Capítulo 3

O latejar no meu rosto seguia o ritmo frenético do meu coração. Deitada no escuro do quarto, o único som era o da minha respiração curta, que ainda doía nas costelas. O gosto de ferro do sangue na boca era o lembrete de que a Ive que beijou um estranho na esquina tinha ficado do lado de fora. Aqui dentro, eu era apenas a filha do Secretário de Segurança, uma propriedade que ele achava ter o direito de quebrar.

Estendi a mão trêmula para o criado-mudo e peguei o celular. A luz da tela cortou a escuridão, me fazendo fechar os olhos por um segundo.

Havia uma mensagem.

Diego: Chegou inteira? Acelerei um pouco demais ou você aguentou o tranco?

Um esboço de sorriso tentou se formar nos meus lábios, mas o corte no canto da boca me lembrou de que sorrir era um luxo que eu não podia pagar agora. Olhei para a mensagem por longos minutos. Como eu poderia dizer a ele que o "tranco" da moto foi a parte mais segura da minha noite? Que a verdadeira guerra não estava nas ruas que ele dominava, mas no corredor da minha casa?

Eu precisava responder. Precisava de um fio de contato com o mundo real, longe daquela redoma de vidro e violência.

Ive: Sobrevivi. Mas acho que você dirige como um louco.

A resposta veio quase instantaneamente, como se ele estivesse com o celular na mão, esperando.

Diego: Um louco que te tirou de uma enrascada. Admite, você gostou do perigo.

"Gostou do perigo". Se ele soubesse... O perigo para mim tinha nome, cargo público e uma farda impecável no armário. Diego era o oposto disso. Ele era o caos que parecia paz.

Ouvi um barulho vindo do quarto ao lado — o soluço abafado da minha mãe. O ódio borbulhou no meu peito, mais quente que a dor física. Olhei para as marcas roxas começando a aparecer nos meus braços sob a luz do celular.

Ive: Diego... você falou que o resgate era estratégico. Onde você se esconde quando o mundo resolve te caçar?

Houve um hiato na conversa. Três pontos apareceram e sumiram. Imaginei ele em algum lugar do morro, talvez olhando para as luzes da cidade que meu pai jurou "limpar", sem saber que o maior lixo estava sentado na nossa mesa de jantar.

Diego: Eu não me escondo, Ive. Eu domino o terreno. Se precisar sumir, eu conheço os melhores esconderijos. Por que a pergunta? Aconteceu alguma coisa?

Engoli em seco. Eu queria gritar que sim. Queria pedir para ele voltar com aquela moto e me levar para qualquer lugar onde o sobrenome do meu pai não significasse nada. Mas o medo da realidade me calou.

Eu respirei fundo, sentindo uma pontada na costela. Não podia entregar o jogo, não podia deixar que um estranho — por mais magnético que fosse — visse as rachaduras da minha vida logo de cara.

Ive: Acho que seu "resgate" não foi tão limpo assim. Meu pai descobriu que eu saí. Estou de castigo por tempo indeterminado... então talvez a gente não se veja tão cedo.

Tentei soar casual, como se fosse apenas uma briga comum de uma adolescente rebelde com um pai rígido. Mal sabia ele que o "castigo" envolvia gelo no rosto e hematomas escondidos sob o pijama.

A resposta dele não demorou.

Diego: Castigo? Achei que você fosse do tipo que não seguia regras. Mas não esquenta... o proibido é sempre mais gostoso. Eu dou um jeito de te ver.

Senti um calafrio. O otimismo dele era excitante, mas perigoso demais para a minha realidade. Se o Diego aparecesse na frente do meu prédio, ele não estaria apenas quebrando uma regra de castigo; ele estaria entrando na toca do lobo.

Ive: Calma aí, apressadinho. A gente se conheceu faz o quê? Três horas? Vai devagar.

Digitei a mensagem com um sorriso amargo. Eu queria o fogo dele, mas precisava da cautela que a sobrevivência me ensinou.

Diego: Três horas e um beijo que diz o contrário, Ive. Mas tudo bem... eu sei jogar o jogo da espera. Só não demora muito, porque eu perco a paciência fácil.

Larguei o celular no peito e encarei o teto escuro. A arrogância dele me irritava e me atraía na mesma proporção. Ele falava como se o mundo estivesse aos seus pés, como se nenhum muro fosse alto demais ou nenhum secretário de segurança fosse ameaça suficiente.

Na manhã seguinte, cada movimento era um sacrifício. O corretivo mal dava conta de esconder o tom arroxeado perto da minha maçã do rosto, e o casaco de gola alta, apesar do calor, era a única forma de ocultar as marcas nos braços. Verônica me esperava na esquina, o rosto pálido de preocupação assim que me viu de perto.

— Ive… meu Deus, ele fez de novo? — ela sussurrou, me abraçando com cuidado.

— Não fala nada, só vamos — respondi, a voz seca.

Fomos o caminho todo em silêncio. Mas, ao dobrarmos a esquina da faculdade, meu coração não apenas acelerou; ele parou. Parado bem em frente aos portões principais, montado naquela moto preta imponente, estava Diego. Ele usava óculos escuros e uma jaqueta de couro, atraindo olhares de todos que passavam. Ele parecia um predador em terreno aberto.

— O que Diego faz aqui? — Verônica perguntou, chocada.

Meu estômago gelou. Olhei freneticamente para os lados, procurando qualquer viatura ou o carro preto blindado do meu pai. Se algum subordinado dele passasse por ali e me visse com um cara que exalava perigo daquele jeito, eu estaria morta.

Deixei a Verônica para trás e caminhei a passos largos até ele.

— O que você está fazendo aqui? — sibilei, parando ao lado da moto. — Você ficou louco?

Diego tirou os óculos devagar, revelando olhos que me analisaram de cima a baixo. Ele parou no detalhe do meu rosto que o corretivo não conseguiu esconder totalmente. O sorriso dele sumiu por um segundo, substituído por uma expressão sombria que eu não soube decifrar.

— Eu disse que o proibido era mais gostoso, lembra? — ele respondeu, a voz grave voltando ao tom de deboche, embora seus olhos estivessem sérios. — Vim ver se você ia mesmo cumprir o castigo.

— Diego, vai embora! Agora! — Eu olhava por cima do ombro a cada dois segundos, o suor frio escorrendo pelas minhas costas. — Você não tem noção do perigo que está correndo parado aqui.

Ele inclinou o corpo na minha direção, o cheiro de perfume e asfalto me atingindo em cheio.

— Eu não vou embora, Ive. Eu não sou do tipo que recebe ordens, esqueceu? E eu não tenho medo de "perigo".

— Mas eu tenho! — o desespero vazou na minha voz. — Por favor… se meu pai te vê aqui, se alguém conta pra ele… ele acaba com você. E comigo também.

Diego arqueou uma sobrancelha, os dedos batucando no guidão da moto. Ele parecia achar graça da minha urgência, sem ter a menor ideia de que o homem que eu temia era exatamente quem estava caçando a família dele.

— Então sobe — ele desafiou, estendendo o capacete reserva. — Se está com medo de ser vista aqui, vamos para um lugar onde ninguém te conheça.

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