As Marcas do Passado

Maya

O calor da xícara de porcelana entre as minhas mãos trêmulas ajudava a dissipar o frio que o medo deixara em meu corpo.

O chá de camomila e mel desceu suavemente, acalmando o aperto no peito enquanto o silêncio confortável dos aposentos reais nos envolvia.

Eleonora observava-me com atenção e carinho, segurando sua própria xícara com a elegância natural de quem nasceu para a nobreza.

— Agora que o mistério do meu neto está revelado, Maya... diga-me, qual é a sua verdadeira história? — perguntou a Matriarca, o tom curioso e sereno. — Como uma jovem com o seu sangue e a sua doçura acabou vivendo na sombra dos Davenport?

Engoli em seco, encarando o líquido dourado no fundo da xícara antes de criar coragem para erguer o olhar.

— Eu sou apenas uma bastarda, minha senhora... — comecei em um fio de voz.

— Uma bastarda? Como assim? — franziu o cenho Eleonora, a postura ereta demonstrando o seu descontentamento com o termo. — Quero entender como você foi parar sob o teto daquela família.

Respirei fundo, buscando na memória as lembranças amargas da minha infância.

— A minha mãe era uma ômega desconhecida, sem família e sem recursos — expliquei, a voz embargada pela dor antiga. — Ela chegou ao Sul sozinha e conseguiu um emprego como funcionária na propriedade dos Davenport. Com o tempo, Lorde Arthur envolveu-se com ela em um relacionamento secreto... Minha mãe engravidou de mim, mas acabou falecendo durante o meu parto.

Eleonora ouvia em silêncio absoluto, o olhar cinzento tornando-se cada vez mais denso.

— Dona Helena nunca aceitou a minha existência ou a traição do marido — continuei, sentindo uma lágrima solitária escorrer pela bochecha. — Fui criada dentro daquela casa como uma simples empregada, proibida sob severas ameaças de revelar a qualquer pessoa que eu era filha de Arthur. Cresci trabalhando duro, sendo constantemente maltratada... Sempre que eu cometia o menor erro ou tentava questionar algo, dona Helena me trancava por dias no porão escuro e frio da casa.

— Que absurdo! — exclamou a Matriarca, pousando a xícara na mesa com um estalo seco. A indignação faiscava em seus olhos. — Tratar uma criança, a própria filha de sangue, como uma escrava no porão! Essa gente é desprezível!

— Eu suportava tudo porque não tinha para onde ir — continuei, a voz trêmula. — A única coisa que sei sobre a minha mãe é o nome dela... Diana Ravenwood. E só sei disso porque Arthur me deu uma fotografia antiga dela quando jovem, com esse nome escrito no verso. Todos os documentos e pertences da minha mãe estão sob a posse de dona Helena. Ela e Laura usaram essa memória durante a minha vida inteira para me chantagear, dizendo que destruiriam tudo se eu não obedecesse. Se eu fugisse, iria morar na rua... não tenho família, não tenho ninguém no mundo para me ajudar.

Eleonora levantou-se da poltrona e caminhou até mim. Ela colocou as mãos quentes sobre os meus ombros e olhou no fundo dos meus olhos com uma firmeza avassaladora.

— Agora você tem, Maya — declarou a senhora de Valência, a voz tremendo de emoção genuína. — Agora você tem pessoas por você. Você tem uma família.

Olhei para ela com o peito sufocado pelo impacto daquelas palavras.

— A partir deste momento, você não colocará mais os pés na cozinha do subsolo e não servirá a mais ninguém nesta casa — continuou Eleonora, o tom inquestionável de uma ordem real.

— O quê?! — entrei em pânico instantâneo, os olhos arregalados. — Minha senhora, por favor! Se eu parar de trabalhar, dona Helena virá tirar satisfações, ela vai surtar! Ela vai me punir!

— Deixe que ela tente — sorriu a Matriarca com um toque de frieza aristocrática. — Se aquela mulher ousar levantar a voz contra você, saberá exatamente qual é o seu lugar perante a Coroa. Oficialmente, a partir de hoje, você não é mais funcionária dos Davenport. Nomearei você como minha dama de companhia pessoal. Você permanecerá na ala nobre, sob a minha vigilância e proteção direta.

Senti um nó na garganta, sem conseguir conter os soluços diante de tanta generosidade.

— E escute-me bem — concluiu Eleonora, inclinando-se e beijando suavemente a minha testa. — Independente de como as coisas se desenrolem entre você e Dominic, independente do tempo que ele levar para abrir os olhos e enxergar a verdade, eu sempre vou proteger, cuidar e ajudar você e este bebê.

Você nunca mais estará sozinha na vida, Maya. Eu prometo.

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