CAPÍTULO V

Pedro sempre acreditara que certas decisões não nasciam do afeto, mas da necessidade. A ideia de casar Júlia com o Capitão Sales vinha de longe, forjada ainda nos dias ásperos da Revolução, quando promessas valiam mais do que contratos escritos.

Sales fora seu superior direto nos combates. Homem de confiança entre os oficiais, havia protegido Pedro em momentos decisivos e, em troca, prometera-lhe apoio quando a guerra cessasse — influência, proteção política e portas abertas para assegurar o futuro da fazenda em tempos incertos. Para Pedro, aquela dívida não era apenas pessoal; era estratégica.

O Capitão tinha a mesma idade que ele, mas eram homens moldados por mundos distintos. Sales estudara longe das estâncias, aprendera a manejar palavras e armas com igual destreza, e jamais se adaptara à lida rude dos campos. Preferia os salões, os cafés, os quartéis organizados da capital. Era conhecido por sua facilidade com mulheres e pelo gosto excessivo pelos tragos — algo que Pedro via, mas escolhia não confrontar. Afinal, não se julgava melhor: partilhavam vícios, noites vazias e uma ideia semelhante de liberdade masculina.

Ainda assim, em algum lugar pouco confortável de sua consciência, Pedro se preocupava. Não com o homem que Sales era entre os seus, mas com o marido que poderia se tornar para Júlia. Esse pensamento, porém, era rapidamente abafado pelo peso das alianças e pelo que estava em jogo.

Júlia, por sua vez, mal conhecia o Capitão. Apesar das visitas frequentes à fazenda, os dois quase não haviam trocado palavras. Sales sempre vinha com o pretexto de rever Pedro, mas era por ela que seus olhos procuravam. Júlia, educadamente, se esquivava. Inventava afazeres, desaparecia pelos corredores, refugiava-se nos fundos da casa ou nos campos. Não lhe dava abertura, não lhe oferecia promessa alguma — ainda que soubesse que tudo já estava decidido por outros.

O noivado fora marcado para a chegada da primavera, quando os campos se vestiriam de verde novo e a fazenda receberia convidados importantes. Após isso, Sales partiria para a capital em missão militar — uma convocação ligada à reorganização das forças imperiais e às tensões que ainda fervilhavam nos bastidores do poder, mesmo após o cessar das armas.

Antes de partir, numa conversa breve e direta, Sales fora claro com Pedro:

— Quando eu voltar, nos casamos.

Pedro apenas assentira. Para ele, aquele acordo selava mais do que um matrimônio. Selava alianças, garantia proteção e assegurava o nome da família em um mundo onde nada era estável.

Júlia ainda não sabia — ou talvez soubesse e preferisse não nomear — que a primavera lhe traria menos flores do que renúncias.

Havia ainda um elo que tornava o acordo mais conveniente do que Pedro admitia em voz alta. O Capitão Sales era primo de Stephanie, esposa de Pedro. Pertenciam a uma família influente da capital, respeitada nos círculos militares e envolvida em negócios que iam além dos quartéis — contratos, fornecimentos e alianças que se decidiam em gabinetes fechados.

Esse parentesco tornava tudo mais simples e, ao mesmo tempo, mais definitivo. Um casamento entre Júlia e Sales uniria definitivamente as duas famílias, ampliando o alcance de Pedro para além dos limites da fazenda e dos campos que conhecia desde menino.

O plano era claro: após o casamento, Júlia seguiria para a capital ao lado do marido. Pedro a acompanharia, certo de que ali encontraria novas oportunidades, amparado pelo nome e pela influência dos Sales. As terras que herdara — extensas, férteis, mas exigentes — seriam negociadas quase a preço de nada. Não era uma perda aos seus olhos, mas uma troca. Sales jamais tivera interesse pela lida rural, e aquelas terras, anexas à fazenda do velho Coronel Ernesto, seriam facilmente absorvidas por ele ou por terceiros próximos à família.

Tudo se encaixava como peças friamente calculadas.

