ESTÂNCIA SOLIDÃO - Um amor além do tempo
ESTÂNCIA SOLIDÃO - Um amor além do tempo
Por: Andrea Rodrigues
CAPÍTULO I

“Há amores que não pertencem ao tempo, mas à terra e ao vento. Quando a memória não alcança, a lenda se encarrega de guardar”

Fim do século XIX, nas margens do Rio Jaguarão, a fronteira era mais do que linha divisória — era um território de encontros e desavenças, onde o Brasil e o Uruguai se olhavam como irmãos que ora se abraçavam, ora se enfrentavam. Um cenário de contrabando, festas populares e memórias das batalhas que sangraram aquele chão.

Ainda ecoavam, nas conversas à meia-voz e nos causos repetidos ao redor do fogo, as marcas da Revolução Farroupilha. Não como um livro fechado, mas como ferida mal cicatrizada.

Os estancieiros lembravam os dias em que o Rio Grande ousou sonhar república, desafiando o Império, enquanto a fronteira servia de refúgio, passagem e esperança para homens armados de ideais e pólvora.

Do lado uruguaio, aliados e adversários se alternavam conforme o vento da política, e a neutralidade nunca era completa.

A rivalidade não se limitava às armas. Ela se estendia aos costumes, à terra disputada, ao gado que cruzava o rio sem pedir permissão, aos sotaques que se misturavam nas feiras e tavernas. Brasileiros e orientais compartilhavam o mesmo horizonte aberto, mas carregavam memórias distintas do poder, da lealdade e da honra.

Assim, naquela fronteira viva, o passado não repousava: caminhava ao lado dos vivos, moldando escolhas, inflamando paixões e lembrando a todos que ali, entre um país e outro, a história nunca fora apenas passado — era presença constante.

Ali, Júlia cresceu e tornou-se mulher, entre o peso da memória e a aspereza do presente.

O pai, veterano da Guerra do Paraguai, permanecia acamado, prisioneiro de lembranças que não lhe concediam repouso. Durante o dia, seus olhos turvos vagavam entre o teto e a janela, como se ainda buscassem o clarão distante das batalhas.

À noite, porém, a guerra retornava com mais crueldade. Em delírios febris, chamava pelo nome da esposa morta, estendendo as mãos no escuro, certo de que ela viria ao seu encontro. Júlia o escutava em silêncio, sentada à beira da cama, enquanto aquelas palavras rasgavam o tempo e reacendiam ausências.

O amor que os unira fora intenso e improvável. Ele, filho de estancieiros respeitados; ela, marcada por uma origem que a família dele jamais aceitou. Havia quem dissesse que seu sangue não lhe concedia direito àquelas terras, como se a história pudesse ser apagada por sobrenomes e escrituras.

Ainda assim, amaram-se à revelia do desprezo e das vozes que os condenavam. Construíram a vida sobre um chão contestado, carregando a certeza silenciosa de que nem toda posse se escreve em papel — algumas se afirmam na resistência, no trabalho e na permanência.

Agora, entre a doença e a memória, restava ao velho Coronel apenas a companhia dos fantasmas e a fidelidade tardia a um amor que nem a guerra, nem o preconceito, conseguiram destruir. Ao lado do irmão Pedro — homem de palavra dura e temperamento irascível, marcado também pelos combates da Revolução Federalista — Júlia se habituara a ouvir sem contestar. Concordava em silêncio com seus discursos inflamados, apenas para apaziguá-lo e retomar a rotina do casarão, onde encontrava refúgio nos pequenos afazeres.

Na fazenda, os dias seguiam lentos, arrastados como se o tempo também tivesse feridas a cicatrizar. Pedro se ocupava das negociações de couro e lã, em meio às disputas e alianças que a vida na fronteira impunha. Era uma convivência ambígua, feita de rivalidade e de integração: o mesmo portão que se abria para o compadre oriental, podia fechar-se com desconfiança diante do vizinho brasileiro.

