Mundo de ficçãoIniciar sessãoEle tem tudo: dinheiro, nome e um futuro impecável. Ela não tem quase nada, apenas a própria coragem para sobreviver como garota de programa. Quando seus mundos se cruzam, o amor nasce onde ninguém apostaria. Mas amar também pode custar tudo.
Ler maisMais um dia.
Mais um daqueles dias em que Emily preferia não ter acordado. Abriu os olhos devagar, encarando o teto manchado do apartamento minúsculo — ou “apertamento”, como Chloe brincava — que dividia com as amigas. O espaço era pequeno demais para três pessoas e grande demais para tantos silêncios. Ainda assim, era o único lugar que podiam chamar de casa. Levantou-se, fez a higiene no banheiro apertado e seguiu para a cozinha. Chloe já estava lá, mexendo algo na panela com um cuidado quase cerimonial. — Bom dia, flor do dia — disse, animada, assim que viu Emily surgir à porta. Emily arqueou a sobrancelha, ainda meio perdida entre o sono e a realidade. — Bom dia… por que todo esse bom humor? Chloe riu, aquele riso aberto que parecia desafiar o mundo. — E por que eu não deveria estar? Meu coração está batendo, tenho amigas incríveis e comida pra comer. Já é motivo suficiente. Emily a observou em silêncio. Sempre se impressionava com a capacidade de Chloe de permanecer de pé apesar de tudo. Era linda — cabelos loiros, pele clara, olhos azuis — mas não era isso que chamava atenção. Era o brilho que ela se recusava a deixar morrer, mesmo depois de tanta coisa que ninguém deveria viver aos vinte e seis anos. — O que tem pra comer? — perguntou Emily, tentando afastar pensamentos demais. — Pão com manteiga… e manteiga com pão — respondeu Chloe, arrancando uma risada curta das duas. Emily olhou ao redor e perguntou: — E a Stacy? — Aquela piranha ainda tá dormindo! — gritou Chloe, mais para provocar do que com real esperança de acordá-la. A tentativa falhou, mas nenhuma das duas reclamou. Stacy tinha chegado tarde na noite anterior. Muito tarde. Voltou com marcas nos braços e pouco dinheiro no bolso — pouco demais para justificar qualquer coisa. As três sabiam: não havia justificativa. Eram prostitutas. Não gostavam da vida que levavam, mas gostavam umas das outras. E isso, de algum modo torto, as mantinha vivas. Não tinham cafetão. Não por orgulho, mas por medo. Sabiam que, dependendo de quem mandasse, você entrava no negócio… e só saía morta. Por isso trabalhavam sozinhas, aceitando clientes que pagavam pouco e, muitas vezes, nem isso. Homens que não viam pessoas — viam coisas. Por que não saíam dessa vida? De fora, parecia simples julgar. Mas viviam no interior de Cape May, New Jersey. Uma cidade pequena demais para esquecer, grande o suficiente para machucar. Todos sabiam quem eram. Sabiam o que faziam. E ali, reputação era sentença. Já haviam implorado por empregos. Foram recusadas. Já receberam ameaças de homens que temiam ser descobertos. Só podiam sair à noite. Mesmo assim, tinham tomado uma decisão: iriam embora. Portland, Oregon. Um recomeço. Cada dólar era guardado como promessa. O “dinheiro de Portland” não podia ser tocado. Por isso estavam com aluguel atrasado, vivendo de pão, manteiga, geleia e água. — Você consegue ir hoje? — perguntou Chloe, quebrando o silêncio. Emily assentiu. — Consigo. Mas por dentro, repetiu: consigo… claro que consigo. Às nove da noite, saiu. Vestia um short jeans curto e uma blusa rosa decotada. A roupa não era escolha; era armadura. Caminhava pensando na própria vida. Vinte e três anos. Faria aniversário em uma semana. Foi abandonada num orfanato aos dois anos. Nunca adotada. Aos dezoito, saiu sem nada. Tentou pedir ajuda, tentou pedir dinheiro. Quando estava prestes a desistir de tudo, foi Chloe