Mundo de ficçãoIniciar sessãoMuitos dias haviam se passado desde aquela partida. O tempo seguira seu curso lento, como se a fazenda respirasse no mesmo ritmo das estações. Naquela manhã, Júlia e Stephanie estavam no galpão da lã, onde o ar guardava o cheiro morno dos fardos recém-lavados e o pó dourado dançava à luz que atravessava as frestas da madeira antiga. As mãos trabalhavam quase sozinhas, entrelaçando fios, enquanto o som baixo das conversas dos empregados se misturava ao canto distante dos pássaros.
Havia uma beleza serena naquele cenário rústico — a lã branca acumulada como nuvens ao chão, os aventais gastos pelo uso, o murmúrio da vida simples que insistia em seguir, apesar das inquietações do coração. Stephanie observava Júlia em silêncio por alguns instantes, até quebrar a quietude com suavidade. — Depois do almoço você precisa se arrumar — disse, com um meio sorriso —. Pedro vai nos levar até o comércio. Chegaram mercadorias da capital… tecidos novos, rendas finas. Precisamos escolher o vestido do noivado. Júlia assentiu, mas seus olhos permaneceram distantes, presos a algum ponto invisível além das paredes do galpão. Não havia entusiasmo em seu gesto, apenas um consentimento cansado. — O capitão Sales é um bom pretendente — insistiu Stephanie, com voz cuidadosa. — Um homem respeitado, firme… você precisa de alguém que cuide de você. Na capital, tudo seria diferente. Uma vida nova, confortável, cheia de possibilidades. Júlia respirou fundo. O fio escapou de seus dedos, e ela parou o trabalho. Havia uma tristeza mansa em seu olhar, não de quem sofre por amor, mas de quem sente que está prestes a perder algo essencial. — Não é isso que eu quero — disse, enfim, em tom baixo. — Não quero esse compromisso. Não quero deixar a fronteira. Stephanie se aproximou, tocando-lhe o braço, tentando arrancar-lhe a verdade inteira. — Mas por quê? — perguntou, quase em súplica. Júlia ergueu os olhos, agora firmes, ainda que marejados. — Porque é aqui que eu pertenço. É esta terra que me conhece, que sabe meu nome sem que eu precise dizê-lo. A fronteira é dura, eu sei… mas é o meu lugar. Não sei viver longe desse horizonte aberto, desse silêncio que fala comigo. Stephanie nada respondeu. Apenas compreendeu, naquele instante, que a tristeza de Júlia não vinha da falta de amor, mas do medo de ser arrancada de si mesma. E o galpão voltou a se encher do som da lã sendo trabalhada, enquanto, do lado de fora, o vento seguia soprando livre — como o coração de Júlia desejava continuar sendo. O comércio da fronteira pulsava como um organismo recém-desperto. As marcas da Revolução Federalista ainda estavam presentes — não apenas nas fachadas castigadas pelo tempo e pela pólvora, mas no modo cauteloso com que as pessoas caminhavam, negociavam, observavam umas às outras. Ainda assim, a vida insistia em florescer entre ruínas e esperanças. As ruas de chão batido fervilhavam. Carroças rangiam carregadas de mantimentos, sacas de grãos, tecidos vindos da capital e objetos trazidos de além-fronteira. Mercadores anunciavam seus produtos em vozes altas, misturando sotaques: castelhanos, portugueses, brasileiros do sul e do interior. O cheiro de couro curtido se confundia com o de ervas secas, café recém-coado e ferrugem antiga. Havia algo de áspero e, ao mesmo tempo, vibrante naquele cenário — como se cada banca fosse um pequeno ato de resistência contra o passado recente de sangue e divisão. Júlia caminhava entre Stephanie e Pedro, o vestido simples contrastando com os tecidos finos expostos nas vitrines improvisadas. Seus olhos percorriam tudo com curiosidade contida, mas o coração permanecia distante, como se seus passos obedecessem mais à convenção do que à vontade. Stephanie apontava rendas, comentava cores, imaginava futuros. Pedro seguia atento, sério, cumprimentando conhecidos, consciente de seu papel naquele arranjo que se desenhava sem paixão. Foi então que, em uma das esquinas, Don Fernando surgiu. Viera àquela região movido por negócios — terras, gado, acordos que só a fronteira permitia a homens de visão e ambição. Trazia consigo o porte de quem