Mundo de ficçãoIniciar sessãoNa noite em que Selene Aster deveria ser reconhecida como Luna, ela recebeu diante de toda a alcateia a sentença que destruiu sua vida: rejeitada pelo Alfa Darius Varek, humilhada pela própria meia-irmã e expulsa como se nunca tivesse pertencido à Lua Sangrenta. Mas a fêmea que desapareceu sangrando na floresta não morreu. Anos depois, Selene retorna diferente. Mais fria. Mais poderosa. Mais perigosa. A Ômega desprezada despertou como Dominante Lunar, uma raridade capaz de alcançar o instinto dos lobos, dobrar Alfas pela voz e expor mentiras enterradas sob gerações de sangue e prata. Darius tentou esquecê-la. Escolheu outra Luna. Obedeceu ao Conselho. Enterrou o desejo que sempre o incendiou. Mas seu lobo nunca aceitou a rejeição. Para ele, Selene sempre foi a verdadeira Luna. A verdadeira companheira. A única mulher diante da qual seu Alfa quer ajoelhar. Agora, entre provas mortais, segredos antigos, traições familiares e uma conspiração criada para matar mulheres como ela, Selene precisa decidir se usará seu poder para destruir o homem que a quebrou… ou se permitirá que ele prove, de joelhos, que aprendeu a amar sem possuir. Enquanto Mirella, a irmã perfeita, se afunda em uma aliança venenosa com Kaian, e Nara descobre que até um guarda frio pode queimar, a alcateia inteira será obrigada a encarar uma verdade proibida: Selene não voltou para implorar por um lugar. Ela voltou para tomar de volta tudo que lhe roubaram. E, desta vez, será o Alfa quem vai implorar.
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A lua cheia parecia uma lâmina suspensa sobre a alcateia. Branca. Fria. Implacável. Selene a encarou por um instante através das janelas altas do salão principal, tentando respirar sem que o peito doesse. O vidro refletia sua imagem de volta: um vestido cinza-claro simples demais para uma cerimônia de vínculo, os cabelos escuros presos de qualquer jeito na nuca, os dedos apertados contra a própria saia como se ainda pudessem impedir o tremor. Ela soltou o ar devagar. Não trema. Não hoje. O salão da alcateia Lua Sangrenta estava cheio. Guerreiros, anciãos, lobas nobres, servos, curiosos, todos reunidos sob as colunas de pedra negra decoradas com ramos de cipreste e fitas vermelhas. O cheiro de vinho, couro, incenso e peles molhadas se misturava ao perfume metálico da expectativa. Aquela noite decidiria o futuro da alcateia. E o dela. Selene sentia os olhares antes mesmo de ouvi-los. — Ela teve coragem de vir. — Uma Ômega na cerimônia de vínculo do Alfa… — Talvez ele tenha pena. — Pena não faz uma Luna. As vozes eram baixas, afiadas, treinadas para ferir sem parecer cruéis. Selene conhecia cada lâmina. Crescera entre elas. Aprendera a engolir insultos antes mesmo de aprender a mudar de forma — não que algum dia tivesse conseguido mudar. Sem lobo. Era assim que a chamavam quando queriam ser educados. Defeituosa, quando queriam ser honestos. Ela ergueu o queixo, embora o corpo inteiro pedisse para fugir. Não fugiria. Não naquela noite. Não quando cada osso dentro dela, cada gota de sangue, cada sonho miserável que ela ousara esconder atrás do silêncio dizia a mesma coisa desde que completara dezoito anos. Darius Varek era seu companheiro predestinado. Seu Alfa. Seu destino. Mesmo que ele nunca a tivesse tocado com ternura. Mesmo que seus olhos escuros passassem por ela como se Selene fosse parte da mobília, uma sombra entre as criadas, uma coisa útil apenas para limpar o sangue dos guerreiros depois dos treinos. Mesmo que ele tivesse permitido que Mirella a tratasse como poeira sob os sapatos. O vínculo não mentia. O corpo dela sabia. Sempre soubera. Quando Darius entrava em um cômodo, a pele de Selene reconhecia antes dos olhos. O cheiro dele chegava primeiro: pinho escuro, tempestade, ferro quente e algo selvagem, masculino, tão profundamente Alfa que fazia seu sangue hesitar entre medo e desejo. Às vezes, quando ele passava perto demais, o mundo inteiro diminuía. O