CAPÍTULO 02

A fazenda se estendia sobre campos vastos, onde ovelhas pastavam em rebanhos cerrados, cobrindo a paisagem de branco e movimento. A lã era fiada em paciência e suor, tornando-se moeda de sustento nas feiras da fronteira. Do couro, Pedro fazia negócios com tropeiros que vinham e iam, carregando nas mulas a vida de dois países que se tocavam sem nunca se fundir.

O gado, rústico e bravo como convinha àquele tempo, era cuidado com persistência. Pedro, embora severo, buscava sempre melhorar o rebanho, cruzando raças, escolhendo os mais fortes, como quem sabia que a prosperidade exigia trabalho incansável. Trazia o aprendizado do pai e dos avós que destravaram àqueles campos outrora.

Naquela tarde, Sales chegou sem avisar, encontrou Maria Júlia no galpão, sabia que estaria sozinha, ele sabia que o irmão de Júlia, estaria na Capital com a mulher e os filhos. Maria Julia ficaria para cuidar do Pai, e da lida com os empregados . Suas mãos indesejadas tocavam seu corpo sem que lhe fosse dado permissão, também não fazia questão alguma que lhe fosse concedido. O Capitão tinha certo prazer em ter o que queria pela força, pela submissão. Seus dedos entre seus cabelos fartos , o beijo amargo como os beijos sem paixão. Julia aprendeu cedo demais que ser mulher em tempos ásperos como aquele não lhes permitia escolha, apenas ceder aos desejos daquele que lhe julgava dono.

A beijou sorrindo como quem se ganha um troféu, vestiu-se e saiu.

Uma lágrima desceu pelo seu rosto, enquanto ouvia os cardeais junto a porteira que ainda balançava pela saída do Capitão. Seu silêncio não condizia com o seu coração rebelde que sangrava arredio pela inexistencia de sentimentos que deveria possuir, afinal se casariam em breve, ao que o Capitão já houvesse consumido seus desejos de homem. Tê-lo como futuro marido não era escolha de Julia, mas do irmão. Eram tempos em que a autonomia de mulher não era vista com bons olhos.

Júlia algum tempo depois, retornou ao casarão, cuidou do pai, o alimentou e trocou suas vestes, trouxe-lhe água e o serviu. Enquanto o cuidava, a ausência do pai era perceptiva.

O olhar quieto distante.... Julia se perguntava se naqueles instantes o Pai podia lhe ouvir. Pensou por um momento, que se o pai não tivesse acamado e tomado por aquela rara condição mental a qual estava submetido, se ele permitiria as imposições de Pedro em sua vida como a fazia.

Casar-se com um homem que a tomava como um animal, que não lhe concedia carinho, respeito, se isso era mesmo o que o pai escolheria para ela. Chorou, enquanto o olhar do pai continuava distante, talvez buscando pela mãe de Maria Júlia, sua esposa em pensamentos antigos guardado na alma, talvez ainda preso em alguma trincheira de guerra, ou mesmo chamando pela própria morte.

Quando o pai adormeceu, Júlia deixou os afazeres e no lombo do seu cavalo cruzou aqueles Campos verdes como trovão que risca o céu, não precisava de cela, apenas suas mãos firmes na crina do animal.

Galopava pelas planícies como quem conversa com o vento, sentindo-se inteira, sem amarras, pertencente apenas a si mesma. Sua coragem não pedia licença, e o mundo parecia caber no compasso firme dos cascos sobre a relva.

Aquelas tardes eram tardes de liberdade onde nem seu corpo nem seu pensamento tinham donos, era dona e senhora da sua própria vontade.

Mas o tempo, implacável, lhe impôs outra travessia da qual seu coração pedia. Com a doença do pai, os campos se estreitaram. Teve as pernas amputadas na batalha, dizem ter sido salvo por um jovem capital do exército inimigo que conhecera seu prestígio a frente das tropas, e sua reputação. Teve misericórdia da sua vida e preservou-lhe a vida. Porém jamais seu pai seria o mesmo, com o passar dos anos, sua memória já retrocedía e sua ausência e delírios mostravam que o coronel, pouco a pouco se desprendia do mundo real.

As rédeas foram penduradas, os galopes substituídos pelo silêncio dos quartos fechados e pelo ritmo lento da respiração alheia. Júlia permaneceu. Cuidou, velou, sustentou a casa com a mesma firmeza com que antes domava cavalos bravos. Mas ainda naquele dia, naquela noite, o velho Coronel fechou os olhos para sempre, e no silêncio de sua existência terminava sua história.

Sales chegou antes de Pedro, foi ele que cuidou de todos os trâmites pertinentes. Por um minuto houve certa empatia e compaixão, secou os olhos da noiva, e levantou o seu rosto segurando-o com os dedos para que os olhos de Júlia alcançassem os seus.

- Eu vou cuidar de você, não se preocupe- disse O Capitão Sales.

Foram dias tristes para Júlia, a casa agora retomava para si as lembranças da mãe e do pai. Como em um modo de fuga para a dor que a consumia, ela deitava sobre o travesseiro do Pai e imaginava a mãe vindo buscá-lo para novamente estarem juntos.

Em seu pensamento dizia como quem falasse com eles em sentimento, que algum dia estaria junto à eles e seriam novamente uma família.

O choro se espalhou madrugada adentro, e assim foi enquanto as manhãs e noites se revezavam na Fronteira.

Quando se perde a mãe quando ainda criança, com Maria Júlia, se aprende a defender-se só, a maturidade da menina Júlia, permitiu-lhe aprender das responsabilidades da casa, e quando o irmão se casou e trouxe Stephanie, o peso duro da lida do casarão e da cabanha foram aliviados, pelo amor Eva dedicação da cunhada.

Viver nem sempre era simples, ou melhor dizendo estar vivo e lúcido quando se estava cheio de penas e saudades era tarefa árdua, mas Júlia sempre foi valente, e dedicada ao que se propunha fazer.

Entre sonhos que não lhe eram permitidos, ela vivia a vida sempre agarrada a um sopro de esperança, acreditando em dias melhores. Esse fio invisível era tudo o que a mantinha inteira quando o mundo lhe exigia submissão e silêncio.

À noite, deitada ao lado de um futuro que não escolhera, fechava os olhos e imaginava outras rotas, outras versões de si, menos contidas, menos feridas. Chorava baixo, para não acordar o destino que lhe fora imposto, e fazia da dor uma promessa secreta: a de que, mesmo sem poder fugir, jamais deixaria que lhe arrancassem a capacidade de sentir, de desejar, de sonhar.

Porque havia uma coragem silenciosa em continuar respirando quando tudo em volta parecia conspirar para sufocar a alma.

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