estava acostumado a ser notado, ainda que preferisse observar. Parou por um instante ao ver o movimento da rua se abrir diante de si… e então a viu. Júlia. Havia algo nela que destoava do entorno — não pela ostentação, mas pela presença silenciosa. Don Fernando a reconheceu de imediato, embora jamais tivesse trocado uma palavra com ela. Observou seus gestos contidos, a maneira como caminhava sem realmente se misturar ao burburinho, como se sua alma estivesse alguns passos à frente — ou atrás — daquele instante. Sem ser percebido, passou a segui-los à distância. Não por desconfiança, mas por uma curiosidade que lhe despertava algo antigo, quase esquecido. Via Stephanie falar animadamente, Pedro atento e protetor, e Júlia… Júlia parecia carregar um peso invisível, um conflito que não precisava de palavras. Don Fernando compreendeu, mesmo sem saber como, que aquela mulher não pertencia àquela rua, àquele comércio, tampouco aos planos que a cercavam. Havia nela a mesma inquietação que marcava a própria fronteira: um território entre o que foi e o que ainda não se decidiu ser. E enquanto o comércio seguia seu curso ruidoso, ele continuou observando, certo de que aquele encontro silencioso não era mero acaso — mas o prenúncio de algo que, mais cedo ou mais tarde, exigiria escolha. Júlia afastou-se mais do que pretendia. Seus passos a conduziram por um trecho quase esquecido da fronteira, onde o comércio se dissolvia em silêncio e o mundo parecia suspenso. Ali, o chão era úmido, marcado por pegadas antigas, e à frente o rio serpenteava lento, escuro e profundo — a linha viva que separava destinos, países e escolhas. Ela parou. O vento trazia uma melodia distante. Alguém tocava violão em algum ponto invisível da margem, e a canção chegava quebrada, melancólica, como se tivesse atravessado não apenas a água, mas o tempo. Júlia sentiu o peito apertar. Pensava nele. Contra a própria vontade, pensava. Foi então que o sentiu antes mesmo de vê-lo. — Júlia… A voz a alcançou como um toque. Ela se virou bruscamente. O coração falhou um compasso. Don Fernando estava ali, a poucos passos, como se tivesse sido chamado pelo pensamento. O impacto foi imediato, quase doloroso. Seus olhos se encontraram e, por um instante, o mundo pareceu recuar — o rio, a canção, o medo. — Eu… — ela tentou falar, mas a voz não veio. Não o esperava. E talvez por isso não conseguiu esconder o que sentia. O rubor no rosto, o olhar vulnerável, a respiração curta. Fernando percebeu tudo. — Não devia estar aqui — murmurou ela, mais para si do que para ele. — Eu sei — respondeu ele, aproximando-se apenas o suficiente para que o silêncio entre ambos se tornasse insuportável. — Mas pensei em você. Essas palavras romperam o último fio de contenção. O vento agitou os cabelos de Júlia, e o rio refletiu a luz opaca do céu. Fernando ergueu a mão com cuidado, como se pedisse permissão sem palavras. Quando seus dedos tocaram o rosto dela, Júlia fechou os olhos — não por entrega fácil, mas por exaustão de resistir. O beijo aconteceu como um desvio inevitável. Não foi apressado. Foi profundo, contido e perigoso. Um beijo que carregava medo, desejo e despedida. Júlia correspondeu por um instante longo demais, até que se afastou de súbito, levando a mão ao peito, assustada com a própria coragem. — Não podemos...— sussurrou. Fernando respirou fundo. Havia verdade em seus olhos. — Antes de vir para cá, fiz negócio com um mercador — disse, como se cada palavra fosse cuidadosamente escolhida. — Entre as mercadorias, havia isto. Ele levou a mão ao bolso do casaco e retirou um pequeno cordão. A corrente simples sustentava uma pedra delicada, lapidada em forma de coração, discreta, mas luminosa. Sem pedir permissão, tomou as mãos de Júlia e colocou a joia sobre elas. Em seguida, fechou seus dedos com firmeza suave. — Fique com isto — disse, em voz baixa. — Para que não se esqueça de mim. Júlia sentiu o frio da pedra contra a pele, como um juramento silencioso. — Eu voltarei. Ela ergueu os olhos, marejados, incapaz de responder. Ao longe, a melodia do violão cessou. O rio seguiu seu curso indiferente.