som sumia. O ar engrossava. Seu coração batia como se tentasse se ajoelhar dentro do peito. E ele nunca percebia. Ou fingia muito bem. — Selene. A voz doce de Mirella deslizou por trás dela como veneno servido em taça de cristal. Selene não se virou de imediato. Precisou de um segundo para recolocar no rosto a máscara de calma que usava desde criança. Quando olhou, Mirella sorria. Sua meia-irmã usava branco. Claro que usava. Um vestido branco de seda, justo na cintura, caindo em ondas perfeitas até o chão. Os cabelos dourados estavam presos com pequenas pérolas lunares, e sua garganta exibia um colar de rubis que parecia sangue recém-derramado. Ela era bela de um jeito fácil, treinado, quase ofensivo. A mulher que a alcateia esperava ver ao lado de um Alfa. Não uma Ômega magra demais, quieta demais, invisível demais. — Você está pálida — Mirella comentou, inclinando a cabeça. — Está se sentindo bem? Selene sorriu pouco. — Estou de pé. — Por enquanto. A doçura desapareceu apenas o suficiente para que só Selene visse. Mirella se aproximou e ajeitou uma dobra inexistente na manga do vestido dela. Seu perfume caro invadiu o ar, floral e sufocante. — Eu avisei que você não deveria vir. Vai ser constrangedor. — Para mim? Mirella soltou uma risada baixa, quase carinhosa. — Para todos nós. Você sabe como Darius é. Ele pensa na alcateia antes de pensar em… sentimentos. A palavra caiu entre as duas como algo sujo. Selene sustentou o olhar dela. — E você sabe o que ele é para mim. O sorriso de Mirella endureceu. Por um segundo, a irmã perfeita desapareceu. Ficou apenas a menina cruel que trancava Selene nos depósitos durante tempestades, que rasgava seus vestidos antes dos rituais, que contava às outras lobas que uma fêmea sem lobo não deveria sentir desejo por macho nenhum. — Sei — Mirella sussurrou. — Um sonho que você roubou de si mesma. Antes que Selene pudesse responder, um silêncio pesado caiu sobre o salão. As portas principais se abriram. Darius entrou. E o mundo, como sempre, obedeceu. Ele vestia preto. Couro de guerra nos ombros, camisa escura ajustada ao peito largo, os cabelos negros levemente úmidos como se tivesse acabado de voltar da chuva. Não havia coroa em sua cabeça, mas não precisava. O poder vinha dele em ondas invisíveis, densas, pressionando cada lobo presente a abaixar os olhos. Selene não abaixou. Não conseguiu. O peito dela apertou com tanta força que quase doeu respirar. Darius parecia esculpido em sombra e violência contida, bonito de um jeito perigoso, o tipo de homem que não precisava levantar a voz para devastar uma sala. Seus olhos, escuros como noite sem lua, varreram o salão. Por um instante, pararam nela. Selene sentiu como se uma mão quente tivesse fechado em torno de sua garganta. Ele a viu. De verdade. O olhar de Darius desceu por seu rosto, por seus ombros tensos, por suas mãos apertadas na saia. Algo passou por sua expressão — rápido, indecifrável, quase uma falha. Depois desapareceu. Ele desviou. E caminhou até o centro do salão. O ancião Morvan ergueu as mãos, pedindo silêncio a um salão que já não respirava. — Sob a lua cheia, sob o sangue dos antigos e sob a lei que une corpo, lobo e destino, reunimo-nos para reconhecer a futura Luna da alcateia Lua Sangrenta. Selene sentiu os joelhos fraquejarem. Era agora. Todo o sofrimento, todas as humilhações, todas as noites em que ela chorara em silêncio porque o próprio destino parecia tê-la escolhido para alguém grande demais… tudo terminaria ali. Talvez Darius não a amasse. Talvez nunca a tivesse desejado. Mas o vínculo era sagrado. Até Alfas se curvavam a ele. Darius parou diante do ancião. Mirella, ao lado de Selene, ajeitou os cabelos e deu um passo à frente. Selene percebeu. O corpo inteiro gelou. Não. Mirella não deveria andar. Ela deveria ficar. Selene deveria ser chamada. Mas Mirella continuou caminhando, serena, branca, magnífica, até posicionar-se ao lado de Darius como se aquele lugar sempre tivesse sido dela. E