Mundo ficciónIniciar sesiónNa empresa Edgar’s
Vincent chegou à empresa mais tarde naquela manhã. Passara em casa para se trocar, tentando deixar para trás uma noite que insistia em invadir seus pensamentos. Assim que entrou em seu escritório, foi recebido pela voz animada de Nara, sua secretária — e, sem exageros, sua âncora. — Ei, tigresa, volta pra Terra! — disse ela, estendendo um celular. — Telefone pra você. É o supervisor Barry Luke. Vincent revirou os olhos com o apelido, mas sorriu ao pegar o telefone. — Oi, Barry! — Oi, Vince. Eu só liguei pra agradecer mais uma vez pela promoção. — Você mereceu — respondeu sem hesitar. — E… como o David reagiu? — perguntou Barry, inseguro. — Da pior forma possível — disse Vincent, direto. — Mas isso não importa agora. O que importa é que você trabalhe. — Sim, senhor capitão! — respondeu Barry, rindo. — Até mais, cunhado. — Até! Vincent desligou, mas continuou olhando para o nada. Estava distraído demais. Pensava em olhos cor de mel, boca rosada, sorriso fácil, cabelos sedosos. Pensava em como queria beijá-la outra vez, puxá-la para seus braços e dizer que ela estava segura. — Ei! — a voz de Nara o puxou de volta à realidade. — Eu tô falando com você faz cinco minutos. Anda, você tá atrasado pra reunião. A reunião que você mesmo marcou. Ela sempre o salvava. Sempre. Enquanto caminhavam pelo corredor, Vincent sentiu um certo alívio. Talvez focar no trabalho o ajudasse a tirar Emily da cabeça. Talvez. ⸻ A reunião — Bom dia, senhoras e senhores — começou Vincent, assim que todos se acomodaram. — Pedi que estivessem aqui para alinhar os próximos passos da Edgar’s. A atenção foi imediata. — Como sabem, nossa permanência nesta cidade é temporária. Em breve, cada um retornará às suas respectivas filiais. Alguns cochichos surgiram. — Dentro de dois meses, será eleito o novo diretor da Edgar’s de Cape May — continuou. — Isso faz parte do meu projeto de expansão da empresa. As cabeças se ergueram. — Atualmente, a Edgar’s atua fortemente no mercado musical tradicional. O que eu quero é expandir nossa atuação para o entretenimento completo. Ele projetou os slides na tela. — Vamos abrir três novas frentes: 1. Uma divisão de produção audiovisual, focada em séries, documentários musicais e filmes independentes. 2. Um selo exclusivo para novos talentos, com investimento em artistas de origem periférica e histórias reais. 3. A internacionalização da Edgar’s, começando pela América Latina e Europa. O silêncio era absoluto. — A Edgar’s não será apenas uma gravadora. Será uma potência cultural — concluiu. — Entendido? — perguntou. — Sim, senhor — responderam em uníssono. Vincent respirou fundo. — Também informo que o senhor David Coz não ocupa mais o cargo de supervisor geral. A função passa a ser exercida por Barry Luke, que atualmente está à frente da matriz da Edgar’s na Geórgia. Vincent lançou um olhar firme a David, que permanecia de semblante fechado. Após algumas apresentações sobre o crescimento financeiro da empresa, a reunião foi encerrada. ⸻ Sozinho outra vez De volta à sua sala, Vincent se jogou na cadeira. — Ah, Emily… sai da minha cabeça — murmurou. Começou a batucar os dedos na mesa, cantarolando sem perceber: Ah, seus olhos de mel, um pedaço do céu nessa terra tão triste… Ah, seu sorriso de lado, me deixa encantado, te quero pra mim… — Quem é ela? — perguntou Nara, surgindo na porta. — Nara! — Vincent quase pulou da cadeira. — Você quer me matar do coração?! — Alguma garota tem que existir pra você se inspirar desse jeito — disse ela, rindo. — Não tem garota nenhuma envolvida, dona Nara — respondeu, já pegando o casaco. — Agora, se me dá licença, eu vou pra casa. Até amanhã. Ela o observou sair. — Tem garota nessa história… e eu vou descobrir quem é — pensou. ⸻ POV Emily Emily não conseguia parar de pensar em Vincent. Nos olhos azuis, no sorriso fácil, na forma como ele a fez se sentir… humana. Era o turno de Chloe naquela noite, e Emily agradeceu em silêncio por não precisar sair. Não suportaria olhar para outro homem. Seus pensamentos pertenciam todos a Vincent — e isso a machucava, porque a chance de nunca mais vê-lo era enorme. Stacy entrou no quarto e sentou-se ao seu lado. — Tá pensando nele, né? — É meio inevitável… — respondeu Emily, triste. — Se apaixonar pode ser uma merda, dependendo da pessoa — disse Stacy. — Eu não tô apaixonada — disse Emily, tentando sorrir. — Você pensa nele o tempo todo? O coração dispara? As pernas ficam bambas? Só de lembrar dele? — Sim… — Então sinto lhe dizer, irmãzinha… você tá apaixonada. — A gente se conheceu ontem. Não dá pra se apaixonar em uma noite. — Bom, fala isso pra Romeu e Julieta — respondeu Stacy, fazendo Emily rir. — Você é uma boba… mas uma boba linda — disse, abraçando-a. — Só toma cuidado. Eu não quero te ver sofrer. — Eu prometo. Quando Stacy saiu, Emily ficou sozinha com seus pensamentos. — Por que você não sai da minha cabeça, Vincent? ⸻ POV Vincent Vincent saiu do prédio da empresa e entrou no carro. Sem pensar muito, dirigiu até o mesmo lugar onde a havia visto pela primeira vez. Mas ela não estava lá. Havia outra garota. Loira. Diferente. Ele deu partida novamente e voltou para casa, cabisbaixo. — Onde você tá? — murmurou.






