Mundo de ficçãoIniciar sessãoO caminho de volta estendia-se sob um céu pesado, costurado por relâmpagos que, por instantes breves, rasgavam a noite e faziam a campina emergir como um segredo revelado à força. Júlia seguia adiante sem apressar o passo.
A chuva lhe colava a roupa ao corpo, tornava o tecido denso contra as pernas, marcava-lhe as formas com uma franqueza involuntária — e ainda assim ela mal percebia. O frio mordia a pele, mas o pensamento ardia noutro lugar. Permanecia preso ao salão da Estância Soledad. A lembrança da aproximação de Don Fernando surgia viva, quase tátil. Ele se colocara perto demais — não o bastante para ser um excesso, mas o suficiente para romper a distância segura. Júlia sentira o calor contido de sua presença, a respiração próxima, o silêncio que se estendia entre ambos como algo que respirava por si. Não houvera palavra fora de lugar, nem gesto que pudesse ser censurado. Ainda assim, o olhar dele a alcançara com uma insistência desconcertante, como se a reconhecesse antes mesmo de conhecê-la. Um olhar que não pedia licença — apenas afirmava. Outro clarão incendiou o céu, e por um segundo tudo se fez branco. Júlia respirou fundo. Um sorriso quase lhe escapou — não de alegria mansa, mas daquele que nasce quando algo desperta por dentro e ainda não encontrou nome. Não se importava com a roupa encharcada, com o caminho escuro, com a tempestade que parecia acompanhá-la. Havia nela uma estranha e inquietante sensação de estar viva demais para temer o desconforto. Naquela mesma noite, no quarto silencioso da estância, o capitão Fernando jazia desperto, o corpo estendido sobre os lençóis, os olhos fixos no teto invisível da escuridão. A festa havia terminado, os ruídos haviam se calado, mas sua mente insistia em um único nome. Júlia. Pensava nela como surgira entre os outros — vestida como um peão de estância, simples e firme, alheia aos adornos que tantas mulheres usavam para se fazer notar. Havia nela um modo próprio de ocupar o espaço, uma naturalidade que não pedia atenção, mas a tomava inteira. Aquela postura reta, o olhar direto, a feminilidade escondida sob gestos rudes e honestos. Diferente de todas as mulheres que conhecera — e, talvez por isso mesmo, impossível de ignorar. Fernando fechou os olhos, tentando afastar a imagem, mas ela persistiu: molhada pela chuva, o cabelo pesado, o passo decidido, como se nada pudesse detê-la. Sentiu, então, um incômodo novo, quase indesejado — o reconhecimento de que algo havia sido tocado dentro dele. Não era desejo fácil, nem passageiro. Era mais fundo. Mais perigoso. E, naquela noite, enquanto a tempestade seguia castigando a terra, nenhum dos dois conseguiu realmente pensar em algo diferente que não fosse um no outro. A manhã nasceu lavada pela tempestade. O ar ainda guardava o cheiro de terra molhada quando Don Fernando juntou-se aos peões nas mangueiras. Sem palavras desnecessárias, ajudou a conduzir os cavalos para fora, atento aos cascos que marcavam o barro, aos relinchos impacientes, ao vapor quente que subia dos corpos dos animais sob o frio suave da aurora. Havia ali uma ordem conhecida, quase reconfortante — o trabalho que exige presença inteira e não permite distrações. Ainda assim, mesmo entre os homens e os animais, seu pensamento insistia em escapar. Em breves intervalos, sem que pudesse evitar, a imagem de Júlia surgia — o modo como caminhava, a firmeza silenciosa, a liberdade contida em cada gesto. Fernando se obrigava a retornar ao presente, apertando as rédeas, corrigindo um peão, repetindo para si que a manhã exigia disciplina, não lembranças. Quando os cavalos foram finalmente soltos nos campos e os homens dispersaram-se para outras tarefas, ele seguiu para a sede. O casarão parecia mais silencioso do que de costume. No escritório, fechou a porta atrás de si, como se aquele gesto pudesse conter o mundo e, sobretudo, a si mesmo. Sobre a mesa, papéis, contas, mapas de terra — tudo o que sustentava a Estância Soledad e justificava sua existência. No silêncio do quarto — agora transposto para o