E Júlia, entre ecos de guerra e a monotonia dos campos, aprendia a viver nesse espaço de contrastes — onde a terra guardava tanto sangue quanto esperança, e onde seu destino começava a se desenhar em silêncio

Julia e Pedro eram filhos de Ernesto e Isabel Anahí, mulher de alma forte, herdeira do sangue charrua que corria por aquelas campanhas do Rio Grande do Sul. Da mãe guardava os olhos escuros e profundos, como quem carrega em silêncio histórias mais antigas que a própria memória. Do pai herdara a postura firme e o senso de disciplina, ainda suavizados pela delicadeza que sempre a distinguia.

Das feições morenas e cabelos fartos, Julia parecia carregar em si mescla de dois mundos: o rigor militar de Ernesto e a ancestralidade indômita de Isabel. Cresceu com um espírito livre, inquieto, mas trazia um coração generoso, puro, comovido sempre com a dor alheia. Era observadora, silenciosa, aprendendo a escutar os rumores da vida, mesmo antes de aprender a falar sobre ela.

A tragédia marcou cedo sua existência. Isabel sua mãe, adoeceu subitamente. Alguns diziam ser febres trazidas pelas águas, outras que fora a fragilidade daquele coração cansado. Partiu quando Júlia ainda mal sabia compreender o luto, deixando-a órfã de um colo que lhe seria eterno refúgio. A ausência da mãe a fez forte mais cedo do que a idade pedia, aprendeu a encontrar no silêncio das lembranças o afago que tanto lhe fazia falta. Tornou-se o próprio espírito da fronteira: a disciplina e a fúria dos campos de batalha e a liberdade indomável das pradarias.

Pedro, o irmão mais velho, tinha temperamento firme, forjado nas lides da Revolução Federalista. Era homem de fala dura, mas de coração atento, e, embora muitas vezes parecesse severo, guardava para Júlia um zelo silencioso, sobretudo porque Ernesto, já debilitado, pouco podia lhe oferecer além da lembrança dos tempos de glória e dor.

Pedro vivia na fazenda com a esposa — uma mulher bondosa, de gestos simples — e os filhos pequenos, que traziam alegria e movimento àquela casa grande. Entre eles reinava certa harmonia, como se cada um compreendesse a importância de manter de pé o legado deixado pelos pais, mesmo em tempos de instabilidade.

A fazenda se estendia sobre campos vastos, onde ovelhas pastavam em rebanhos cerrados, cobrindo a paisagem de branco e movimento. A lã era fiada em paciência e suor, tornando-se moeda de sustento nas feiras da fronteira. Do couro, Pedro fazia negócios com tropeiros que vinham e iam, carregando nas mulas a vida de dois países que se tocavam sem nunca se fundir.

O gado, rústico e bravo como convinha àquele tempo, era cuidado com persistência. Pedro, embora severo, buscava sempre melhorar o rebanho, cruzando raças, escolhendo os mais fortes, como quem sabia que a prosperidade exigia trabalho incansável.

Para Júlia, a fazenda era ao mesmo tempo prisão e horizonte. Nos amanheceres, contemplava os campos dourados pelo sol, o mugido dos bois e o balido das ovelhas compondo uma sinfonia agreste. E, entre os afazeres, sonhava em silêncio, guardando no peito uma inquietação que parecia maior que o casarão, maior que a própria fronteira.

Talvez herança charrua, um impulso por uma liberdade que gritava distante das mangueiras e um impulso por uma liberdade que gritava distante das mangueiras e das cercas de arame farpado.

Essa força se revelava quando montava. No lombo dos cavalos, Júlia deixava transbordar o que o corpo em terra precisava conter.

Galopava pelas planícies como quem conversa com o vento, sentindo-se inteira, sem amarras, pertencente apenas ao instante. Ali, sua coragem não pedia licença, e o mundo parecia caber no compasso firme dos cascos sobre a relva.

Mas o tempo, implacável, lhe impôs outra travessia. Com a doença do pai, os campos se estreitaram.

As rédeas foram penduradas, os galopes substituídos pelo silêncio dos quartos fechados e pelo ritmo lento da respiração alheia. Júlia permaneceu. Cuidou, velou, sustentou a casa com a mesma firmeza com que antes domava cavalos bravos.

Aprendeu que a liberdade, às vezes, não está em partir, mas em ficar — ainda que o coração siga correndo, indomável, pelas planícies que ela agora apenas observa da janela.

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