Mundo ficciónIniciar sesiónNo “apertamento”
Normalmente, as meninas saíam para seus turnos e voltavam na mesma noite — às vezes de madrugada, mas sempre voltavam. Às cinco da manhã, o silêncio era estranho demais. Emily ainda não tinha aparecido. — Ela não atende — disse Stacy, andando de um lado para o outro, a voz trêmula. — Talvez ainda esteja com algum cliente — respondeu Chloe, tentando manter a calma. Tentando. — Como assim, Chloe? Nunca passa de duas horas! Ela já devia estar aqui… ou pelo menos ter ligado! — rebateu Stacy, já à beira do desespero. Stacy nunca quis aquela vida para Emily. Nunca. Quando perceberam que precisariam dela para sobreviver, Stacy fez uma promessa silenciosa: nada aconteceria à sua irmã mais nova. O sumiço repentino a deixava sem chão. Chloe também carregava culpa. Sabia que Emily não escolhera aquilo. Sabia que, para o mundo, ela era apenas “a garota que vivia com prostitutas”. Nenhum emprego, nenhuma chance real. Por isso, as duas sentiam que protegê-la era obrigação — custasse o que custasse. ⸻ No hotel Vincent distribuía pequenos beijos na nuca de Emily, que dormia de bruços, tranquila. O perfume dela era suave, envolvente. Ele passava a mão por suas costas cobertas pelo lençol branco, sorrindo sozinho. O movimento fez Emily se mexer. Lentamente, abriu os olhos. ⸻ POV Emily Ela sentia os lábios dele em seu pescoço, as mãos fazendo carinho em suas costas. Aquilo era perigosamente bom. A fazia se sentir segura… acolhida. Então lembrou. Chloe. Stacy. Elas deviam estar desesperadas. Emily se mexeu de repente, sentando-se na cama. Quando virou o rosto, encontrou os olhos azuis de Vincent a fitando. E se perdeu. Havia ali sinceridade, cuidado… algo que lembrava Chloe. Droga. Chloe. Levantou-se depressa, deixando Vincent confuso. — Eu tenho que ir… obrigada por tudo — disse, pegando a bolsa e indo em direção à porta. Quando ele se aproximou para impedi-la, Emily sentiu um leve sobressalto. Mas a voz dele veio calma: — Espera. Eu te levo. Ela assentiu. ⸻ O caminho até o apartamento foi silencioso. Emily observava a cidade passando pela janela, com um nó no peito. Sabia — sabia — que provavelmente nunca mais veria aquele homem. E isso doía mais do que deveria. Quando chegaram, Vincent estacionou e a encarou. — Obrigado… de verdade — disse ela, tímida. — Eu estava tendo o pior dia da minha vida. Você me ajudou muito. — Não foi nada — respondeu. Hesitou. — Eu… vou te ver de novo? — Eu não sei — disse, sincera. O silêncio se estendeu. Segundos que pareceram horas. Então Vincent levou a mão à nuca dela e a beijou. Foi um beijo intenso e delicado ao mesmo tempo. Emily correspondeu de imediato, como se aquele gesto dissesse tudo o que ela não sabia expressar. Ele a segurou pela cintura, firme, presente. O beijo foi desacelerando até que se separaram, ofegantes, os rostos próximos demais para serem apenas estranhos. Vincent estendeu um envelope. — Isso é o que eu te devo. Por um instante, Emily quase esqueceu que estava ali a trabalho. Pegou o envelope, agradeceu, saiu do carro. E o viu ir embora, virando a esquina. ⸻ POV Vincent O que era aquilo? Era só deixá-la em casa. Só uma despedida. Mas doía. E aquele beijo… aquilo não era algo simples. Mas devia ter sido. Esqueça, disse a si mesmo. Aquela garota. Aquela noite. ⸻ POV Emily Ao entrar em casa, deu de cara com Chloe e Stacy, sérias, tensas. Antes que dissesse qualquer coisa, as duas a abraçaram forte, como se precisassem confirmar que ela estava ali. — Onde você estava?! — perguntou Stacy, brava e aliviada ao mesmo tempo. — Eu… estava com um cliente — respondeu, escolhendo a verdade mais simples. — Que cliente dura a noite inteira? — questionou Chloe. Emily respirou fundo. — Eu também não sei. Ele me tratou bem, conversou comigo, me levou ao Ocean Club, jantou comigo… foi um verdadeiro príncipe. O nome dele é Vincent. — Uau… — murmurou Stacy. — Ele te pagou? — perguntou Chloe. Emily ergueu o envelope. Ao abrir, levou um susto. Era dez vezes mais do que o combinado. E havia uma carta. As três ficaram boquiabertas. — Fico feliz por você — disse Stacy, mais calma. — Mas da próxima vez, liga. Por favor. — Eu prometo — respondeu Emily. — Tá, tá… agora conta — provocou Chloe. — Como foi o desempenho do príncipe? Emily riu. — Não teve desempenho nenhum, suas sem-vergonhas. — O quê?! — Stacy arregalou os olhos. — Então ele é broxa? — Não! — Emily riu ainda mais. — Ele percebeu que eu não queria… e respeitou. A gente só dormiu junto. — Uau… — disseram em uníssono. — E ele é bonito? — insistiu Chloe. — Lindo. Cabelo claro, olhos muito azuis, alto… e um sorriso maravilhoso. As duas riram do sorriso bobo de Emily. — E vocês vão se ver de novo? — perguntou Stacy, mais séria. Emily deu de ombros. — Acho que não. Ele é rico, bonito… talvez até casado. Não crio expectativas. — Como sua irmã mais velha — disse Stacy — eu te aconselho a não se apegar. Emily assentiu. — Vou tomar cuidado. Foi para o quarto e abriu a carta. ⸻ Querida Emily, Esta noite foi, sem dúvidas, a melhor da minha vida. Não porque dormimos juntos — mas porque tive o prazer de conhecer a garota mais linda que já vi. Porque percebi que nem tudo é o que parece. E porque estar com você foi simples, verdadeiro. Não sei se nos veremos de novo. Mas, se acontecer, já sei: será a segunda melhor noite da minha vida. Não se esqueça: o que você faz, o que veste, não define quem você é. Foi um prazer. Vincent Emily terminou de ler com lágrimas escorrendo pelo rosto. Por que aquele homem mexia tanto com ela? E por que a ideia de nunca mais vê-lo doía daquele jeito? Ela não sabia. E, naquele momento, também não sabia se queria saber.






