Eu nunca tinha andado de avião.
Isso surpreendia as pessoas quando eu dizia. Elas sempre presumiam coisas. Viagens. Movimento. Fuga. Mas a minha vida sempre foi construída no plano horizontal. Ônibus. Trens. Estradas que acabavam voltando para os mesmos lugares. Daniel não se abalou com a ideia. Ele tinha um senso real das coisas. De mim.
O céu sempre foi para outras pessoas. Para quem tinha dinheiro.
George dirigia.
A mesma postura. O mesmo silêncio. Ele não comentou quando observei a paisagem rarear em cercas e vegetação baixa. Não comentou quando a pista de pouso surgiu do nada, plana, privada e irreal. Uma pista para mim e Daniel. Um piloto e um copiloto para nós dois. Uma comissária para nos servir.
O jato nos aguardava. Branco. Limpo. Sem logotipos. Sem multidões. Sem anúncios.
Daniel percebeu minha pausa.
— Tudo bem? — perguntou.
— Estou me recalibrando — respondi.
Ele sorriu e estendeu a mão. Eu a aceitei. Não porque precisasse de ajuda. Mas porque aquilo era novo e eu não fin