CAPÍTULO 06

No caminho de volta à fazenda, Pedro não escondia a agitação. O silêncio habitual da estrada foi quebrado por sua inquietação crescente, que parecia acompanhar o trote apressado dos cavalos. Não aceitava, de forma alguma, que o pai mantivesse compromissos com aquele homem — don Fernando.

Não era apenas uma questão de negócios ou cordialidade. Havia algo mais profundo, quase visceral. Além de pertencerem a lados políticos opostos, haviam sido rivais em tempos de guerra, homens que já se enfrentaram quando a pólvora ainda decidia destinos. Para Pedro, certas feridas não deveriam jamais ser reabertas — muito menos disfarçadas sob apertos de mão e conversas formais.

Assim que chegaram, a tensão atravessou os portões da casa grande. O discurso inflamado de Pedro ecoava pelos corredores, exagerado em tom e palavras, misturando indignação juvenil e lealdade cega às antigas causas. As paredes, acostumadas a silêncios pesados e decisões difíceis, pareciam ouvir mais um conflito nascer — não no campo de batalha, mas dentro da própria família.

Júlia, que por tanto tempo se calara diante das explosões do irmão, sentiu o peso do momento exigir sua voz. Falou primeiro com doçura, quase como quem pisa em terreno ferido, e lembrou Pedro da história que o pai tantas vezes repetira, como se quisesse gravá-la na memória dos filhos.

Recordou o vínculo silencioso que unia o coronel Ernesto ao então jovem capitão Fernando. No campo de batalha, entre a fumaça espessa e os corpos caídos, Fernando encontrara Ernesto gravemente ferido. Poderia tê-lo matado — a guerra assim ordenava. Mas não o fez. Teve misericórdia. Amparou-o, levou-o a um lugar seguro e garantiu que fosse resgatado por sua tropa. Um gesto que salvara uma vida e criara uma dívida que nenhuma bandeira política poderia apagar.

As palavras de Júlia, porém, não apaziguaram Pedro. Ao contrário, acenderam nele uma fúria antiga, mal contida. Ele se levantou bruscamente, a voz elevada ecoando pela casa grande:

— Nosso pai está morto! — gritou. — E com ele, qualquer acordo, qualquer negócio com aquele homem!

O silêncio que se seguiu foi pesado, quase sufocante. Pedro respirava com dificuldade, o rosto tomado por um misto de dor e raiva, quando voltou os olhos para Júlia. O tom mudou, tornou-se mais duro, quase acusatório.

Disse que não lhe escapara o interesse de don Fernando por ela. Que percebera os olhares demorados, a atenção excessiva. Repreendeu-a sem medir palavras, afirmando que Júlia lhe dera liberdade demais, permitindo uma proximidade que jamais deveria ter existido.

— Você deixou que ele se aproximasse mais do que devia, Júlia — acusou, ferindo-a não só com as palavras, mas com a desconfiança.

Júlia sentiu o golpe em silêncio. Não respondeu. O que ardia em seu peito não encontrava voz — apenas a certeza de que, a partir daquele instante, nada naquela casa permaneceria como antes.

Pedro respirou fundo, como quem toma uma decisão irremediável. O olhar, antes tomado pela fúria, endureceu num cálculo frio, próprio dos homens que acreditam saber o que é melhor para todos.

Disse então, quase como uma sentença, que já havia conversado com Sales. Que o casamento seria acertado sem mais delongas. Para ele, não havia mais tempo a perder com hesitações ou sentimentalismos.

Afirmou que Júlia precisava de um marido. Alguém que lhe pusesse as devidas rédeas, antes que seu nome começasse a circular de forma indevida nas rodas dos bolichos, misturado a insinuações e maledicências que não perdoavam mulheres sozinhas nem olhares mal interpretados.

— Antes que você fique falada, disse ele, sem suavizar o golpe.

As palavras caíram como ferro em brasa. Júlia sentiu o mundo se estreitar ao redor, presa entre a memória do pai, a sombra da guerra e um destino que lhe era imposto sem consentimento. O silêncio que tomou a sala não foi de paz, mas de ruptura.

E assim, naquela noite, não foi apenas o passado que voltou a assombrar a casa — foi o futuro que começou a ser decidido à força.

Júlia fugiu para o rio naquela tarde como quem busca ar depois de um incêndio. Precisava escapar da fúria do irmão, das palavras que ainda ecoavam dentro dela como açoites. À margem, o mundo parecia outro. O céu se tingia de cores brandas, dourado e lilás misturados no espelho da água mansa, e o canto distante dos pássaros devolvia à paisagem uma calma que a casa lhe negara.

Despiu-se sem pressa, com a naturalidade de quem sempre pertenceu àquele lugar. A nudez não lhe trazia vergonha, mas alívio — era apenas corpo e água, pele e correnteza. Mergulhou devagar, deixando que o rio lhe lavasse não só o suor do dia, mas também o peso das decisões impostas. A tarde a envolvia inteira, como se a natureza a reconhecesse e a guardasse em silêncio.

Enquanto a água escorria por seus ombros, o pensamento lhe traiu o coração e foi até Fernando. Não como desejo declarado, mas como lembrança insistente: o olhar atento, a voz contida, a presença que a inquietava mais do que deveria. Júlia fechou os olhos, sentindo o sol tocar-lhe o rosto, e por um instante permitiu-se apenas sentir — sem culpa, sem rédeas, sem promessas. Ali, entre o rio e o céu, ainda era dona de si.

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