Mundo ficciónIniciar sesiónArthur Montenegro
Acordei com a estranha sensação de que não tinha descansado nada.
O quarto amplo, minimalista, ainda estava mergulhado na luz cinzenta da manhã quando encarei o teto, tentando organizar os pensamentos. Meu corpo estava pesado, a mente inquieta, e havia um incômodo no peito que não combinava comigo. Não era dor. Era… presença. Como se alguém tivesse passado a noite inteira comigo sem estar ali.
E, contra a minha vontade, ela surgiu na minha mente.
Helena.
O nome ecoou silencioso, provocando algo que eu me recusei a analisar. Fechei os olhos por alguns segundos, respirando fundo, tentando afastar aquela imagem. Eu não tinha o direito de me sentir assim. Não depois de tudo. Não depois das promessas que fiz a mim mesmo.
Levantei-me da cama e segui para o banheiro, esperando que a água fria resolvesse o que o sono não conseguiu apagar. Mas o reflexo no espelho denunciava o contrário: havia algo diferente no meu olhar. Uma tensão contida. Uma vulnerabilidade que eu não reconhecia — e não aceitava.
Enquanto me arrumava para o trabalho, flashes da noite anterior insistiam em retornar. Não como um sonho comum, mas como fragmentos de algo vivido. O toque. A proximidade. A sensação absurda de pertencimento. Apertei a mandíbula, irritado comigo mesmo.
— Chega — murmurei.
Aquilo não fazia sentido. Eu não acreditava em destino, muito menos em conexões inexplicáveis. O que eu sentia só podia ser fruto do cansaço, do stress acumulado, talvez até da solidão que eu fingia não existir.
Meu caminho sempre foi claro: foco, controle, disciplina.
E eu não deixaria uma garota doce demais e jovem demais bagunçar tudo.
No escritório, mergulhei nos relatórios, reuniões e decisões importantes. Assinei contratos, encerrei negociações, dei ordens. Fiz tudo o que sempre fizera com excelência. Ainda assim, por trás da rotina impecável, algo me escapava. O pensamento nela surgia nos intervalos, nos silêncios, nos segundos em que eu baixava a guarda.
Era irritante.
Por volta do meio-dia, recebi uma mensagem da escola lembrando do horário de saída do Miguel. Normalmente, buscar meu sobrinho era a melhor parte do dia. Miguel não era apenas sangue. Era meu filho em tudo o que realmente importava.
Desde o acidente.
A lembrança veio pesada, como sempre. Minha irmã sorrindo no banco do passageiro. Meu melhor amigo ao volante. Um segundo de descuido. Um telefonema que mudou tudo. De um dia para o outro, eu deixei de ser apenas um empresário ambicioso e me tornei responsável por uma vida inteira.
E nunca questionei isso.
Criar Miguel foi a única decisão da minha vida que nunca me trouxe dúvidas. Ele me salvou de afundar completamente no luto. Deu sentido aos meus dias. Me ensinou a amar de novo — de um jeito diferente, mais puro.
Justamente por isso, a ideia de ir até aquela escola hoje me deixou desconfortável.
Porque eu sabia o que encontraria.
Ou melhor… quem.
A simples possibilidade de cruzar com Helena fez meu estômago revirar. Não por desejo explícito, mas por algo muito mais perigoso: expectativa. E eu não podia me dar a esse luxo.
Peguei o telefone e liguei para a babá.
— Hoje você pode buscar o Miguel? — perguntei, tentando soar casual.
Do outro lado, ela confirmou sem questionar. Agradeci e encerrei a ligação, sentindo um alívio imediato… seguido de uma pontada de algo que eu preferi ignorar.
Era melhor assim.
Manter distância sempre funcionou para mim. Fechar portas antes que se tornassem passagens sem volta. Eu já tinha aprendido, da forma mais dura possível, que o amor cobra caro demais.
Ao fim do dia, observei a cidade pela janela do escritório. O sol se punha lentamente, tingindo tudo de tons alaranjados. Em qualquer outro dia, eu estaria pensando em Miguel, em levá-lo para tomar sorvete ou ouvir suas histórias inventadas. Hoje, porém, a minha mente insistia em voltar ao mesmo ponto.
Helena.
Perguntei-me, por um breve instante, se ela também sentia algo estranho. Se também tinha acordado inquieta, com o coração acelerado sem motivo. Afastei o pensamento imediatamente. Aquilo não era problema meu.
Eu escolhi o silêncio.
Escolhi o controle.
Escolhi seguir em frente como sempre fiz: sozinho, fechado e focado nos negócios.
E ainda assim, enquanto desligava as luzes e me preparava para ir embora, uma certeza desconfortável se instalou em mim:
Ignorar nem sempre significa escapar.
E eu precisava escapar.







