CAPÍTULO II

Foi Pedro quem decidiu que partiriam até a Estância Soledad. Os negócios de lã precisavam de novos acordos, e a família de Don Fernando era conhecida por possuir terras em ambos os lados da fronteira — brasileiros e orientais ao mesmo tempo, como se a própria estância fosse o reflexo da ambiguidade daquelas campanhas.

Naqueles dias, apesar do peso da doença que habitava a casa, María Júlia se permitia um contentamento raro. Havia completado mais um ano de vida, e o irmão, atento às delicadezas que ela já não pedia em voz alta, decidira surpreendê-la. Sabia que, desde que o pai adoecera, a solidão se tornara sua companheira mais fiel, silenciosa e constante. A viagem era mais do que um presente: era um respiro.

Sua esposa ficaria na estância, zelando pelo velho Coronel, cuidando-lhe as febres e os silêncios, enquanto María Júlia seguiria com o irmão até o outro lado do rio. Atravessariam o Jaguarão rumo à Banda Oriental, como ainda era chamado aquele território uruguaio por quem carregava o passado na língua e na memória. Do outro lado, diziam, a vida pulsava com outra cadência — menos vigiada, mais leve, quase promissora.

Sentia o coração bater com a mesma ansiedade doce das manhãs de infância. Não era apenas a travessia do rio que a aguardava, mas a esperança de, ainda que por poucos dias, lembrar-se de quem fora antes das renúncias. Entre uma bagagem discretas e pensamentos guardados, ela compreendia que aquela viagem não era fuga, mas um gesto de amor: do irmão que a via, e dela mesma, que ousava atravessar a fronteira em busca de um pouco de si.

Partiram cedo, cruzando campos alagados, arroios e coxilhas que pareciam não terminar. A cada passo, Júlia sentia o peso e o fascínio daquele espaço sem fronteiras: ali, o comércio misturava sotaques, a vida confundia identidades, e as histórias corriam livres, como o gado que passava de um lado ao outro sem conhecer limites.

O vento da campanha não respeitava fronteiras, atravessava cercas, riachos e planícies onde a terra parecia não acabar nunca. Homens e mulheres traziam nas bombachas as manchas da lida, o dia a dia das estancias que começavam antes mesmo do sol surgir.

Maria Júlia vinha montada num zaino, postura ereta, tranças presas num lenço rubi que cobria-lhe a nuca. Na cadência do trote havia algo de insubmisso, como se cavalo, campo e corpo fosse um só.

Chamavam-lhe de muchacha, guria, menina, conforme a boca que a nomeava junto à um aceno por onde passava. E mesmo distintas, cada palavra lhe caia bem, porque não havia muro entre o espanhol que se aprendia do outro lado do rio, nem o português das rodas de mate. Era tudo um só idioma: o da fronteira!

Naquele tempo pós revoluções, o calendário se marcava pelas estações: o da tosquia, a marcação, a espera da chuva. Chuva esta que foi por companhia por quase todo o caminho naquela manhã. A tarde veio em tons de cobre, trazendo uma brisa morna secando o rosto cansado mas não vencido pela viagem.

Quando finalmente avistaram na distância a Estância Soledad, que ergueu-se diante deles em um conjunto imponente de casas de pedra e madeira, rodeado de currais e galpões. Era mais que uma fazenda: era um domínio, um lugar de poder e tradição, onde o próprio ar parecia carregar ecos de guerra e de grandeza.

A Estância Soledad erguia-se altiva no coração da campanha uruguaia, como um segredo antigo guardado entre campos sem fim. Próxima às margens de um lago largo e sereno, refletia o céu em suas águas mansas, como se o tempo ali aprendesse a andar mais devagar. As construções principais, feitas de pedra e cal, ostentavam paredes espessas que protegiam do sol impiedoso do verão e acolhiam o calor das brasas durante os invernos rigorosos, quando o vento soprava livre pela planície.

No pátio interno, envolto por corredores de arcos antigos, pulsava a vida cotidiana da estância. Peões cruzavam o espaço em passos firmes, trazendo consigo o cheiro do couro e da terra; arreios pendiam silenciosos nas paredes; cães pastores repousavam à sombra, atentos, como guardiões discretos daquele mundo. O som distante dos cascos e o ranger suave das portas compunham uma música simples, repetida há gerações.

Ao centro, um poço de pedra e um velho jacarandá ofereciam abrigo aos que buscavam descanso. Suas raízes profundas pareciam conhecer todas as histórias ali vividas — amores contidos, despedidas silenciosas, promessas nunca ditas. O casarão, de janelas altas com venezianas pintadas de verde escuro, abria-se em varandas amplas voltadas para a vastidão da planície, onde o olhar se perdia e o coração também.

Mais adiante, os galpões de tropeiros e a mangueira de pedra lembravam a força e a resistência que sustentavam a estância. Era um lugar de trabalho duro, mas também de silêncios cheios de significado. À medida que o entardecer caía, a luz dourada envolvia a Soledad com delicadeza, como um véu, fazendo-a parecer menos um espaço físico e mais um estado de espírito — solene, bela e inevitavelmente solitária.

À entrada da Estância, os olhos foram primeiro para os cavalos: mouros de pelagem quase prateadas, respirando forte o vapor em pequenas nuvens que se dissipavam no ar. Cada relincho anunciava que aquele lugar era de importância... Sua soberania e importância atravessaram campos e décadas de revoluções, chegadas e partidas, ela pertencia e era parte da própria história daquele lugar.

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