Mundo de ficçãoIniciar sessão
Ive.
Eu me encarava no espelho do quarto da Verônica, mas mal reconhecia a garota do outro lado do vidro. Meu rosto ainda pulsava. O ardor não era apenas da briga com meu pai; era o lembrete físico de que, mais uma vez, ele tinha cruzado a linha. Não fora apenas um confronto de palavras. Ele tinha me batido de novo. Aquela casa estava me sufocando, como se o oxigênio fosse racionado pela vontade dele. Minha mãe era uma sombra, uma mulher que perdeu a voz há anos, silenciada por um medo que superava qualquer instinto de reação. O fanatismo dele contaminava tudo. Afinal, ele era o secretário de segurança da cidade, um ex-sargento da polícia que carregava a disciplina militar para dentro da sala de estar como se fôssemos recrutas em um campo de batalha. O homem que o mundo via como um protetor era, entre quatro paredes, o nosso maior agressor. — Amiga… e se o seu pai te achar? — A voz da Verônica cortou meus pensamentos. Ela não tirava os olhos do celular, mas o tom entregava a preocupação. Soltei um suspiro pesado e cruzei os braços, tentando conter o tremor nas mãos. — Hoje eu sou uma completa desconhecida — dei de ombros, forçando uma autoconfiança que eu não possuía. — Eu só não fujo de vez por causa da minha mãe. Ela morreria de medo sozinha com ele. Verônica finalmente levantou o olhar, a testa franzida. — Eu imagino… mas essa festa é um encontrão, Ive. Muita gente conhece seu pai. Alguém pode te ver. — Eles não vão me obrigar a voltar se me virem. Eu só preciso de algumas horas longe daquele inferno. Ela deu uma risadinha nervosa para aliviar a tensão. — Bom, meu namorado vai estar lá. Revirei os olhos, esboçando o primeiro sorriso real da noite. — Que ótimo… vou passar a noite segurando vela para vocês dois? — É só você pegar alguém também, simples assim! — Simples? — Soltei uma risada curta, carregada de ironia. — Fala sério, Verônica… — Você fala como se fosse uma missão impossível — ela retrucou, jogando o celular na cama e se aproximando. Voltei a me olhar no espelho. A marca do tapa estava ali, camuflada sob a pele, mas o ardor no peito era o que realmente incomodava. Peguei a base e comecei a espalhar o produto com batidas leves, tentando esconder o rastro da violência dele. — Você não precisa ir se não estiver pronta — Verônica disse, agora com a voz mais mansa, me estudando. Balancei a cabeça negativamente. Eu precisava. Se eu ficasse mais um minuto ouvindo os gritos do meu pai e o choro sufocado da minha mãe no quarto ao lado, eu simplesmente enlouqueceria. — Não… eu preciso respirar. Vamos antes que eu mude de ideia. A festa estava em seu ápice quando chegamos. O grave da música fazia o chão vibrar sob meus pés, e as luzes estroboscópicas cortavam a penumbra, criando um cenário frenético. No início, me senti um peixe fora d'água. Minha mente ainda estava presa no som da mão do meu pai atingindo meu rosto, mas o ambiente insistia em me arrastar para o presente. — Relaxa — Verônica gritou por cima do som, apertando minha mão. — Hoje você é só a Ive. Diversão, lembra? O namorado dela surgiu entre a multidão quase instantaneamente, passando o braço pela cintura dela. — Demoraram, hein? — Culpa dela — Verônica brincou, apontando para mim. — Sempre eu — murmurei com um sorriso de canto. Dei alguns passos para trás para dar espaço aos dois e comecei a observar o movimento. Pessoas dançando, copos para o alto, o cheiro de perfume misturado ao álcool. Foi então que senti um impacto leve no meu ombro. — Foi mal. A voz era profunda, grave o suficiente para sobressair ao barulho ao redor. Levantei o olhar e, por um instante, o caos da festa pareceu entrar no mudo. O cara parado na minha frente tinha uma expressão intrigada, os olhos fixos nos meus como se estivesse tentando decifrar um enigma. — Tudo bem — respondi, tentando manter a voz firme. Ele inclinou a cabeça levemente para o lado, me analisando de um jeito que me deixou desconfortável e fascinada ao mesmo tempo. — Você parece meio perdida nesse mar de gente. Cruzei os braços, desafiadora. — E você parece ser observador demais. Um sorriso lento e perigoso surgiu no canto da boca dele. Ele estendeu a mão, o gesto calmo em meio à agitação. — Diego. Quando minhas mãos tocaram a dele, senti um choque elétrico percorrer meus dedos. Meu coração acelerou, e não foi por causa da música. — Ive. Naquele momento, enquanto o calor da mão dele me ancorava ali, eu não tinha como saber que o encontro com Diego seria o ponto de ruptura. Minha vida estava prestes a mudar, e o perigo que eu conhecia em casa não era nada perto do que estava por vir.






