A Chamada do Destino

Maya

A chama da esperança que se acendera no meu peito transformou cada segundo no subsolo em uma dolorosa contagem regressiva.

Trabalhar nas tarefas da cozinha tornou-se quase automático. Enquanto minhas mãos lavavam as travessas de prata ou cortavam os vegetais para as refeições da tarde, minha mente traçava e retraçava o mesmo plano. O meu filho merecia essa coragem. Ele merecia a chance de ser reconhecido pelo pai e de crescer protegido pela força e pelo calor do sangue Rossini, e não trancado na penumbra e no mofo do porão dos Davenport.

A oportunidade de dar o primeiro passo, no entanto, veio de onde eu menos esperava.

O sol começava a se declinar no horizonte, tingindo o céu de Valência com tons de roxo e dourado, quando a porta da cozinha do subsolo se abriu com um baque firme. Marta adentrou o recinto a passos largos, com uma expressão séria e concentrada no rosto. Ela varreu o ambiente com os olhos até encontrar a minha figura perto da bancada de preparação de pães.

— Maya — chamou a governanta-chefe, aproximando-se com pressa. — Preciso que você prepare imediatamente uma bandeja especial de chá. Chá de camomila com flores de laranjeira, mel silvestre e uma seleção dos biscoitos finos de amêndoas que acabaram de sair do forno.

— Claro, dona Marta — respondi, limpando as mãos no avental. — Clara e Sofia já estão livres para organizar a montagem e levar ao salão...

— Não é para o salão — cortou Marta, a voz abaixando um tom enquanto ela me encarava fixamente. — E não são as meninas que vão levar. A Matriarca Eleonora solicitou pessoalmente que você faça a entrega diretamente nos aposentos dela, na ala alta.

Congelei no lugar. Senti o sangue fugir das minhas bochechas e a minha respiração travar por um segundo inteiro.

— E-eu? — perguntei, gaguejando levemente, a voz saindo fálida e trêmula. — Tem certeza, dona Marta? Eu sou apenas uma criada temporária na cozinha... A senhora Helena pode me ver nos corredores da ala nobre...

— A senhora Eleonora foi extremamente específica, menina — explicou a governanta, afagando o meu braço para tentar me acalmar. — Ela disse o seu nome. E tem mais um detalhe: ela pediu para montar a bandeja servida para duas pessoas. Não conteste as ordens da senhora do palácio. Prepare tudo com capricho e suba sem demora.

Engoli em seco, o meu coração martelando contra as costelas como um pássaro enjaulado. A lembrança do olhar enigmático da Matriarca na noite anterior veio à minha mente com uma força avassaladora. Por que duas xícaras? Quem estaria nos aposentos reais a essa hora?

Com as mãos trêmulas, comecei a organizar a travessa de prata trabalhada. Coloquei o bule de porcelana fumegante, o pote de mel, os biscoitos dourados e, delicadamente, ajeitei duas xícaras de porcelana fina com bordas em ouro. Retirei o avental de trabalho de pano grosso, ajuste o manto escuro sobre os meus ombros e apertei a alça da bandeja contra o peito.

Subi a escadaria de pedra e me direcionei para a ala alta, pisando nos tapetes luxuosos que abafavam completamente o som dos meus passos. O silêncio daquele andar era quase sagrado, quebrado apenas pelo crepitar suave das arandelas pelas paredes.

Parei diante da imensa porta de madeira nobre que dava acesso aos aposentos da Matriarca. Respirei fundo, tentando conter o tremor das minhas pernas, e bati duas vezes com o nó dos dedos na madeira.

— Entre — a voz suave, porém inquestionável de Eleonora ecoou de dentro.

Empurrei a porta com o ombro e dei alguns passos para o interior do recinto vasto e suntuoso. A sala privada da senhora de Valência era aquecida por uma grande lareira de pedra, iluminada pela luz quente das velas e pelo pôr do sol que entrava pelas vitrais. Olhei ao redor, procurando a segunda pessoa para quem a outra xícara fora destinada, mas a sala estava completamente vazia.

Eleonora estava sozinha, sentada com elegância em uma poltrona de veludo diante da mesa de centro. Ela vestia um vestido sóbrio de tom vinho e mantinha os olhos cinzentos fixos em mim desde o momento em que pisei no quarto.

Achei a situação estranha, mas tentei me apegar ao protocolo. Aproximei-me da mesa a passos curtos, mantendo a cabeça baixa e a postura submissa.

— Com licença, minha senhora — murmurei, colocando a bandeja de prata sobre a mesa com o maior cuidado do mundo para que as porcelanas não tintinassem. — Trouxe o chá e os biscoitos como a senhora ordenou.

Dei dois passos para trás, unindo as mãos à frente do corpo e abaixando o tronco em uma reverência profunda, pronta para recuar e sair dali o mais rápido possível.

— Se me dá licença, vou retirar-me...

— Sente-se, Maya — a voz de Eleonora cortou o meu movimento antes que eu pudesse dar meia-volta. Ela apontou com um gesto suave de cabeça para a poltrona vaga exatamente à sua frente, onde a segunda xícara de chá repousava.

O choque fez o meu corpo travar no meio da reverência. Pisquei várias vezes, olhando para a cadeira de veludo e depois para a senhora do palácio, completamente desorientada.

— Minha senhora... me perdoe, mas eu não poderia — respondi, o tom embargado pelo susto. — Eu sou apenas uma criada... Uma serva da comitiva do Sul. Não é correto que eu me sente à mesa com a Matriarca de Valência.

Eleonora soltou um suspiro fraco, e a rigidez do seu rosto desfez-se em uma expressão profundamente calma, maternal e dotada de uma sabedoria que parecia enxergar até a última camada da minha alma. Ela inclinou-se ligeiramente para a frente, repousando as mãos sobre os joelhos, e seus olhos cinzentos cravaram-se nos meus com uma intensidade que fez o ar fugir dos meus pulmões.

— Não diga tolices, garota — declarou a Matriarca, a voz límpida e carregada de uma certeza que fez o tempo parar dentro do quarto. — Você não é apenas uma criada, Maya. Você é a mãe do meu futuro neto.

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