recolhimento do escritório — Don Fernando sentiu o peso antigo que sempre retornava depois das noites de tempestade. A lembrança da esposa vinha sem aviso, como vinha desde o dia em que a doença a tomara aos poucos, enfraquecendo-lhe o corpo enquanto ele assistia, impotente, à perda diária de tudo o que fora vida. Não houve desespero ruidoso, apenas aquela dor prolongada que se instala e não vai embora, feita de vigílias, remédios inúteis e despedidas silenciosas. Desde então, aprendera a conter o que sentia. O pai fora outro aprendizado duro. Um homem ríspido, de palavras cortantes e gestos severos, cuja autoridade se impunha mais pelo temor do que pelo respeito. Don Fernando jamais aprovara as crueldades que ele praticara contra a mãe — pequenas violências, repetidas, disfarçadas de correção e silêncio. Ainda assim, herdara dele não apenas a Estância Soledad, mas a obrigação de sustentá-la, como quem carrega um legado que mistura poder e culpa. Grande parte das terras e dos negócios viera por herança, é verdade, mas fora Don Fernando quem lhes dera ordem e prosperidade. Tinha talento raro para o comércio, visão segura, mão firme. Em poucos anos, tornara-se o comerciante mais importante da região, respeitado nos acordos, temido nas negociações, justo nos pagamentos. Sabia lidar com números como poucos, talvez porque aprendera cedo que o mundo não oferecia garantias além daquelas que se construía sozinho. Ainda assim, nenhuma conquista lhe ensinara a lidar com a ausência. A imagem de Júlia, naquela noite, misturava-se às memórias antigas, despertando algo que ele acreditara definitivamente enterrado. Não era desejo apenas — era reconhecimento. E isso o inquietava mais do que qualquer perda já sofrida. Muitas mulheres da capital passavam pela Estância Soledad, atraídas não apenas pela imponência do lugar, mas pelo nome de Don Fernando, que corria com respeito e admiração entre salões e mesas de negociação. Eram belas, bem vestidas, habituadas aos elogios fáceis e às conversas leves. Algumas se aproximavam com sorrisos calculados, outras com promessas sutis de companhia e distração. Nada disso, porém, o encantava. Havia naquela atenção uma pressa que ele conhecia bem — a pressa de ser vista, desejada, escolhida. Don Fernando observava tudo com cortesia e distância, como quem reconhece o valor da forma, mas sente falta da profundidade. Aquela superficialidade lhe parecia ruidosa demais, incapaz de alcançar os lugares silenciosos onde ele aprendera a viver. Depois da perda da esposa, aprendera a desconfiar dos afetos fáceis. O que buscava — ainda que não soubesse nomear — não se oferecia em risos ensaiados nem em olhares treinados. Talvez por isso a lembrança de Júlia o tivesse perturbado tanto: nela não havia artifício, apenas presença. Um silêncio atento, uma firmeza discreta, algo que não pedia nada, mas permanecia. E isso, mais do que qualquer beleza, era o que o desarmava. Por tantos anos, Don Fernando respeitara a memória da esposa como quem guarda um território sagrado, intocado pelo tempo e pelas tentações. Nenhum gesto fora além do permitido, nenhum pensamento se demorara onde não devia. A ausência transformara-se em regra, e a solidão, em disciplina. Agora, porém, a imagem de Maria Júlia adentrando o salão não lhe saía da mente. Havia nela algo quase selvagem — não no excesso, mas na liberdade. Uma afronta silenciosa às convenções que ele aprendera a respeitar, uma mistura rara de audácia e coragem que o desarmava. Ao mesmo tempo, seus traços delicados, a postura firme e o olhar atento compunham uma beleza que não pedia aprovação, apenas existência. Essa contradição o perturbava. Não era desejo imediato, tampouco simples curiosidade. Era o reconhecimento inquietante de algo que atravessava defesas construídas ao longo de anos. E, sentado ali, entre contratos e responsabilidades, Don Fernando compreendeu com lucidez incômoda que, por mais que tentasse se ancorar no dever, seu pensamento já encontrara fuga. Algumas presenças não chegam para pedir passagem. Chegam para permanecer.