Darius não a impediu.SeleneA clareira inteira se ajoelhou.Cinzento primeiro.Sombrio depois.Então os outros lobos, um por um, dobraram as patas dianteiras na terra úmida, as cabeças baixas, as respirações lentas, como se a floresta tivesse entendido algo que eu ainda tentava alcançar dentro do próprio sangue.Eu permaneci no centro do círculo apagado, com as mãos manchadas de prata e os olhos enxergando o mundo como nunca antes.Cada folha tinha borda luminosa.Cada respiração deixava rastro.Cada ser vivo carregava uma chama de instinto. Cinzento era lealdade selvagem, quente e cinza como brasa sob cinza. Sombrio era dor antiga, negra e amarela, mas não mais quebrada. Ezra brilhava dourado escuro, antigo, controlado, uma lâmina escondida dentro de um homem.Levei a mão ao rosto.— O que aconteceu comigo?Ezra entrou no círculo apagado.Pela primeira vez, havia espanto aberto em seus olhos.— Seus olhos.— O que têm?— Prata.Toquei a pele abaixo deles, como se pudesse sentir a luz.Não senti.Mas sent
SeleneA marca me desmentiu com luz.Não com palavras.Não com voz.Apenas brilhou sob minha pele como se reconhecesse uma verdade que eu ainda queria estrangular com as duas mãos.Eu não tive medo de ser Luna dele.No sonho.Naquele lugar feito de instinto, culpa e desejo, eu não havia sido a Ômega rejeitada. Não havia sido a irmã menor, a fêmea escondida, a vergonha no salão. Eu havia sido o centro. A ordem. A fome. A mulher diante da qual Darius Varek esperou.E isso me enfurecia.Porque parte de mim tinha amado aquele poder.Parte de mim tinha amado ser desejada sem desculpa.Parte de mim ainda sangrava pela menina que quis ser escolhida por ele antes de precisar aprender a fazê-lo ajoelhar.— Eu não quero ser Luna dele — falei.— Quer ser? — Ezra perguntou.A pergunta foi tranquila demais.Cruel demais.Meu peito apertou.— Eu quero justiça.— Não foi isso que perguntei.— Então pergunte a alguém que ainda tem paciência para respostas bonitas.A marca no meu peito queimou como ca
SeleneA lua não nasceu no céu.Nasceu dentro de mim.Primeiro veio como dor.Uma linha prateada abrindo caminho sob minha pele, descendo do peito para as costelas, das costelas para o ventre, do ventre para as pernas, como se meu sangue tivesse esquecido a cor vermelha e decidido carregar noite líquida. A clareira inteira parecia inclinada sobre mim. As árvores antigas formavam um círculo fechado, seus galhos entrelaçados como dedos de juízes. Os lobos estavam afastados, inquietos, as orelhas baixas, os olhos refletindo o brilho que saía da minha marca.Ezra havia desenhado runas na terra com cinzas, sangue de lobo e água de lua.Eu deveria ter perguntado o que era água de lua.Não perguntei.Naquele ponto, metade da minha vida recente parecia feita de coisas que ninguém explicava antes de tentarem me matar.— Respire — Ezra ordenou.Eu estava de joelhos no centro do círculo, as mãos abertas sobre a terra úmida. O vestido improvisado grudava na pele por causa do suor frio. Meu cabelo
SeleneDarius estava de joelhos.De novo.Mas desta vez eu não senti pena.Senti poder.Senti raiva.Senti uma fome perigosa de fazê-lo entender, com cada respiração, que a mulher diante dele não era mais a garota que esperou por salvação no salão.Não houve pressa.Não houve tomada.Houve espera.A mão dele permaneceu ao lado do corpo, fechada em punho, como se cada músculo lutasse contra o instinto de me tocar antes da permissão. Os olhos escuros me encaravam de baixo, cheios de culpa, desejo e uma devoção que, acordada, teria soado como mentira.No sonho, parecia punição.— Lembre — eu disse.A voz saiu baixa.Ele respirou como se a palavra tivesse atravessado sua pele.— Da rejeição — completei.A dor atravessou o rosto dele.— Eu lembro.— Então continue lembrando enquanto tenta me fazer esquecer por um segundo.Ele fechou os olhos.Quando sua boca tocou minha pele, não foi conquista.Foi pedido.Foi arrependimento transformado em calor.A sensação atravessou meu corpo com uma vi





Último capítulo