Mundo ficciónIniciar sesiónA convivência não melhorou no segundo dia. Pelo contrário, Melina teve a impressão de que cada hora passada naquela casa tornava os contrastes entre ela e Diogo ainda mais evidentes. Era como se dividissem o mesmo espaço físico, mas vivessem em universos paralelos, cada um regido por regras próprias e inflexíveis.
Melina acordou cedo, determinada a manter sua rotina. Vestiu-se rapidamente, pegou a bolsa e seguiu para a cozinha, onde pretendia tomar café antes de sair. Encontrou Diogo sentado à mesa, já impecavelmente arrumado, lendo notícias no tablet.
Ela ignorou sua presença e começou a preparar o café do jeito que gostava: forte, sem cerimônia. O barulho da colher contra a xícara quebrou o silêncio metódico do ambiente.
— Você costuma sair sem avisar? — ele perguntou, sem tirar os olhos da tela.
Melina respirou fundo antes de responder.
— Eu costumo viver a minha vida.
Diogo pousou o tablet sobre a mesa.
— Precisamos informar um ao outro sobre horários. Isso está no contrato.
— O contrato fala sobre aparições públicas e convivência básica — respondeu ela. — Não sobre relatórios de rotina.
Ele se levantou lentamente.
— Exposição exige coerência — disse. — Se a imprensa começar a perceber inconsistências…
— A imprensa não precisa saber a que horas eu tomo café — ela interrompeu.
Os olhares se chocaram, tensos.
— Não transforme tudo em um embate — disse ele.
— Não transforme tudo em controle — retrucou.
Melina saiu da cozinha antes que a discussão evoluísse. Ao fechar a porta, sentiu o coração acelerar. Aquilo não era apenas irritação. Era a sensação constante de estar sendo observada, medida, avaliada.
Mais tarde, ao retornar, encontrou a casa em um silêncio estranho. O celular vibrou com uma mensagem desconhecida.
— Sou Laura, assessora do Diogo. Preciso alinhar alguns detalhes sobre sua imagem pública.
Imagem pública. Melina fechou os olhos por um instante antes de responder.
— Prefiro falar pessoalmente.
Pouco depois, Laura chegou. Era eficiente, simpática e excessivamente prática. Falava rápido, como quem já tinha tudo planejado.
— Algumas mudanças simples podem ajudar — explicou. — Pequenos ajustes de postura, presença em eventos estratégicos…
Melina cruzou os braços.
— Ajustes em mim ou na história que querem contar?
Laura hesitou.
— Na narrativa.
Diogo entrou na sala nesse momento, como se tivesse sido convocado pelo desconforto crescente.
— Está tudo bem? — perguntou.
— Depende do que você considera bem — Melina respondeu. — Sua assessora parece achar que eu sou um acessório.
— Não é isso — ele disse. — É apenas alinhamento.
— Alinhamento demais apaga pessoas — rebateu.
Laura percebeu a tensão e se despediu rapidamente, prometendo enviar orientações por e-mail.
Assim que a porta se fechou, Melina se virou para Diogo.
— Você planejava me avisar que minha vida passaria por uma reedição completa?
— Planejava evitar surpresas — respondeu ele.
— Então comece não criando novas — disse ela.
O mal-entendido se agravou naquela noite.
Durante o jantar, Diogo mencionou casualmente um evento empresarial no fim de semana. Um jantar formal com investidores importantes.
— Você estará comigo — disse ele.
Melina ergueu o olhar lentamente.
— Você está me convidando ou me informando?
— Faz parte do acordo.
— Tudo faz parte do acordo para você — respondeu ela. — Mas ninguém me perguntou se eu estou pronta para isso.
— Você assinou — ele disse, firme.
Ela se levantou da mesa.
— Assinei um contrato, não minha personalidade.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Diogo permaneceu sentado, mas havia algo diferente em sua expressão. Não era raiva. Era frustração.
— Você torna tudo mais difícil do que precisa ser — disse.
— Porque você tenta tornar tudo simples demais — respondeu ela.
Mais tarde, no quarto, Melina se jogou na cama, encarando o teto. A imagem de Diogo, sempre tão seguro, insistia em voltar à sua mente. Não por atração, ela se convenceu. Mas por desafio.
No andar de baixo, Diogo servia um copo de água, refletindo sobre o dia. Ele não estava acostumado a ser confrontado daquela forma. Melina não se encaixava em nenhum padrão previsível. E isso o tirava do eixo.
Ainda assim, havia algo nela que o fazia prestar atenção. A firmeza. A recusa em ceder. A maneira como defendia quem era.
Ele não gostava daquilo.
Ou talvez gostasse mais do que deveria.
Na manhã seguinte, uma notícia inesperada chegaria, testando ainda mais aquela convivência instável.
E provando que os conflitos entre eles estavam apenas começando.







