A Proteção do Trono

Maya

O silêncio que se instalou no pequeno quarto do subsolo era denso, pesado e absoluto. A mão de Helena permaneceu suspensa no ar por um segundo eterno antes de cair devagar ao lado do corpo, enquanto a cor do seu rosto sumia por completo, dando lugar a uma palidez humilhante.

A Matriarca Eleonora deu um passo lento para dentro do recinto. A luz fraca da arandela recortava a sua figura ereta, e a severidade em seu olhar cinzento parecia capaz de cortar a fúria da minha madrasta como uma lâmina afiada.

— M-Matriarca Eleonora... — gaguejou Helena, tentando inutilmente reorganizar a postura e recuperar a voz aveludada que usava nos salões. — A senhora não entende... Esta garota é insolente, desobediente! Ela estava sendo corrigida por insubordinação à minha família...

— O que eu entendo, senhora Davenport — cortou Eleonora, com um tom de voz incrivelmente calmo, mas que ressoava com a força insuperável de uma Rainha —, é que a senhora está sob o meu teto. E sob o teto da linhagem Rossini, ninguém, absolutamente ninguém ergue a mão contra um servo ou criada.

Helena engoliu em seco, dando um passo involuntário para trás. A arrogância que ostentava segundos atrás desmoronara por completo diante da autoridade ancestral da Matriarca.

— Eu não tolero violência nas entranhas da minha casa — continuou Eleonora, mantendo os olhos cravados na minha madrasta. — Se a garota pertence à sua comitiva e cometeu alguma falha, a senhora resolverá de forma civilizada nas suas terras, longe dos meus domínios. Mas enquanto pisar o solo de Valência, você responderá às minhas leis. Fui clara?

— Perfeitamente clara, Matriarca... — murmurou Helena, abaixando a cabeça em uma reverência forçada, o peito subindo e descendo acelerado pela raiva reprimida. — Peço desculpas pela comoção. Não se repetirá.

— Espero que não — declarou a senhora do palácio. — Agora saia. O seu marido e sua filha a aguardam no salão inferior para o encerramento da recepção.

Helena deu-me um último olhar envenenado, uma promessa silenciosa de vingança que me fez congelar por dentro, antes de ajeitar as saias do vestido e passar apressada por Eleonora, desaparecendo pelo corredor do subsolo.

Fiquei sozinha com a Matriarca. O tremor nas minhas pernas era tão intenso que precisei me encostar na parede de pedra para não ceder. Mantive a cabeça baixa, mantendo as mãos cruzadas sobre o meu ventre em um reflexo de proteção que já se tornara automático.

Eleonora aproximou-se devagar. O perfume suave de lavanda e sândalo que emanava dela substituiu o aroma pesado de veneno de Helena. A Matriarca parou à minha frente, encarando-me por longos segundos em um silêncio carregado de significado.

— Você está bem, menina? — perguntou ela, a voz perdendo a rigidez e assumindo uma inflexão suave, quase materna.

— S-sim, senhora... — respondi num fio de voz, sem coragem para erguer o olhar. — Muito obrigada...

— Erga a cabeça, Maya — pediu Eleonora suavemente.

Lutei contra o pavor e levantei o rosto. Os olhos cinzentos da Matriarca examinavam o meu rosto, detendo-se no suor frio que cobria minha testa e na palidez extrema da minha pele. Em seguida, de forma sutil e calculada, o olhar de Eleonora desceu lentamente pela minha figura, pousando exatamente sobre a posição das minhas mãos, que permaneciam firmemente guardando a minha barriga.

Um brilho enigmático e profundamente perspicaz cruzou as íris da senhora de Valência. Ela não fez nenhuma pergunta direta, mas a curva discreta que se formou em seus lábios revelou que aquele gesto não passara despercebido.

— O meu filho está inquieto lá em cima — disse ela, o tom misterioso fazendo meu coração saltar uma batida. — Dominic tem o instinto de um caçador, mas a mente de um governante. Às vezes, a razão cega aquilo que o coração e o sangue já sabem.

Engoli a seco, sentindo a respiração travar na garganta.

— Amanhã cedo a sua comitiva retornará ao Sul — continuou a Matriarca, dando um passo para trás e ajeitando o chalé sobre os ombros. — Descanse nesta noite, Maya. E lembre-se: nada do que acontece nas sombras permanece oculto para sempre sob a luz da Lua.

Eleonora deu-me as costas e caminhou para a saída. Antes de cruzar o portal de madeira, ela parou e olhou-me de relance uma última vez, deixando-me sozinha na penumbra com a certeza aterrorizante de que a mãe do Alfa Supremo começara a ligar os pontos do meu segredo.

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