Pedro sabia que sacrificava parte do que lhe pertencia por direito, mas acreditava ganhar algo maior: estabilidade, projeção e segurança política. O que não entrava nessa equação era o desejo de Júlia. Seus sentimentos não faziam parte do acordo, tampouco suas recusas silenciosas ou seus olhares sempre desviados quando Sales cruzava a porteira da fazenda.

Para Pedro, aquilo não era crueldade — era pragmatismo. No mundo que conhecia, afetos não sustentavam propriedades, nem garantiam proteção em tempos de mudança. Casamentos, sim.

E assim, enquanto Júlia evitava o Capitão e a primavera se aproximava, tudo já estava decidido entre homens que acreditavam saber o que era melhor para ela.

Após o acordo ser reafirmado, Pedro e o Capitão Sales permaneceram mais algum tempo no gabinete. A garrafa já ia pela metade quando Sales, com o copo na mão, deixou escapar um sorriso seguro demais.

— Ela vai se acostumar — disse, como quem fala de um animal arredio. — No começo todas resistem.

Pedro não respondeu de imediato. Observou o líquido âmbar girar no copo do Capitão e pensou, por um instante breve e incômodo, se aquilo era mesmo prudente. Afastou a ideia. Prudência não sustentava alianças.

— A primavera não tarda — respondeu apenas. — Depois da capital, tudo estará resolvido.

Sales levantou-se, um pouco trôpego, ajeitou o casaco militar e caminhou até a janela. Olhou para os campos como quem observa um território estranho, sem apego.

— Nunca gostei desse tipo de terra — comentou. — Dá trabalho demais para pouco retorno. Na capital é diferente. Lá as decisões rendem mais do que a lavoura.

Pedro assentiu. Já fizera as contas. As terras, anexas às do Coronel Ernesto, seriam facilmente absorvidas. Não seria uma perda, repetia para si mesmo — seria um movimento.

Enquanto isso, em outra parte da casa, Júlia sentia o peso do que ainda não lhe fora dito por completo. Stephanie falava sobre a primavera, sobre visitas e vestidos, como se tudo fosse natural. Júlia ouvia em silêncio, percebendo que o futuro estava sendo desenhado ao redor dela, nunca a partir dela.

Naquela noite, ao recolher-se, teve a nítida sensação de estar cercada. Não por muros, mas por decisões.

E, ainda assim, algo dentro dela resistia.

Não era coragem. Era um incômodo surdo, uma recusa sem palavras, como a terra que não aceita a semente errada. Júlia não sabia ainda o nome disso — mas sabia que não seria fácil arrancá-lo de si.

A primavera se aproximava.

E com ela, o confronto entre o que fora decidido e o que começava, perigosamente, a despertar.

Na manhã da partida, a fazenda ainda dormia quando o Capitão Sales montou seu cavalo. O ar estava frio, e a névoa baixa tornava os campos quase irreais. Júlia observava tudo da janela do andar de cima, oculta pela moldura antiga, como quem assiste a algo que não deseja confirmar.

Sales ajeitou as rédeas, conversou brevemente com Pedro e, antes de partir, ergueu o olhar. Não procurava a casa inteira — procurava por ela. Júlia sentiu o impacto daquele olhar mesmo à distância, como se fosse chamada sem som.

Por um instante breve demais, seus olhos se encontraram.

Júlia recuou e fechou a cortina com rapidez, o coração disparado. Não era timidez. Era instinto.

Sales sorriu de lado. Aquele gesto pequeno lhe bastou. Para ele, Júlia já não era apenas uma promessa de casamento. Era um desafio. Um objeto raro, belo demais para escapar. Não a amava — confundia desejo com posse, fascínio com direito. O que o atraía não era apenas sua beleza estonteante, mas a ideia de domá-la, de fazê-la pertencer a ele como pertenciam as patentes, os acordos e as vitórias.

Pedro, ao seu lado, acreditava chamar aquilo de amor. Mas havia ali algo mais raso e mais perigoso: um capricho alimentado pelo orgulho e pela certeza de que tudo o que se deseja pode ser tomado.

O cavalo avançou. Sales partiu sem olhar para trás.

Atrás da cortina fechada, Júlia permaneceu imóvel, sentindo que aquele gesto simples — fechar a janela — era a única forma de resistência que lhe restava.

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