quem a encontrou. Chloe quem decidiu que Emily não morreria naquele dia. Depois veio Stacy. Depois veio essa vida. Uma vida que as três odiavam e pela qual Chloe e Stacy se culpavam até hoje. Emily parou no ponto habitual. Não demorou. — Quanto? — perguntou um homem. — vinte — respondeu, automática. Ele mandou que entrasse. O caminho até o motel foi silencioso. Pesado. O lugar parecia abandonado, com paredes descascadas e uma cama improvisada, sem conforto algum. Havia regras. Sempre havia regras. Não tocar primeiro. Não beijar. Não fazer barulho. Não falar. Emily o observou melhor. Não era feio. Loiro, olhos claros, alto. Mas havia algo quebrado ali. Raiva. Frustração. Algo que não tinha nada a ver com ela. Ele se aproximou rápido demais. O toque foi bruto, o gesto sem aviso. Emily sentiu o corpo enrijecer, o medo subir pela garganta. Tentou se calar, tentou desaparecer dentro de si mesma. A violência não foi só física. Foi o olhar vazio. As palavras cuspidas como veneno. A sensação de não existir. Quando tudo acabou, ele saiu como se nada tivesse acontecido. Sem pagar. Emily ficou ali por um tempo que não soube medir. Chorou em silêncio. De dor, de humilhação, de cansaço. Quando finalmente conseguiu se levantar, sabia: não tinha conseguido dinheiro naquela noite. E isso significava apenas uma coisa. Ela teria que tentar de novo.Vincent acordou no dia seguinte com os olhos ardendo e o peito pesado demais para caber no corpo. Não chorou de novo — já não havia lágrimas suficientes. Vestiu-se no automático e seguiu para a empresa como quem cumpre uma obrigação sem sentido.Quando Nara o viu atravessar o corredor, seu coração apertou. Ele estava diferente: barba por fazer, cabelo desalinhado, olhos inchados e um vazio assustador no olhar. Não parecia cansado — parecia quebrado.Ela o seguiu até a sala e fechou a porta atrás de si.— O que aconteceu? — perguntou, direta, incapaz de fingir normalidade.— Nada… — respondeu ele, a voz rouca, sem convicção.Nara cruzou os braços, encarando-o.— A última coisa em que eu vou acreditar é que nada aconteceu.Ele desviou o olhar.— Tá tudo bem, Nara. Não se preocupa.Ela se ajoelhou diante dele, segurando seu rosto com cuidado, obrigando-o a encará-la.— Antes de você ser meu chefe, você é meu melhor amigo. Desde quando a gente matava aula no ginásio. Antes de eu ser sua s
Vincent entrou em casa como quem entra num lugar que já não reconhece. A porta se fechou atrás dele com um som seco, definitivo demais. O silêncio do apartamento o atingiu como um soco no peito.Ela tinha ido embora.A ficha não caía. Ele não soubera da despedida, não soubera do fim, não soubera de nada. Apenas sentira o vazio se abrir sob seus pés no instante em que Emily o deixara ali, parado, com palavras que ainda ecoavam como estilhaços.Andou alguns passos sem rumo até as pernas falharem. Sentou-se no chão da sala, encostado no sofá, e então desabou. Chorou como nunca havia chorado antes. Um choro feio, silencioso, profundo — daqueles que não pedem consolo porque não acreditam mais que ele exista.A mulher que mais amou na vida tinha ido embora por medo. Por vergonha. Por padrões que ele jamais aceitaria, mas que o mundo insistia em impor. E não havia nada que doesse mais do que amar alguém que acredita não ser digna de ser amada.⸻POV EmilyAssim que fechou a porta do apartame
