Mundo ficciónIniciar sesiónMais um dia.
Mais um dia em que tudo se repetia. Acordar. Tomar café. Trabalhar. Voltar para casa. Banho. Jantar. Dormir. E então, recomeçar. Vincent estava exausto desse ciclo silencioso que parecia não levar a lugar nenhum. Aos vinte e sete anos, ocupava a presidência da gravadora que fora de seu pai. Um cargo conquistado cedo demais, carregado de orgulho… e de um vazio difícil de explicar. Depois de chegar tão alto, não sabia mais para onde ir. Não havia metas. Não havia sonhos claros. Apenas responsabilidade. Não era do tipo que saía com frequência ou acumulava relacionamentos. Pelo contrário. Vincent sempre sonhou com algo simples: uma mulher bonita, de bom coração, disposta a construir uma família. Mas o dinheiro era um filtro cruel. As pessoas se aproximavam pelo sobrenome, pelo cargo, pela conta bancária — e não por quem ele era. Nada o encantava. Morava sozinho em um apartamento de luxo, tendo como única companhia seu gato, Haroldo, que o esperava todas as noites como se fosse a única certeza do dia. Tinha quatro irmãos, todos já com suas próprias vidas. Aos olhos de qualquer um, Vincent era o mais bem-sucedido: rico, jovem, respeitado. Mas também era o mais solitário. Alguns chegavam a supor que ele fosse gay, apenas por não ser visto com várias mulheres. Ele nunca se importou com os comentários — mas não eram verdadeiros. O problema não era falta de desejo. Era falta de conexão. A solidão doía. E a velha frase, “dinheiro não traz felicidade”, nunca soara tão verdadeira. Isso começava a refletir no trabalho. Vincent também era músico — ou pelo menos tentava ser. A música sempre fora seu refúgio, mas agora as notas não vinham. As letras morriam antes de nascer. Naquela noite, decidiu: sairia. Precisava quebrar o ciclo. Um bar, qualquer lugar. Não queria nada grandioso. Apenas sentir-se vivo por algumas horas. No trabalho, adiantou documentos e resolveu uma pendência que vinha sendo empurrada há semanas. Promoveu Barry Luke ao cargo de supervisor e rebaixou David Coz, que vinha negligenciando suas funções. David não aceitou bem. — Como assim, senhor? Rebaixado? Eu? — perguntou, incrédulo. — Sim, David. Não era o que eu queria, mas seu desempenho caiu muito — respondeu Vincent, mantendo a voz firme. — E quem vai ficar no meu lugar? Vincent respirou fundo. — Barry. O rosto de David se transformou imediatamente. No passado, fora um excelente funcionário. Dedicado, atento. Mas tudo mudara depois do término com Anne, a irmã mais nova de Vincent. O golpe final veio quando Anne ficou noiva — seis meses depois — justamente de Barry. — Barry Luke?! — David explodiu. — Isso só pode ser piada! Preferência familiar agora? Vai colocar aquele desgraçado no meu lugar?! Achei que você fosse meu chefe e meu amigo, Vince… mas pelo visto é só mais um babaca que não sabe comandar essa empresa! Seu pai teria muito orgulho do merda que você virou! Vincent se levantou devagar. — Chega, David. Você está sendo rebaixado por culpa sua. Não minha. Se não conseguiu manter minha irmã ao seu lado, a responsabilidade não é dela, nem do Barry — muito menos minha. Agora saia da minha sala antes que eu te rebaixe ainda mais. David saiu batendo a porta. Vincent passou a mão pelo rosto, cansado. Detestava conflitos, mas liderança exigia decisões duras. Ainda assim, aquilo o deixou esgotado. Tentou compor. Abriu o caderno, pegou o violão. Nada. Antes, sua inspiração vinha da música, da família, dos sonhos, do amor que ainda acreditava encontrar. Agora, havia apenas silêncio. Era romântico, carinhoso, protetor com quem amava. Mas a solidão estava corroendo isso aos poucos. Seus sentimentos estavam ficando frios — e isso o assustava. Estava em Cape May havia três meses. O projeto de expansão da Edgar’s exigia sua presença ali, mas ele sentia falta de casa, dos amigos, de algo que ainda não sabia nomear. Não podia continuar naquele estado. Naquela noite, sairia. Tentaria se distrair. Talvez conhecer alguém — mesmo sabendo que, naquela cidade pequena, à noite, era difícil encontrar alguém que buscasse amor e não apenas um corpo. Pegou as chaves, entrou no carro e saiu sem destino certo. O ar noturno parecia diferente. E, sem saber explicar por quê, Vincent sentia que algo estava prestes a acontecer.






