Mundo de ficçãoIniciar sessãoDominic
A fumaça do meu charuto subia em espirais lentas em direção ao teto alto do gabinete, desenhando formas abstratas na penumbra antes de se dissolver contra as paredes de carvalho. Pisei com força o assoalho, caminhando de um lado para o outro diante da imensa janela de vidro que dava para os jardins do palácio. A chuva lá fora caía em um ritmo constante, mas nada na tempestade se comparava ao caos que rugia dentro do meu próprio peito. Eu me sentia completamente perdido. Confuso. Uma presa encurralada pela própria mente. Racionalmente, tudo estava nos seus devidos lugares. As peças do quebra-cabeça da minha vida haviam se encaixado com a precisão de um relógio real: Laura era a noiva perfeita. Ela tinha o sangue nobre dos Davenport, a prova de pureza fora entregue diante do Conselho, os contratos de aliança estavam assinados e a aprovação dos anciãos era absoluta. Minha mente analítica me garantia que ela era a companheira destinada, a mulher que o destino e a razão escolheram para sentar ao meu lado no trono de Valência. Então por que a desgraça do meu lobo se recusava a aceitá-la? Sentei-me pesadamente na poltrona de couro atrás da escrivaninha, passando as duas mãos pelo rosto em um gesto de pura frustração. A rejeição do meu animal era física, visceral e constante. A cada vez que Laura se aproximava, a cada toque ensaiado das suas mãos no meu braço ou ao som da sua risada calculada durante o banquete, o meu lobo se contorcia no fundo da minha consciência, rosnando com uma ferocidade cega, arranhando a minha mente para se afastar dela. Ele a rejeitava como se ela fosse um veneno. E a pior parte fora aquele instante no salão principal. Aquele maldito rastro de perfume. Apenas uma rajada de ar, e o meu animal despertara com uma violência quase incontrolável, pronto para destruir o palácio em busca da dona daquela essência. E agora que o salão se esvaziara e o silêncio retornara, a sensação de vazio me sufocava. Duas batidas firmes na porta de madeira interromperam o tormento dos meus pensamentos. — Entre — ordenei, a voz saindo rouca e desgastada pelo esforço de manter o controle. A porta abriu-se sem ruído, e a Matriarca Eleonora adentrou o gabinete. Ela trazia uma postura serena, mas seus olhos cinzentos carregavam uma profundidade analítica que parecia enxergar através de qualquer máscara que eu tentasse vestir. Ela fechou a porta atrás de si e caminhou devagar até a mesa. — Você dispensou os guardas da ala leste — observou minha mãe, sua voz suave cortando o ar pesado do ambiente. — E o cheiro de charuto indica que o Alfa Supremo de Valência não encontra paz nem na própria fortaleza. Soltei o ar com força, apoiando os cotovelos sobre a mesa e entrelaçando os dedos. — Eu estou ficando louco, mãe — confessei, admitindo pela primeira vez a vulnerabilidade que me consumia. — A minha mente me mostra os fatos. Laura é a mulher certa. O contrato, a pureza, a aliança... tudo aponta para ela como a minha companheira destinada. Mas o meu lobo... ele a odeia. Ele se contorce em pura rejeição cada vez que ela respira perto de mim! Eleonora permaneceu em silêncio por alguns instantes, contornando a mesa e parando ao meu lado. Ela pousou uma das mãos quentes e acolhedoras sobre o meu ombro rígido. — E você acha que a razão é mais sábia do que o instinto primordial da sua espécie, Dominic? — perguntou ela, suavemente. — Eu preciso da razão para governar este reino! — esbravejei, a frustração transbordando na minha voz. — Eu não posso guiar Valência com base em alucinações de um animal inquieto que se desestabiliza por um rastro de perfume no vento! Se Laura é a mulher daquela noite no Sul, por que o meu lobo age como se a verdadeira noiva nunca estivesse pisado nesta sala? Por que sinto que estou vivendo uma farsa perfeita? Eleonora encarou-me por longos segundos, e a curva sutil que se formou em seus lábios trouxe um mistério antigo que fez o meu peito apertar. — Nem tudo o que os olhos veem ou o que os papéis assinam reflete a verdade do sangue, meu filho — disse a Matriarca, apertando levemente o meu ombro antes de dar um passo para trás. — O seu lobo não é louco. Ele apenas enxerga através das ilusões que a sua mente insiste em aceitar. — O que a senhora quer dizer com isso? — levantei-me bruscamente da poltrona, encarando-a com o olhar em chamas. — A senhora sabe de alguma coisa? Eleonora caminhou em direção à porta, parando com a mão na maçaneta e olhando-me de relance uma última vez. — Diga-me você, Dominic. Quando você fecha os olhos e busca a lembrança daquela noite na escuridão do Sul... você enxerga a mulher que está sentada na sua mesa hoje, ou enxerga uma sombra que a sua razão tenta desesperadamente apagar? Sem me dar tempo para responder, minha mãe abriu a porta e retirou-se, deixando a pergunta enigmática ecoando nas paredes do gabinete e afundando o Alfa Supremo em um abismo ainda mais profundo de incerteza.






