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Capítulo 6 — Confissões no Silêncio

Helena Azevedo

Eu esperei.

Não de maneira óbvia, não parada à porta, nem conferindo o relógio a cada minuto. Foi uma espera silenciosa, quase inconsciente, daquelas que nascem no peito e se espalham pelo corpo sem pedir permissão. Enquanto ajudava as crianças a guardarem os brinquedos e organizava as mochilas, meus olhos insistiam em se voltar para a porta da sala.

Ele não apareceu.

Quando o horário de saída chegou e vi apenas pais conhecidos e a babá de Miguel atravessar a sala com um sorriso educado, senti algo estranho apertar dentro de mim. Um aperto rápido, quase discreto, mas real o suficiente para me deixar sem fôlego por um segundo.

— O tio não pôde vir hoje, Helena — disse a babá, enquanto colocava a mochila no ombro.

Sorri automaticamente, me abaixando para me despedir de Miguel. Abracei-o com carinho, mas meu coração não acompanhou o gesto. Quando eles saíram, a sala pareceu grande demais. Silenciosa demais.

E vazia demais.

Balancei a cabeça, tentando afastar aquele sentimento absurdo. Eu não tinha direito de sentir falta de alguém que mal conhecia. Ainda assim, senti. Como se algo que eu esperava — mesmo sem saber — tivesse sido retirado de mim.

— Helena, você tá bem?

A voz conhecida me tirou dos pensamentos. Laura estava encostada na mesa, me observando com atenção. Minha melhor amiga. Aquela que me conhecia desde os tempos da faculdade, que sabia quando eu sorria de verdade e quando fingia.

— Tô… — respondi rápido demais. — Só cansada.

Ela cruzou os braços, inclinando levemente a cabeça.

— Você nunca diz “tô” quando está tudo bem. E nunca fica assim quieta. O que aconteceu?

Suspirei. Não havia escapatória com a Laura. Nunca houve. Sentei-me numa das cadeirinhas pequenas, rindo do tamanho desproporcional para uma mulher adulta.

— É bobagem.

Ela puxou outra cadeira e sentou-se à minha frente.

— As maiores coisas sempre começam assim.

Fiquei em silêncio por alguns segundos, organizando pensamentos que nem eu entendia direito. Por fim, falei:

— O tio do Miguel… o Arthur. Ele não veio hoje.

Laura piscou, confusa.

— Tá… e?

— E eu me senti… estranha. — engoli em seco. — Como se algo estivesse fora do lugar.

Ela me encarou com mais atenção agora.

— Você tá gostando dele?

— Não! — respondi rápido demais outra vez. — Quer dizer… eu não sei. Eu mal o conheço.

— Mas sentiu alguma coisa — ela insistiu, com um meio sorriso.

Assenti lentamente.

— Desde o dia em que ele entrou naquela sala, Laura, eu me sinto diferente. Não é só atração. É como se… eu já o conhecesse. Como se ele tivesse acordado algo em mim que sempre esteve adormecido.

Ela não riu. Não fez piada. Apenas ouviu.

— E hoje, quando ele não veio, eu fiquei decepcionada. E isso me assustou. Porque eu nunca me senti assim por ninguém. Nunca.

Laura apoiou a mão sobre a minha.

— Helena, você sempre foi muito fechada quando o assunto era amor. Talvez porque nunca tivesse sentido algo que realmente te tirasse do eixo.

— Mas isso não é normal — murmurei. — Eu tenho dezenove anos. Ele é um homem feito, um CEO, cheio de problemas. E eu sou só… eu.

— Você é muito mais do que “só você” — ela corrigiu, firme. — E sentimentos não pedem autorização.

Baixei o olhar, sentindo o coração bater acelerado.

— Às vezes parece que não começou agora — confessei, quase num sussurro. — Como se fosse uma lembrança que não é minha. Eu acordo pensando nele. Vou dormir pensando nele. E tem horas que sinto… saudade. Laura, saudade de alguém que eu nunca tive.

Ela respirou fundo.

— Isso é intenso.

— É assustador — completei. — E hoje, quando ele não veio, eu tentei me convencer de que foi melhor assim. Que talvez fosse só coisa da minha cabeça.

— E funcionou?

Balancei a cabeça negativamente.

— Não. Só doeu mais.

Laura sorriu com ternura.

— Talvez porque você esteja tentando lutar contra algo que não nasceu para ser combatido.

— E se eu estiver criando uma história sozinha? — perguntei, com medo. — E se ele nem pensa em mim?

Ela apertou minha mão.

— Mesmo que seja só seu agora, o que você sente é real. E merece ser ouvido.

Ficamos em silêncio por alguns segundos. O sol da tarde entrava pela janela, iluminando partículas de poeira no ar. Respirei fundo.

— Eu não sei onde isso vai dar — disse, por fim. — Mas sei que não consigo fingir que nada está acontecendo.

Laura sorriu.

— Então não finja. Às vezes, o primeiro passo é só admitir para si mesma.

Assenti, sentindo algo se acomodar dentro de mim. Talvez medo. Talvez coragem. Talvez os dois.

Quando saí da escola naquele dia, o céu parecia mais claro. Arthur não tinha aparecido. Mas, de alguma forma, ele esteve comigo o tempo todo.

E eu sabia: ignorar o que sentia não era mais uma opção, e eu estava com medo do que estava sentindo.

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