Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV Emily
Ela não conseguia parar de chorar. Doía. Não apenas o corpo — a alma parecia em carne viva. A humilhação pesava mais do que qualquer dor física, porque contra ela não havia defesa possível. Era um tipo de violência silenciosa, que ficava mesmo depois que tudo acabava. Ainda assim, Emily sabia que não podia parar. Chloe e Stacy a esperavam. Se voltasse sem dinheiro, receberia um abraço, palavras de consolo, aquele cuidado quase maternal das “irmãs mais velhas”, como gostava de chamá-las. Mas também sabia que isso significaria mais atraso, mais risco, mais noites sem dormir. Portland parecia cada vez mais distante, e o despejo, cada vez mais perto. Respirou fundo, levantou-se com dificuldade e encarou o próprio reflexo no espelho do motel. Os olhos inchados denunciavam o choro, mas ela os limpou como pôde. Endireitou a roupa, passou a mão pelos cabelos e saiu novamente para a rua. Era isso ou nada. ⸻ POV Vincent Vincent dirigia devagar por uma rua pouco movimentada, os olhos atentos à procura de algum bar, pub ou qualquer lugar que o fizesse esquecer o silêncio do apartamento vazio. Parou no farol vermelho e, quase por acaso, olhou para o lado. Viu uma prostituta. De início, sentiu pena. Sabia que não era um trabalho fácil — nunca fora. Mas então olhou de novo. O vidro do carro era escuro, ela não podia vê-lo. Foi aí que reparou no rosto da moça. Ela era linda. Cabelos castanhos, ondulados, caindo até o peito. Não conseguia distinguir a cor dos olhos na pouca luz, mas havia algo ali — um brilho diferente, cansado e profundo ao mesmo tempo. A boca era cheia, delicada. Vincent sentiu algo estranho no peito. Algo que não reconhecia. Encostou o carro um pouco mais à frente, afastado dela, enquanto os pensamentos brigavam em sua cabeça. Não posso levá-la para sair. Ela está trabalhando. Se eu chamá-la, vou ter que pagar… E se eu pagar só pelo tempo? Por que eu quero tanto estar perto dela? Aquilo não fazia sentido. E ainda assim, fazia. ⸻ POV Emily Emily aguardava. O corpo rígido, a mente cansada. Alguns carros passavam, nenhum parava. Então viu um Audi preto estacionar um pouco mais à frente. O coração acelerou. O medo voltou com força. As mãos começaram a tremer e os olhos arderam, cheios de lágrimas que ela se recusava a deixar cair. Aquela noite já tinha sido cruel demais. Fechou os olhos por um instante, tentando se recompor. Quando abriu, viu um homem sair do carro e caminhar em sua direção. ⸻ POV Vincent Vincent respirou fundo antes de se aproximar. Decidira chamá-la. Não sabia exatamente por quê. Talvez para conversar. Talvez para oferecer algo diferente daquela rotina dura que ele só podia imaginar. Pensou em levá-la a um hotel decente, pedir comida, falar sobre qualquer coisa. Ver no que dava. Enquanto caminhava, se xingava mentalmente. Se acalma, Vincent. Parece um adolescente. Mas não conseguiu evitar o nervosismo. ⸻ POV Ambos — Oi… — disse ele, a voz um pouco hesitante. — Eu te vi ali… e te achei muito bonita. Quer dar uma volta comigo? Assim que falou, percebeu o quão assustada ela parecia. Os olhos inchados, o rosto tenso. Algo dentro dele se apertou imediatamente. Emily o analisou em silêncio. Ele era bonito — cabelos castanho-claros, olhos muito azuis, pele clara. Educado. Diferente dos outros. Ainda assim, não se permitiu criar expectativas. Aquilo era trabalho. Sempre era. — Vinte — respondeu, seca, sem emoção. Vincent não discutiu. Apenas esboçou um sorriso discreto e estendeu a mão, guiando-a até o carro. Quando tocou nela, sentiu. Ela tremia. Vincent engoliu em seco. Já ouvira histórias sobre os homens daquela cidade pequena — “tradicionais”, diziam. Ele chamava de outra coisa. Um nó se formou em seu estômago. Hoje vai ser diferente, pensou. Emily entrou no carro com o coração acelerado, tentando se preparar para o pior. Mas, pela primeira vez naquela noite, algo parecia… incerto. E, talvez por isso mesmo, perigoso de um jeito completamente novo.






