no mesmo solo que Dominic, exposta ao seu olfato implacável, ao mesmo tempo em que permanecia sob as garras vingativas e silenciosas de Helena.

— Não fique assim tão assustada, menina — confortou Marta, percebendo o meu choque e passando a mão carinhosamente pelo meu ombro. — A senhora Helena estará muito ocupada acompanhando a filha nos passeios pelos jardins e nas reuniões da corte. Você ficará aqui no subsolo conosco, bem protegida.

Mas o meu coração sabia que não havia proteção real para quem carregava o maior segredo de Valência.

Mais tarde, no meio da manhã, fui chamada ao andar superior de serviço para recolher as vestimentas refinadas que Laura usaria durante o almoço com os conselheiros. Caminhei em silêncio pelos corredores laterais, mantendo os olhos pregados no chão de mármore e a trouxa de tecidos bem presa contra o peito, tentando agir como a criada invisível que todos esperavam que eu fosse.

Ao virar a dobra da galeria dos retratos, o som de vozes vindas do corredor principal me fez congelar instantaneamente atrás de uma tapeçaria pesada de veludo escuro.

Dominic e Laura caminhavam lado a lado em direção ao terraço ensolarado. Ele vestia um traje impecável de corte escuro, mantendo as mãos cruzadas atrás das costas e uma postura imponente, enquanto Laura ostentava um vestido de seda azul vibrante. De início, a visão parecia a pintura perfeita de um casal real: a noiva nobre e sorridente ao lado do Alfa poderoso.

Porém, conforme se aproximavam da minha posição, a cortina da perfeição começou a ruir diante dos meus olhos.

Laura, em um gesto estudado de carinho, deslizou a mão suavemente pelo braço de Dominic e inclinou o corpo para se apoiar nele, rindo de forma afetada. O efeito do toque foi imediato e avassalador. Testemunhei o exato segundo em que o corpo de Dominic enrijeceu por completo, transformando-se em uma estátua de pedra.

A sua mandíbula travou com tanta força que os músculos do seu pescoço se destacaram sob a pele. Os ombros dele subiram um milímetro em uma reação instintiva e visceral de repulsa. Ele não a empurrou abertamente para não quebrar a etiqueta da corte, mas a sua fisionomia transparecia uma rejeição tão profunda, tão dolorosa e absoluta, que parecia física. Era o comportamento de um Alfa cujo lobo interior rosnava em agonia, recusando-se sumariamente a aceitar aquele toque.

— A iluminação de Valência atende às tradições da minha linhagem, Laura — respondeu ele, a voz grave, fria e absolutamente desprovida de qualquer calor, cortando a tentativa de aproximação dela.

— C-claro, meu querido... compreendo perfeitamente — gaguejou Laura, recolhendo a mão com sutileza, o sorriso radiante vacilando por uma fração de segundo antes que ela tentasse recompor a máscara.

Apertando os tecidos contra o peito, senti o meu coração dar um salto descontrolado dentro das costelas. Um arrepio quente e trêmulo percorreu a minha espinha, e, pela primeira vez desde que descobri a gravidez, uma fagulha perigosa de esperança acendeu-se no fundo da minha alma.

O lobo dele não a quer, pensei, e a constatação fez a minha respiração travar na garganta. Ele não a ama. Ele não a reconhece como dele.

Encostei a cabeça contra a parede fria do corredor, levando a mão ao ventre com um carinho renovado. Se o corpo de Dominic rejeitava Laura com tanta ferocidade, significava que a ligação daquela noite no Sul não fora um mero acaso ou um erro do destino. A alma dele sabia a verdade, mesmo que a sua mente estivesse sendo enganada pelas mentiras de Helena e pelas provas forjadas da minha família.

Uma onda de coragem, até então desconhecida por mim, começou a brotar do meu pavor. E se eu não precisasse passar a vida inteira fugindo? E se eu buscasse um momento a sós com ele, longe dos olhos de Helena e dos conselheiros, e contasse a verdade? Contar que fui eu a mulher daquela noite, que trago o filho dele no meu ventre e que Laura não passa de uma farsa...

A esperança de que Dominic pudesse me ouvir, de que o seu instinto de Alfa o fizesse me proteger e acolher o nosso bebê, fez lágrimas quentes surgirem nos meus olhos. Ele poderia ser a minha salvação. Ele poderia nos libertar do porão dos Davenport.

Enquanto o som dos passos de Dominic e Laura se distanciava pelo terraço, apoiei as costas na parede e respirei fundo, sentindo o meu filho dar um pequeno espasmo de vida no meu ventre. Eu tinha poucos dias até que a comitiva partisse de vez.

Precisava encontrar uma brecha na vigilância dos guardas e falar com o Alfa Supremo antes que fosse tarde demais.

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