O Que Não É Cobrado.

O serviço de quarto chegou pouco depois. O funcionário organizou tudo com discrição sobre a mesa do enorme quarto e se retirou em silêncio.

Emily comeu com uma atenção quase reverente. Fazia semanas — talvez meses — que não se alimentava de verdade. A falta de dinheiro tinha custado mais do que conforto: custara peso, energia, dignidade.

Vincent percebeu.

Observou como ela parecia saborear cada garfada, como se estivesse reaprendendo algo simples. Aquilo apertou seu peito. Uma vida de privações, pouco dinheiro, pouco cuidado… e, pelo que ele podia sentir, pouco amor.

Ele queria que aquilo acabasse.

Mesmo sem saber como.

POV Emily

Ela não entendia o que estava acontecendo.

Talvez fosse algum tipo de recompensa pelo que havia sofrido mais cedo. Talvez fosse só encenação. O homem à sua frente era bonito, gentil, atencioso — quase irreal. Mas o medo permanecia.

Ele está sendo assim porque quer algo, pensou.

Vai dormir comigo, ir embora e nunca mais aparecer.

Era isso. Sempre era.

Quando terminou de comer, pediu para ir ao banheiro. Vincent concordou imediatamente.

Diante do espelho, retocou a maquiagem pesada, ajeitou o cabelo. Era quase automático. Uma armadura.

É agora.

O coração batia rápido. Estava apavorada. O que havia acontecido mais cedo ainda estava vivo em sua memória. Por ela, nunca mais tocaria em ninguém. Nunca sentira prazer — apenas obrigação. Mas não tinha escolha. Nunca tinha.

POV Vincent

Ela voltou diferente.

Maquiagem mais forte, postura mais rígida. Linda — mas não do jeito que o encantava. Ele preferia o rosto que ela mostrara antes, vulnerável, verdadeiro.

Vincent entendeu.

Ela estava se preparando para algo que não queria fazer.

E ele não permitiria.

POV Ambos

Emily se aproximou sem encará-lo. Sabia que se olhasse para aqueles olhos azuis, perderia o pouco controle que tinha. Ajoelhou-se diante dele, mãos trêmulas, tentando abrir o cinto.

Vincent recuou dois passos, assustado.

— Ei… calma — disse, a voz falhando. — Não precisa ser assim.

Ela congelou.

— A gente pode fazer isso de um jeito melhor — completou, sorrindo com suavidade.

Ele a puxou delicadamente para si e a beijou.

Foi um beijo diferente de tudo que Emily conhecia. Calmo. Doce. Sem pressa. Sem exigência. Vincent segurava sua cintura com uma mão e acariciava suas costas com a outra, como se quisesse tranquilizá-la antes de qualquer coisa.

Ela demorou alguns segundos para corresponder. Quando o fez, foi com cuidado — e, ainda assim, com entrega.

Emily sentia o coração disparado. As mãos permaneciam imóveis ao lado do corpo. O medo ainda estava ali. Vincent percebeu e, com delicadeza, pegou seus braços e os colocou ao redor de seu pescoço.

Ela obedeceu.

Foram até a cama. Ele a deitou com cuidado e se deitou sobre ela, sustentando o próprio peso. O beijo se aprofundou, mais intenso — mas nunca invasivo.

Quando o ar se fez necessário, se afastaram e ficaram se olhando em silêncio.

Vincent a desejava. Muito.

Mas o que via nos olhos dela não era desejo — era receio.

E isso bastou.

Ele se afastou, sentando-se ao lado dela.

— Você quer tirar a maquiagem? — perguntou, com um sorriso leve. — Dizem que mulheres não gostam de dormir maquiadas.

Emily arregalou os olhos.

Dormir?

Eles… não iam transar?

Nada fazia sentido. Quem era aquele homem? E por que se importava tanto?

Vincent também não sabia responder. Só sabia que queria que ela se sentisse segura.

— Se quiser… pode ficar aqui comigo hoje — disse. — Só isso.

Ela hesitou. Depois, assentiu.

Deitaram-se lado a lado. Vincent a envolveu por trás, em um abraço cuidadoso. Emily se permitiu relaxar pela primeira vez em muito tempo.

Dormiram em conchinha.

Sem cobrança.

Sem medo.

Sem preço.

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