A Nova Dama

Maya

Passei a noite em um dos aposentos conjugados aos da Matriarca Eleonora.

Pela primeira vez em toda a minha vida, deitei-me em uma cama macia, envolta por lençóis limpos e aquecida por uma lareira que estalava baixinho no canto do quarto. Contudo, o conforto parecia um sonho irreal do qual eu temia acordar a qualquer segundo.

Ao amanhecer, Eleonora providenciou para que uma das servas da ala alta me trouxesse um vestido simples, porém elegante, em tom azul-escuro, adequado para a posição de dama de companhia. Quando ajustei o tecido nobre sobre o corpo e espelhei-me no vidro do toucador, mal reconheci a jovem de olhar assustado que habitava aquela silhueta.

A calmaria, no entanto, durou apenas até o meio da manhã.

A notícia de que a criada fora retirada do subsolo e nomeada para o serviço pessoal da Matriarca espalhou-se pela Mansão Rossini como fogueira em palha seca. Eu estava no pequeno salão de chá da ala nobre, organizando alguns pergaminhos de leitura para Eleonora, quando as portas duplas foram abertas com violência.

Helena invadiu o recinto com o rosto contorcido em pura fúria, seguida por uma Laura pálida e transtornada.

— O que significa essa palhaçada?! — esbravejou Helena, marchando em minha direção com os olhos faiscando peçonha. — Quem você pensa que é para vestir roupas da nobreza e se esconder na ala alta, sua cadela ingrata?! Tire essa farda agora e volte já para as tarefas do subsolo antes que eu arrebente você!

Recuei um passo por instinto, o terror de anos de mofado e violência no porão fazendo o meu peito comprimir-se. Contudo, antes que a mão de Helena pudesse erguer-se no ar, a figura imponente da Matriarca Eleonora surgiu do jardim de inverno, cruzando o limiar do salão.

— Dê mais um passo, senhora Davenport, e eu farei os guardas da Coroa arrastarem a senhora para as masmorras de Valência por traição e desrespeito à família real — declarou a voz de Eleonora, cortante como uma lâmina de gelo.

Helena estancou no lugar, o rosto mudando de vermelho-escuro para um tom acinzentado de choque.

— M-Matriarca... — gaguejou Laura, dando um passo à frente com os braços erguidos em apelo. — Essa garota é a nossa serva! Ela pertence à nossa casa, é uma bastarda insolente que a minha mãe acolheu por caridade! Ela não tem o direito de...

— Cale-se Laura. Maya não pertence a ninguém a não ser a si mesma. — interrompeu a senhora do palácio, caminhando devagar até parar exatamente ao meu lado e pousar uma mão protetora sobre o meu ombro. — A partir de hoje, o contrato de escravidão desta jovem com a sua família está sumariamente cancelado. Ela é minha dama de companhia oficial. Qualquer afronta, ameaça ou agressão dirigida a ela será considerada um ataque direto à Matriarca de Valência. Eu fui clara?

Helena tremia de ódio sufocado, os nós dos seus dedos brancos de tanto apertar o tecido do vestido. Ela sabia que contestar Eleonora significaria a ruína imediata dos acordos do casamento.

— A senhora está cometendo um erro grave, Matriarca... — sibilou Helena entre os dentes, os olhos cravados em mim em uma promessa velada de vingança. — Esta garota é um veneno. Ela vai destruir tudo que tocar. Nunca prestou para nenhum serviço doméstico, fizemos o favor de acolhê-la em nossa casa, a alimentamos durante todos esses anos e agora ela simplesmente nos abandona.

— O único veneno que enxergo sob este teto — rebateu Eleonora com um sorriso frio e aristocrático — é a ganância dos mentirosos. Podem retirar-se. O meu chá com a minha dama será privado.

Helena tremia de ódio sufocado, os nós dos seus dedos brancos de tanto apertar a seda do próprio vestido. Ela recusava-se a dar o passo para trás.

— A senhora está cometendo um erro grave, Matriarca! — contestou Helena, tentando argumentar enquanto a voz oscilava pelo descontrolo. — Esta garota é um veneno! Ela é uma bastarda insolente que foi acolhida por caridade na nossa casa! A senhora não entende o perigo de colocar uma serpente desse nível no seu convívio!

— Ela só está fazendo isso para me provocar! — interveio Laura, dando um passo à frente, histérica, as lágrimas de fúria borrando os cantos dos seus olhos. — A Maya é uma invejosa! Ela passou a vida inteira tentando roubar o meu lugar, mas ela é só uma pobre coitada, uma bastarda imunda que nunca seria aceita como filha legítima em lugar nenhum! Ela não tem valor algum, Matriarca!

A humilhação vomitada por Laura ecoou pelas paredes do salão, mas Eleonora permaneceu inabalável, a postura ereta como uma rocha no meio da tempestade.

— BASTA! — o grito de Eleonora cortou o ar como um trovão, carregado de uma autoridade ancestral que fez a madeira do teto tremer e o som das vozes de Helena e Laura morrer instantaneamente na garganta.

Um silêncio sepulcral e sufocante caiu sobre o ambiente. Helena recuou meio passo, pálida, enquanto Laura encolheu os ombros, paralisada pelo choque de ver a senhora de Valência perder a paciência.

Foi exatamente nesse segundo de tensão absoluta que a porta dupla do salão foi empurrada com força.

Passos largos, pesados e apressados ecoaram pelo mármore. A aura sufocante de Alfa Supremo precedeu a figura que cruzou o limiar, Dominic adentrou o recinto com a fisionomia rígida, os olhos faiscando pela comoção que ouvira a distância. Porém, no segundo em que o seu olhar dourado varreu o salão e travou na minha figura, vestida em seda azul, de pé ao lado de sua mãe, o Alfa paralisou.

O tempo congelou, e o silêncio que se seguiu prometia uma tempestade ainda maior.

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