Estadia Forçada

Dominic

A porta do meu gabinete mal havia se fechado após a saída da minha mãe, mas a pergunta enigmática dela continuava ressoando nas paredes como um eco doloroso.

“Quando você fecha os olhos... você enxerga a mulher que está sentada na sua mesa hoje, ou enxerga uma sombra que a sua razão tenta desesperadamente apagar?”

Pisei com força sobre o tapete persa, sentindo o sangue ferver nas minhas têmporas. A incerteza era um tumor na mente de um soberano. Eu não podia simplesmente ver a comitiva dos Davenport ir embora na alvorada do dia seguinte carregando aquela dúvida sufocante. Se o meu lobo rejeitava Laura com tanta ferocidade, e se a essência que incendiara os meus sentidos no salão pertencia a alguém sob este teto, eu precisava de tempo. Tempo para testar a minha noiva, para observar cada gesto dela e arrancar a verdade das sombras.

Caminhei a passos largos e decisivos pelo corredor da ala leste, sem me importar com a hora avançada. Os guardas postados nas portas curvaram-se em reverência pressurosa enquanto eu avançava em direção à suíte reservada ao patriarca da família Davenport.

Bati duas vezes com firmeza na madeira pesada.

A porta abriu-se em poucos segundos, revelando Lorde Arthur Davenport ainda vestido com o colete da noite de banquete, embora a gravata estivesse frouxa no pescoço. O semblante do homem transpareceu uma mistura imediata de surpresa e sobressalto ao dar de cara com o Alfa Supremo em seu limiar.

— Supremo Dominic! — apressou-se Arthur em dizer, curvando o tronco em um gesto subserviente. — Aconteceu alguma coisa? Há algum problema com as acomodações ou com os preparativos para a nossa partida matutina?

— Não há problema algum, Lorde Arthur — respondi, mantendo a voz grave, pausada e revestida por uma autoridade inquestionável enquanto adentrava o recinto sem pedir licença.

Helena e Laura, que organizavam algumas joias sobre a mesa de toucador, deram um salto de suas cadeiras, ajeitando as saias às pressas e inclinando as cabeças em reverência. Laura abriu um sorriso radiante, porém nervoso, tentando esconder a surpresa com a minha presença inesperada.

— Dominic... que surpresa agradável a esta hora — disse Laura, dando dois passos na minha direção.

Mantive meus olhos fixos em Arthur, ignorando o impulso automático do meu lobo, que recuou nas profundezas da minha mente ao sentir a aproximação de Laura.

— Vim comunicar uma alteração nos nossos planos — declarei, cruzando os braços atrás das costas e encarando o patriarca dos Davenport. — Cancelei os preparativos para a partida da sua comitiva na alvorada.

Helena e Arthur trocaram um olhar rápido e sobressaltado, sem saber como interpretar a ordem súbita.

— Cancelou, Supremo? — indagou Arthur, com a voz vacilante. — Mas... os acordos para o transporte das bagagens e a escolta da guarda já estavam organizados para o regresso ao Sul...

— As obrigações do reino podem esperar, Lorde Arthur — cortei-o com frieza polida, desviando o meu olhar finalmente para Laura, examinando a expressão de choque mal disfarçado em seu rosto. — Percebi durante o banquete que o ritmo acelerado dos compromissos do Conselho nos privou do convivio adequado. Eu e Laura seremos os futuros governantes de Valência, e não pretendo selar uma união dessa magnitude com uma mulher que mal tive a oportunidade de observar fora dos protocolos formais.

Laura piscou, o peito subindo e descendo acelerado enquanto um brilho de triunfo mesclado com apreensão surgia em seus olhos.

— Dominic... você quer que fiquemos mais tempo? — perguntou ela, a voz trêmula.

— Exatamente — afirmei, a fisionomia inabalável. — A família Davenport permanecerá na Mansão Rossini por mais alguns dias. Quero que convivamos diariamente. Quero conhecer a fundo os hábitos, a postura e a verdadeira essência da mulher que se assentará ao meu lado no trono.

Arthur abriu um sorriso largo, curvando-se novamente, envaidecido com o pedido que soava como um gesto de devoção, sem jamais suspeitar da armadilha analítica que eu acabara de armar.

— Será uma honra absoluta, Supremo! Faremos como desejar. A nossa casa está inteiramente à disposição de Valência.

— Excelente — conclui, dando meia-volta em direção à saída. — Os servos serão instruídos a reorganizar a rotina da casa pela manhã. Descansem.

Deixei a suíte dos Davenport sob os olhares entusiasmados de Helena e Laura, mas assim que cruzei o corredor e a porta se fechou, a minha fisionomia voltou a endurecer.

O meu lobo arranhou o meu peito em uma advertência silenciosa, agoniado com a prolongação da presença daquela mulher no palácio. Contudo, a minha mente racional sorriu no escuro. Se Laura era a dona daquela noite e a companheira legítima do meu sangue, os próximos dias provariam a verdade sem dar margem para dúvidas.

E se houvesse uma farsa sendo tecida sob o meu teto... eu não descansaria até arrancar a máscara de cada um deles.

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