O resto da semana passou rápido demais — rápido a ponto de assustar Emily. Cada dia parecia escorrer pelos dedos como areia fina. Eles foram a tantos lugares que tudo começou a se misturar na memória: as compras no Soho, as caminhadas no Central Park, o karaokê onde Vincent cantou e a fez se apaixonar ainda mais — e onde Stacy, completamente desafinada, arrancou gargalhadas de todos. Houve cinema, restaurantes novos, risadas inesperadas.E houve as noites.Todas intensas, todas diferentes. Às vezes urgentes, quase selvagens; outras, lentas e cheias de cuidado, como se o tempo tivesse sido gentil o suficiente para parar só para eles. Emily percebeu, assustada e fascinada, o quanto Vincent parecia querer sempre mais — e o quanto ela também queria. Não reclamava. Pelo contrário. Amava vê-lo perder o controle, amava sentir-se desejada, escolhida.E foi exatamente isso que a apavorou.No banho, sob a água quente, encarou a verdade que vinha evitando: aquilo não era passageiro. Ela estava s
— Preparada? — Vincent perguntou.— Sim! — respondeu Emily, com um sorriso que ele não podia ver, os olhos vendados por suas mãos.⸻Naquela manhã, Emily acordou aninhada nos braços dele. Havia ali uma segurança quase perigosa — daquelas que fazem a gente esquecer quem é, de onde veio, e por que aprendeu a se proteger tanto. Aproximou-se ainda mais do peito forte, inspirando o cheiro que já começava a reconhecer como lar.Sentiu Vincent se mexer. Ele abriu os olhos.E lá estava ela outra vez, perdida naquele azul profundo. Ele também parecia preso nos olhos cor de mel que o encaravam — ainda que, na lógica injusta do mundo, ela achasse que não tinha nada de extraordinário para oferecer.— Bom dia — ele disse, sorrindo.— Bom dia — ela respondeu, com a voz suave.— Dormiu bem?— Muito — sussurrou.Vincent levou a mão ao rosto dela, acariciando-lhe a face com cuidado, como se tivesse medo de quebrá-la. Emily fechou os olhos, entregando-se ao gesto.— Eu te amo — ele disse, baixo, mas fi
Emily havia ido ao mercado perto de casa e, ao voltar, encontrou Chloe e Stacy a observando de um jeito estranho demais para ser ignorado.— O que foi? — perguntou, desconfiada.— Se arruma, boneca… — Chloe anunciou, empolgada demais. — A gente vai fazer compras!— Quê?! Como assim? Cadê a Stacy?— Aqui! — Stacy surgiu do quarto, fechando uma mala. — Vamos comemorar seu aniversário. E precisamos de roupas pra isso.Emily riu, incrédula.— Mas o quê? Como? Com que dinheiro?— Amor, você faz pergunta demais — Chloe respondeu, já a empurrando em direção à porta. — Só vem.Foram de trem até o shopping de Cape May. Algumas pessoas as reconheceram como as garotas da zona local, e Emily sentiu o rosto queimar de vergonha. O constrangimento quase a fez querer voltar para casa, mas a empolgação de Chloe e Stacy era contagiante demais para deixá-la afundar naquele sentimento.Compraram roupas de frio e de calor, peças elegantes, outras mais simples. As sacolas se acumulavam. O dia foi leve, div
Depois de soltar um suspiro longo, Emily percebeu que as irmãs a observavam com olhares maliciosos, quase predatórios.— O que foi? — perguntou, sem graça.— CONTA TUDO! — as duas disseram em uníssono.— Contar o quê?— Ah, Emy… não se faça de desentendida — Stacy cruzou os braços, sorrindo. — Você dormiu com ele. Como foi?Emily sentiu o rosto esquentar.— Ahn… foi bom, ué…— Bom como? — Chloe se adiantou, rindo. — O que ele fez? Te jogou na cama? Te amarrou? Puxou seu cabelo igual a gente viu lá embaixo agora há pouco?— Quê?! Não! — Emily arregalou os olhos. — Ele foi carinhoso, gentil… um verdadeiro príncipe. E vocês estavam me espionando?!As duas caíram na gargalhada.Depois de se conterem um pouco, Chloe inclinou a cabeça, com aquele sorriso indecente de sempre.— Tá… mas responde: pequeno, médio, grande ou tamanho família?Emily ficou completamente roxa.— …Grande — murmurou, quase inaudível.As risadas voltaram ainda mais altas.Quando o riso finalmente cessou, Stacy a encaro





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