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Capítulo 7 - Convivência Forçada

A manhã começou diferente, e Melina percebeu isso antes mesmo de sair do quarto. A casa estava mais viva. Não barulhenta, mas ativa, como se o dia tivesse sido planejado com antecedência, o que, vindo de Diogo, não era surpresa.

Ela desceu as escadas com cautela, ainda vestindo roupas simples, o cabelo preso de qualquer jeito. Encontrou Diogo na sala, conversando ao telefone, vestindo camisa social clara e sem o paletó. Parecia menos rígido assim, mas ela afastou o pensamento imediatamente.

— Sim, deixe tudo pronto — disse ele ao telefone. — Não, hoje não vou ao escritório cedo.

Ao desligar, percebeu a presença dela.

— Bom dia — disse.

Melina arqueou levemente a sobrancelha.

— Isso foi educado.

— Estou tentando algo novo — respondeu ele.

Ela riu, descrente, e seguiu para a cozinha. Para sua surpresa, a cafeteira já estava ligada. O cheiro de café fresco tomou o ambiente.

— Você fez café? — perguntou, sem esconder o espanto.

— A casa também é sua — respondeu Diogo, encostando na bancada. — Pelo menos no papel.

— No papel tudo é simples — ela comentou, servindo-se.

Eles ficaram ali por alguns segundos, dividindo o mesmo espaço sem trocar farpas. Era estranho. Quase desconfortável.

— Hoje temos uma reunião com a assessoria — disse ele. — Nada público. Apenas alinhamento.

— Você prometeu resolver a questão da sua equipe — ela lembrou.

— E vou — respondeu. — Mas preciso que você esteja presente. Sua opinião importa.

Melina o encarou, desconfiada.

— Desde quando?

— Desde ontem — disse ele, direto.

Ela não respondeu, mas algo se acomodou dentro do peito. Ainda não era confiança. Estava longe disso. Mas era menos resistência.

A reunião aconteceu no meio da manhã. Laura estava lá, assim como dois outros assessores. O tom foi profissional, mas Melina percebeu algo diferente: Diogo interrompia sempre que alguém sugeria algo que soasse invasivo demais.

— Não — ele disse em determinado momento. — Isso não é negociável.

Laura o olhou, surpresa.

— Mas a imagem…

— A imagem não vale mais do que a pessoa — respondeu.

Melina desviou o olhar, fingindo não se importar, mas sentiu o impacto daquelas palavras.

Ao final, quando ficaram sozinhos novamente, ela quebrou o silêncio.

— Você não precisava ter feito aquilo.

— Precisava — ele respondeu. — Foi um erro permitir que avançassem antes.

— Você não costuma admitir erros — ela observou.

— Você não costuma reparar quando alguém tenta corrigir — ele devolveu.

Ela sorriu de canto.

— Talvez estejamos evoluindo.

— Não se empolgue — disse ele, mas havia menos dureza na voz.

O resto do dia foi estranho. Conviviam nos mesmos espaços, cruzavam-se pelos corredores, trocavam comentários neutros. Não havia brigas. Tampouco intimidade. Era um meio-termo instável.

À tarde, Melina decidiu trabalhar na sala. Espalhou papéis, abriu o notebook, mergulhou em suas anotações. Não percebeu Diogo se aproximar até ele parar ao lado do sofá.

— Você sempre trabalha assim? — perguntou.

— Assim como? — ela respondeu, sem erguer o olhar.

— Cercada de caos.

— Eu chamo de processo criativo — disse ela.

Ele observou os papéis por alguns segundos.

— Você é organizada no que importa.

Ela finalmente o olhou.

— E você controla até o que não precisa.

— Talvez — ele admitiu.

O silêncio que se seguiu não era tenso. Era curioso. Um território novo, onde nenhum dos dois sabia exatamente como se posicionar.

No início da noite, Melina saiu para caminhar no jardim. Precisava de ar. Diogo a observou pela janela antes de decidir acompanhá-la.

— Não costumo sair sem planejar — disse ele, ao alcançá-la.

— Nem tudo precisa ser otimizado — ela respondeu.

— Para você, talvez.

— Para você também — disse, parando e encarando-o. — Só não percebeu ainda.

Eles ficaram frente a frente por alguns segundos. Perto demais. O suficiente para que Melina percebesse o cansaço nos olhos dele. O suficiente para que Diogo notasse como ela parecia mais forte do que deixava transparecer.

Ela deu um passo para trás.

— Não comece a me analisar — disse.

— Você já me analisa o tempo todo — ele respondeu.

— Porque você se impõe.

— E você resiste — disse ele.

— Porque alguém precisa.

Os olhares se sustentaram por mais tempo do que o confortável. Melina sentiu algo estranho, uma eletricidade contida, imediatamente reprimida.

— Isso não muda nada — disse ela.

— Eu sei — respondeu Diogo.

Mas nenhum dos dois parecia realmente convencido.

Mais tarde, já em seus quartos separados, ambos tiveram dificuldade para dormir. Pensavam no dia, nos silêncios, nos pequenos gestos.

Ainda havia animosidade. Ainda havia barreiras.

Mas agora também havia perguntas.

E isso tornava tudo perigosamente mais complexo.

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