Entre Cacos e Correntes

Maya

A escuridão do porão não mudava, mas a ferida no meu rosto pulsava a cada batida do meu coração.

Encostada contra a parede fria de pedra, passei a ponta dos dedos trêmulos pela bochecha inchada. O gosto amargo de sangue seco ainda estava no canto dos meus lábios. O estalo do tapa de Helena e o som da tranca sendo acionada pelo lado de fora continuavam ressoando na minha mente, como um lembrete cruel da minha posição naquela casa: eu não era uma filha, nem mesmo uma serva; era apenas um segredo incômodo trancado a chaves.

Abracei os joelhos contra o peito, encolhendo-me no colchão fino. A dor física da agressão não se comparava ao vazio que devastava a minha alma. Lembrei-me do calor dos braços de Dominic no escuro, do tom rouco da voz dele me chamando de sua companheira, do toque firme e protetor de suas mãos no meu corpo. Ele pertencia a mim pela lei sagrada da Deusa da Lua, e eu pertencia a ele. Mas, sob a luz da manhã, eu fora descartada no lixo enquanto Laura colhia os frutos do meu sacrifício.

O tempo ali dentro perdeu o sentido. Não havia janelas para indicar se o sol já se escondera ou se uma nova madrugada despontava. Apenas o silêncio pesado da mansão, quebrado ocasionalmente pelo rangido distante dos degraus da escada.

Horas depois, ouvi o som arrastado de passos descendo a estrutura de madeira. A tranca de ferro rangeu, e a porta do porão se abriu apenas o suficiente para revelar a figura de meu pai. Arthur trazia uma bandeja de plástico com um prato raso de comida fria e um copo d'água.

Ele nem sequer me olhou nos olhos. Colocou a bandeja no chão, próximo aos meus pés, com um movimento brusco e impaciente.

— Coma — disse ele, a voz seca, desprovida de qualquer vestígio de remorso ou afeto paterno.

Encarei a comida e, em seguida, levantei o olhar devagar até alcançar o rosto do homem que deveria ter me protegido.

— Você vai mesmo me manter trancada aqui como um bicho, pai? — perguntei, a voz saindo rouca e falhada pelas horas de choro. — Vai deixar a Helena me bater e me trancar no escuro depois de tudo o que eu fiz por vocês?

Arthur tensionou a mandíbula, cruzando os braços e mantendo a postura rígida.

— Você quase estragou o acordo, Maya. O Dominic não é um homem qualquer; ele é o Alfa Supremo. Se ele suspeitar de uma vírgula antes do baile de noivado, o nome dos Davenport será arruinado e eu irei direto para a prisão por fraude.

— Eu não fiz nada! — rebati, o peito arfando de raiva e indignação. — Eu fiquei de costas! Eu não disse uma palavra! Eu só queria levar o lençol embora! Se ele me notou no corredor, foi por puro instinto, não porque eu tentei revelar a verdade!

— Não importa de quem foi a culpa — cortou ele, erguendo a mão para calar a minha voz. — O fato é que a sua presença nesta casa neste momento é um risco que eu não posso correr. A família Rossini estará aqui em poucas semanas para nos levar até Valência. Até que a cerimônia de marcação seja concluída e a sua irmã receba o título de Rainha perante o Conselho, você permanecerá aqui embaixo.

— E a minha vida?! — gritei, levantando-me do chão, ignorando a tontura que atingiu minha cabeça. — E os papéis da minha mãe?! A minha transferência para a faculdade?! Você prometeu!

Arthur deu um passo para trás, segurando a maçaneta da porta com firmeza, e encarou-me com um olhar gélido.

— Promessas só têm valor entre iguais, Maya. E você é apenas a lembrança de um erro do meu passado. Quando o noivado de Laura estiver selado, eu lhe entregarei uma quantia em dinheiro e os papéis da sua mãe para que você suma desta alcatéia para sempre. Até lá, silêncio e obediência são as suas únicas obrigações.

Antes que eu pudesse alcançar a saída, ele bateu a porta com força. O estalo seco da tranca de ferro voltou a ressoar pelo porão, devolvendo-me à solidão absoluta.

Caí de joelhos sobre a poeira do chão, cobrindo o rosto com as mãos. Mas, no fundo do meu peito, em meio ao sofrimento e às ruínas do meu coração, o meu lobo interior rosnou baixo. A promessa de silêncio do meu pai não duraria para sempre.

Se a Deusa da Lua me dera aquele elo com o Alfa Supremo, a verdade encontraria uma forma de vir à tona, nem que eu tivesse que incendiar a mansão dos Davenport para escapar daquelas correntes.

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