Ecos Do Destino.

Duas semanas antes…

— Então, senhor Vincent, o senhor aceita contribuir com este projeto? — perguntou o idoso de semblante sereno, sentado à frente da mesa de mogno.

Vincent cruzou os dedos, pensativo por alguns segundos. A proposta era simples, mas carregava peso. Arte sempre carregava.

— Aceito — respondeu, abrindo um sorriso tranquilo. — Por que não?

O homem sorriu, satisfeito.

— Então nos vemos em duas semanas.

Assim que a porta se fechou atrás do produtor cultural de Cape May, Nara surgiu no escritório como quem já estava ali há tempos.

— Quem era a múmia? — perguntou, apoiando-se no batente da porta.

— Ei, pega leve — Vincent riu. — Ele é incrível.

— Não disse que não era. Só disse que devia estar em exposição permanente em um museu — provocou. — Mas… quem é?

— Produtor cultural da cidade.

— Uau — ela ergueu as sobrancelhas. — Então foi coisa séria.

— Foi. Ele quer que eu dê uma palestra para estudantes do ensino médio. Sobre arte, literatura, música… propósito.

Nara fez uma careta pensativa.

— Ensino médio… ótimo. Meninas tentando provar que são desejadas, meninos tentando provar que são machos alfa. Pelo menos era assim na minha época. Agora deve estar pior.

Vincent riu.

— Eu não era assim.

— Não mesmo. Você sempre foi estranho — respondeu ela. — Fofo, sensível… suspeito.

— Lá vem.

— Vince, você é tão gay que parece uma mulher gay. Ou seja, uma lésbica.

Os dois caíram na gargalhada.

— Só porque eu não saio passando o rodo, viro gay?

— Bem-vindo à sociedade moderna — respondeu Nara. — Quando vai ser a palestra?

— Daqui a duas semanas.

— Só estudantes?

— Não. Alguns ingressos vão ser vendidos ao público.

— Claro… o CEO jovem, rico, bonito, talentoso… ninguém vai pela arte, é pelo pacote completo — provocou.

— Se ao menos um daqueles jovens sair pensando diferente, já valeu a pena — respondeu Vincent, sincero.

— Eu vou assistir do camarote — disse Nara, saindo. — Agora tchau, antes que eu seja oficialmente demitida.

Vincent ficou sozinho, sorrindo.

Duas semanas depois…

O barulho metálico ecoou pelo quarto antes mesmo de Emily conseguir abrir os olhos.

— ACOOOORDEM! — gritou Chloe, batendo uma panela com uma espátula. — O dia está lindo e eu tenho ótimas notícias!

Stacy se virou na cama, enterrando o rosto no travesseiro.

— Não vai me dizer que encontrou o príncipe da Emily ontem à noite — murmurou, sonolenta.

Emily mostrou a língua para ela.

— Não — respondeu Chloe, animada. — Eu conto no café.

Na cozinha, a rotina de sempre: pão com manteiga, geleia barata e água. Nada de especial. Até Chloe se sentar.

— Consegui ingressos pra uma palestra sobre artes hoje à noite.

— O QUÊ?! — Stacy e Emily disseram juntas.

— Essa era a notícia? — Stacy perguntou, decepcionada.

— Como você conseguiu isso? — Emily quis saber.

Chloe respirou fundo.

— Atendi um cliente ontem. Ele me deu a opção: dinheiro… ou ingressos.

— O QUÊ?! — repetiram, em choque.

— Calma — Chloe se defendeu. — A Emily recebeu dez vezes o valor naquela noite. A gente nunca sai desse apartamento. Eu só queria… viver um pouco.

O silêncio se instalou. Stacy e Emily trocaram um olhar cúmplice.

— Ok — Stacy disse por fim. — Vamos à palestra.

Emily sorriu, insegura.

— Mas… ninguém vai reconhecer a gente?

— É evento cultural — respondeu Chloe. — Homem idiota não frequenta esse tipo de lugar.

Emily respirou aliviada.

— Então tá.

— Vamos nos arrumar — Stacy disse, animando-se.

POV Vincent

— É hoje — murmurou, ajeitando o paletó.

— Pronto pra tentar salvar uma geração inteira? — provocou Nara.

— Pronto.

— Então anda — disse ela. — Em trinta minutos você sobe naquele palco.

POV Emily

Emily se olhou no espelho por mais tempo do que o normal. Não por vaidade — mas porque aquela noite parecia… diferente.

Vestiu-se com cuidado. Elegante, discreta. Como alguém que queria ser vista — não desejada.

Quando chegaram ao auditório, entregaram os ingressos e tomaram seus lugares.

O burburinho cessou quando o palestrante foi anunciado.

Assim que ele entrou no palco, o mundo de Emily parou.

O ar faltou.

O coração disparou.

— Não… — pensou, em choque.

Não podia ser verdade.

Não podia.

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