CAPÍTULO VII

Don Fernando deu um passo atrás, respeitando o limite que ambos sabiam existir. Depois, virou-se e partiu, deixando para trás não apenas a margem erma, mas um coração que já não lhe pertencia por inteiro.

Júlia permaneceu ali por alguns instantes, as mãos fechadas sobre a joia, sentindo que naquele beijo havia atravessado uma fronteira da qual não sabia se conseguiria voltar.

A voz de Stephanie rompeu o silêncio.

— Júlia! Júlia!

Chamava-a com insistência, aproximando-se pela margem, até encontrá-la imóvel, à beira do rio. Don Fernando já não estava ali. Restava apenas o curso lento da água e o eco distante do que havia sido dito — e sentido.

Júlia permanecia estagnada, como se o corpo tivesse ficado para trás enquanto algo dentro dela avançara sem retorno. Era uma mistura impossível de nomear: surpresa, apreensão, emoção. Um turbilhão intenso demais para caber em palavras. O beijo ainda ardia em sua memória, recente como uma chama que se recusa a apagar.

— Onde você estava? — perguntou Stephanie, ofegante. — Estava te procurando… encontrei dois vestidos lindíssimos. Você precisa escolher.

Sem responder de imediato, Júlia levou a mão ao bolso do vestido quase por instinto. Ali, escondida do mundo, a joia repousava. O pequeno coração de pedra — o coração de Don Fernando. Guardou-o consigo sem que Stephanie percebesse, como quem protege um segredo que ainda não sabe se é promessa ou condenação.

— Eu… não me sinto bem — disse, por fim, com a voz baixa e distante. — Escolha você. O que achar melhor.

Stephanie a observou por um instante, desconfiada, mas não insistiu. Havia algo no olhar de Júlia que não admitia perguntas.

Enquanto retornavam ao comércio, Júlia caminhava como em outro tempo. Não via as vitrines, não ouvia os mercadores, não sentia o peso do futuro que tentavam lhe impor. Pensava apenas naquele beijo roubado, no risco que aceitara sem medir consequências — e na voz dele.

A voz de Don Fernando.

O sotaque oriental permanecia em sua mente como uma melodia tardia, mais persistente que o violão à beira do rio, mais profundo que a própria fronteira.

E, apertando o pequeno coração junto ao peito, Júlia compreendeu, ainda que em silêncio, que nada voltaria a ser como antes.

Do outro lado da fronteira, a tarde começava a se fechar quando Don Fernando retomou o caminho em direção à estância Soledad. Ao seu lado, o filho seguia faceiro, falando sem parar sobre os bons negócios firmados naquele dia — acordos vantajosos, promessas de lucro, nomes que deveriam ser lembrados.

Mateo caminhava leve. Em poucos dias retornaria à capital da Banda Oriental, onde concluía os últimos meses do curso que o tornaria doutor. Havia orgulho em sua postura, o entusiasmo típico de quem acreditava que o mundo se abria à sua frente com generosidade.

Don Fernando ouvia, assentia, respondia quando necessário. Mas estava distante.

Tratava mentalmente de outros assuntos — terras, contratos, encontros futuros — como sempre fizera com precisão. Ainda assim, algo nele escapava ao controle. O coração, que por tantos anos obedecera à razão, agora batia fora do compasso.

Sentia-se estranho. Vulnerável. Quase ridículo.

Pensava em Júlia.

A imagem dela à beira do rio lhe retornava com força inquietante. O olhar, o silêncio, o beijo carregado de medo e desejo. Sentia-se como um menino novamente, tomado por uma emoção que não sabia domar. E isso o assustava.

Ela tinha poucos anos a mais que Mateo. Idade para ser sua filha.

Don Fernando sabia disso. Sabia também de todas as outras fronteiras invisíveis: as políticas, as históricas, as sociais. A diferença de idade, o peso do nome que carregava, o mundo instável que os separava. Nada lhe era estranho, nada lhe era ignorado.

Ainda assim, nunca havia sentido algo tão profundo.

Não era capricho. Não era vaidade. Era um abismo que se abrira sem aviso, um sentimento que não pedia permissão para existir. Júlia não lhe despertara desejo apenas — despertara verdade.

Mateo continuava a falar, sorrindo, descrevendo o futuro que o aguardava na capital. Don Fernando caminhava ao seu lado, mas sabia que, naquele instante, atravessava sozinho a parte mais perigosa da fronteira: a que separa o que somos do que desejamos ser.

E enquanto a estância Soledad surgia ao longe, envolta pela luz morna do entardecer, Don Fernando compreendeu que aquele retorno não era uma despedida.

Era apenas o começo.

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