Mundo de ficçãoIniciar sessãoMaya
O eco dos nossos passos nas escadas de pedra parecia ressoar no mesmo ritmo do meu coração descontrolado. A Matriarca Eleonora caminhava à minha frente com uma graça impecável, mas a sua presença não exalava a prepotência dos Davenport; carregava uma autoridade serena, antiga e profundamente observadora. No patamar intermediário que dava acesso ao corredor da cozinha, longe do alcance dos ouvidos do salão principal, Eleonora parou bruscamente. Virei-me de imediato, encolhendo os ombros e cravando os olhos no chão, temendo ter cometido algum desrespeito ao caminhar tão perto dela. O silêncio do corredor subterrâneo tornou-se denso, interrompido apenas pelo som distante da orquestra que tocava no andar superior. — Olhe para mim, menina — pediu a Matriarca, sua voz suave, porém impositiva. Lutei contra o pavor que travava o meu pescoço e levantei o rosto devagar, sustentando o olhar cinzento da senhora de Valência. Eleonora deu um passo na minha direção, semicerrando os olhos e inclinando levemente a cabeça, como se examinasse cada traço do meu rosto, a textura da minha pele e a postura do meu corpo. — Há algo em você, Maya... — murmurou ela, pensativa, as sobrancelhas levemente franzidas. — Não sei dizer exatamente o que é, mas há algo na sua aura que me parece estranhamente familiar. Algo que não pertence à servidão. Senti uma onda de gelo percorrer a minha espinha. A incerteza e o medo do meu segredo ser descoberto fizeram minha garganta secar instantaneamente. Engoli em seco, forçando-me a manter a história que me fora incutida desde a infância. — A senhora deve estar enganada, Matriarca — respondi com a voz rouca e humilde, mantendo o tom o mais apagado possível. — Eu sou apenas uma criada sem família. Minha mãe morreu no meu parto, e o senhor Arthur e a dona Helena me acolheram por caridade. Eles me deram teto e comida durante todos esses anos em troca do meu trabalho. Eu não sou ninguém. Eleonora permaneceu em silêncio por longos segundos, guardando as minhas palavras. Um brilho de desconfiança e compaixão cruzou seu olhar soberano. Ela conhecia a nobreza do Sul o suficiente para saber que a "caridade" dos Davenport raramente vinha sem um preço cruel, mas não pressionou. — Ninguém é 'ninguém' sob o teto da minha casa, Maya — disse ela, com um tom enigmático que fez meu peito apertar. — E o sangue nem sempre mentirá para quem sabe enxergar. Sem acrescentar mais nada, ela se virou e continuou a descer os degraus até a imensa cozinha do palácio. O calor do ambiente nos atingiu assim que a porta dupla de madeira foi aberta. O aroma de assados, vinhos encorpados e temperos frescos preenchia o ar. Dezenas de funcionários trabalhavam em um ritmo alucinante entre panelas de cobre, travessas de prata e fogões acesos. Uma mulher de estatura baixa, cabelos grisalhos presos num coque firme e avental impecavelmente branco aproximou-se imediatamente ao notar a presença da Matriarca. Era a governanta-chefe, cujo semblante severo se desfez em uma reverência respeitosa. — Senhora Eleonora! — disse a governanta. — Há algum problema com os preparativos do banquete no salão? — Nenhum, Marta — respondeu Eleonora com um sorriso acolhedor. — Apenas trouxe reforços. Esta é a Maya. Ela acompanha a comitiva dos Davenport, mas estará nos ajudando na organização durante a estadia. Quero que cuide bem dela e a alinhe com as meninas da montagem. Marta olhou para mim, seus olhos percorrendo minha figura franzina e as marcas de cansaço no meu rosto, antes de abrir um sorriso caloroso e maternal. — Será um prazer, minha senhora. Ajuda é sempre bem-vinda em noites de banquete real — disse Marta, fazendo um sinal para que eu me aproximasse. — Venha, Maya. Vou lhe apresentar à equipe. Eleonora deu um último olhar demorado na minha direção, um olhar denso e carregado de perguntas não ditas, antes de se despedir e retornar às escadas que levavam aos salões nobres. Marta guiou-me até uma grande bancada de mármore no centro da cozinha, onde três jovens trabalhavam agilmente ornamentando as bandejas de frutas e taças. — Meninas, atenção por um minuto — chamou a governanta-chefe. — Esta é a Maya. Ela vai nos ajudar na linha de montagem esta noite. Tratem de ensiná-la como funcionam as coisas por aqui. As três garotas pararam o que faziam e me olharam com curiosidade amigável. A primeira delas, uma jovem de cabelos cacheados e olhar esperto, deu um passo à frente enxugando as mãos no avental. — Sou a Clara — disse ela, dando-me um sorriso sincero que há muito tempo eu não recebia de ninguém. — E estas são a Beatriz e a Sofia. Não se preocupe com a correria, o pior trabalho fica para quem leva as bandejas lá para cima. Aqui embaixo nós estamos protegidas do falatório dos nobres. — Muito prazer... — respondi, sentindo um calor reconfortante invadir o meu peito ao perceber que, pela primeira vez em anos, eu não estava sendo tratada com desprezo. Ajustei o avental de pano que Marta me entregou e o amarrei sobre a cintura. Ali, na correria acolhedora da cozinha e cercada por pessoas simples, o meu estômago finalmente se acalmou e o meu lobo interior relaxou por alguns instantes. Eu estava segura nas sombras do subsolo, pelo menos por enquanto.






