Mundo de ficçãoIniciar sessãoA casa parecia mais silenciosa naquela noite. Não o silêncio confortável de quem se entende, mas o silêncio tenso de quem escolhe não falar para não explodir. Melina percebeu isso assim que entrou, deixando a bolsa sobre o aparador com mais força do que o necessário.
O dia fora longo demais. Reuniões, olhares curiosos, perguntas indiretas. Pessoas que sorriam como se já soubessem demais sobre uma vida que ela ainda tentava aceitar como sua. O acordo começava a extrapolar o papel.
Ela caminhou até a cozinha e abriu a geladeira, buscando algo que nem sabia ao certo o que era. Encontrou Diogo ali, encostado na bancada, com o celular na mão e a expressão fechada.
— Chegou tarde — ele comentou.
— Não sabia que eu tinha horário — respondeu, sem olhá-lo.
— Não disse isso — Diogo rebateu. — Apenas observei.
— Observar também pode ser uma forma de controle — ela disse, fechando a geladeira com força.
Ele a encarou, mas não respondeu de imediato. Havia aprendido que, com Melina, respostas impulsivas só pioravam as coisas.
— Você parece exausta — disse por fim.
Ela riu, curta e sem humor.
— Parece? Eu estou. Esse acordo é cansativo.
— Você sabia no que estava entrando.
— Sabia das cláusulas — corrigiu. — Não do peso.
O silêncio voltou a se espalhar entre eles. Diogo a observava com mais atenção do que gostaria de admitir. Havia algo diferente naquela noite. Melina não estava apenas irritada. Estava abatida.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou, quase contra a própria vontade.
Ela hesitou. Por um segundo, pensou em responder com sarcasmo, manter a armadura erguida. Mas estava cansada demais para fingir.
— As pessoas olham como se eu tivesse deixado de ser quem eu era — disse. — Como se agora eu fosse apenas… parte do seu mundo.
Diogo sentiu o impacto daquelas palavras mais forte do que esperava.
— Isso não era a intenção — respondeu.
— Mas é o que está acontecendo — ela disse. — Minha vida virou um apêndice da sua.
Ele apoiou as mãos na bancada, refletindo.
— O acordo exige exposição — disse. — Não anulação.
— Então talvez você devesse dizer isso às pessoas que trabalham para você — ela retrucou.
Diogo não respondeu de imediato. Pela primeira vez desde que tudo começara, percebeu que o controle que exercia com naturalidade nos negócios tinha um custo alto quando aplicado a alguém como Melina.
Ela respirou fundo, como se tivesse falado demais.
— Esquece — disse, passando por ele em direção ao corredor. — Estou cansada.
Diogo a observou subir as escadas. Algo naquele momento o incomodou profundamente. Não era culpa. Era uma sensação estranha de responsabilidade que ele não conseguia quantificar.
Mais tarde, já deitado, Melina encarava o teto do quarto. O silêncio agora era interno. Pensava na própria escolha, no que havia aberto mão sem perceber. Não se arrependia exatamente, mas sentia medo. Medo de desaparecer dentro de um papel que não escolhera desempenhar.
Um barulho suave na porta a tirou dos pensamentos.
Ela se sentou na cama.
— Está aberta — disse.
Diogo entrou devagar, como se aquele espaço não lhe pertencesse completamente. O quarto dela era diferente do resto da casa. Mais vivo. Mais humano.
— Não vim discutir — disse ele. — Só… achei que devia esclarecer algo.
Melina cruzou os braços, defensiva.
— Estou ouvindo.
— Não espero que você deixe de ser quem é — continuou. — O acordo não exige isso. Se alguém está ultrapassando esse limite, eu resolvo.
Ela o encarou, surpresa.
— Desde quando você resolve coisas que não estão em planilhas?
Ele quase sorriu.
— Desde que elas começam a interferir no que foi acordado.
— Tudo para você volta ao acordo — ela comentou.
— Nem tudo — respondeu. — Mas é onde sei começar.
O silêncio que se seguiu foi diferente. Menos afiado. Mais incerto.
— Por que aceitou isso? — Melina perguntou de repente. — Quero dizer… você. Com todo esse poder. Poderia ter recusado.
Diogo demorou a responder.
— Porque às vezes recusar custa mais caro do que ceder — disse. — E eu não posso perder o que construí.
Ela assentiu lentamente.
— Então somos dois — murmurou.
Ele a observou por alguns segundos. Pela primeira vez, não via nela apenas resistência, mas medo. Um medo que ele conhecia bem.
— Boa noite, Melina — disse.
— Boa noite, Diogo.
Quando ele saiu, Melina se deitou novamente. O incômodo no peito ainda estava ali, mas havia algo novo misturado a ele. Uma sensação estranha de que, talvez, não estivesse completamente sozinha naquela situação.
No corredor, Diogo parou por um instante antes de seguir para o próprio quarto. A imagem de Melina, cansada e sincera, insistia em permanecer em sua mente.
Ele não gostava de emoções imprevistas. Não gostava de frestas.
Mas, pela primeira vez, percebeu que aquela convivência poderia exigir mais do que controle.
Exigiria atenção.
E isso o deixava perigosamente vulnerável.







