Primeiros Sintomas

Maya

O tempo não corre rápido para amenizar a dor, ele se arrasta. Uma semana inteira trancada no porão transformou a escuridão na minha única companheira. Sete dias engolindo a comida fria deixada na porta, encarando as paredes de pedra e tentando manter a sanidade enquanto o meu corpo começava a dar sinais estranhos que eu me recusava a interpretar.

O estalo seco da tranca de ferro cortou o silêncio do cativeiro. A luz forte do corredor invadiu o espaço, fazendo meus olhos arderem. Helena estava no topo da escada, vestida com elegância, encarando-me com a mesma repulsa de sempre.

— Levante daí e limpe essa sujeira — ordenou ela, a voz fria ecoando pelos degraus. — Nós viajamos amanhã cedo para a Mansão Rossini. Você vai subir agora para o quarto da Laura e ajudar a arrumar todas as malas dela.

Ajustei o meu vestido amassado e subi as escadas em silêncio, o corpo moído pela fraqueza. Ao cruzar o corredor do segundo andar e passar pela porta aberta do quarto da minha meia-irmã, um frasco de vidro caiu das mãos de Laura, espalhando uma névoa densa do seu perfume doce e floral pelo ar.

No segundo em que aquele cheiro concentrado atingiu minhas narinas, o meu estômago deu um nó violento.

Uma onda de náusea avassaladora subiu pela minha garganta. O teto pareceu girar, e eu mal tive tempo de me virar para o corredor antes de me ajoelhar perto da porta e vomitar dolorosamente, o corpo todo tremendo em espasmos.

— Mas que nojo! — gritou Laura, dando três passos para trás e cobrindo o nariz com a manga da blusa. — Ficou louca, sua nojenta?! O que é isso?!

Apoiei a mão na parede, arfando e tentando recuperar o fôlego enquanto limpava os lábios trêmulos. Laura me encarou com os olhos semicerrados, uma expressão de súbita desconfiança cruzando o seu rosto.

— O que você tem? Por que está vomitando assim do nada? — questionou ela, dando um passo cauteloso na minha direção.

Helena aproximou-se a passos rápidos, atraída pela confusão. Olhou para o chão sujo e depois para a minha figura caótica, soltando uma risada de puro desprezo.

— Deixe de bobagem, Laura — cortou Helena, ajeitando as joias no pescoço. — Essa bastarda passou a semana inteira recusando metade da comida que mandamos para o porão, fazendo greve de fome para ver se comovia alguém. O estômago dela deve estar corroendo de puras reações ácidas por falta de vergonha na cara.

Engoli em seco, sem coragem para desmenti-la, embora no fundo do meu peito uma dúvida perturbadora começasse a criar raízes.

— Limpe essa bagunça imediatamente — continuou a minha madrasta, apontando o dedo para o meu rosto. — Depois que terminar de arrumar todas as bagagens da Laura, vá tomar um banho e trocar esse trapo. Você vai conosco para Valência como empregada pessoal dela.

Olhei para Helena, surpresa com a decisão.

— Eu vou? — murmurei, a voz rouca.

— Apenas por precaução — sibilou ela, aproximando-se do meu ouvido para que os servos do corredor não ouvissem. — Se o Alfa Supremo porventura cismar ou desconfiar de algo sobre aquela noite, precisamos de você sob as nossas rédeas e ao nosso alcance para corrigir qualquer erro. Mas ouça bem, Maya: você não vai sair da área de serviço da Mansão Rossini. Nem sonhe em cruzar o caminho do Dominic ou colocar os pés nos salões principais. Se ele a vir, eu garanto que você nunca mais verá a luz do dia.

Elas me deixaram sozinha no corredor. Encostei as costas na parede, deslizando a mão trêmula sobre o meu ventre, enquanto a náusea aos poucos passava e a certeza silenciosa do que estava acontecendo com o meu corpo começava a me aterrorizar.

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