Capítulo III

A Estância estava em festa, onde bombachas bem passadas e vestidos finos que não haviam enfrentado a chuva daquela manhã, se misturavam aos chapéus e gargalhadas de gente conhecida entre si. Taças erguidas ao compasso a música que vinha da varanda.

Julia, porém, não vinha dessa roda. Vinha de outra realidade, a qual não conhecia de chapéus nem das jóia que exibiam aquelas mulheres. Trazia o barro agarrado às botas, e as tranças quase desfeitas pela chuva escapavam-lhe os fios rebeldes. O barro dos sapatos pesou os passos, mas seguiu adiante com o olhar incrédulo e relutante de Pedro que ficou um passo atrás sem estar seguro sobre seguir ou voltar, afinal “os do lenço branco” mostrava-lhes que estavam de lados opostos.

Mas afinal, fronteira não se marca apenas com cercas, também se marca pelo mate que passa de mão em mão e pelo “che”ou “bah”, mesmo em lados opostos pelos interesses políticos e comerciais, todos ali em sua maioria, estancieiros negociando, erguendo suas próprias bandeiras, mesmo fingindo um acordo de paz que foi firmado sim, mas que trazia ainda muito viva a rivalidade de ambos os lados.

Percebendo a incerteza do irmão, Julia tomou a frente num passo adiante e subiu as escadas enquanto a maioria voltava o rosto de leve, num olhar de estranheza. Mas antes que o silêncio súbito lhe causasse incômodo, alguém rompeu a distância.

Don Fernando.

O porte elegante, os cabelos castanho-escuros caiam sobre os olhos translúcidos, que pareciam captar mais do que mostravam. Ao avistar Júlia, avançou em passos firmes, abrindo caminho entre os curiosos, e o salão silenciou por um instante até que sua voz grave, intensa ecoou em uma saudação hospitaleira.

Seus olhos a encontraram, ele avançou sem desviar o olhar. Era impossível deixar de notar sua presença, não pelas roupas que vestia, ou pelas botas sujas de barro, a rebeldia dos cabelos desfeitos soltando-se das tranças. E mesmo o lenço vermelho que ambos carregavam, Júlia e Pedro, mostrando-lhes a procedência, ainda sim algo mais intenso prendeu a atenção de Don Fernando de até de outros homens ali presente. Sua beleza era estonteante, selvagem, e sua postura, altivez, seus olhos erguidos sem se intimidar, sem se curvar pelo julgamento alheio, prendeu sua atenção como laço. Uma chama que o arrebatou, e todo salão desapareceu só restando ela dentro do seu olhar de mar.

Don Fernando não era apenas um homem maduro e bonito, desejado pelas mulheres daquele lugar, era o dono da Estância Soledad.

Ele os reconheceu, Pedro e Julia, não pelo rosto, mas pelo destino que os traziam.

Aproximou-se estendendo-lhe a mão sem pressa, sabendo da importância daquele gesto, e abriu espaço para recebe-los.

Aos poucos o salão voltava ao alvoroço, mas as pessoas mergulhadas em curiosidade e soberba, a fitavam indigestas por sua presença.

- Não sabíamos que estavam em “festa”, se desculpou Pedro.

- Não se preocupem, estão em casa. Lamento pelo seu pai. Sei que está acamado. Eu sabia que viria, não sabia que seria acompanhado – Respondeu Don Fernando ainda encantado com a presença de Júlia.

- Darei ordens para que tratem dos cavalos, e se preferem descansar, eu mesmo providenciarei tudo.

- Não será necessário, agradeço a hospitalidade, mas é conveniente regressamos ainda hoje. Precisamos apenas resolver à que viemos em nome de nosso Pai.

Mas antes que Pedro continuasse dois senhores se aproximaram ainda curiosos pela presença de Julia e Pedro. Don Fernado ofereceu-lhe braço à Júlia, e à apresentou aos senhores, Pedro acompanhou-lhe.

Júlia se sentiu surpresa, não conhecia aquele homem que fazia negócios com seu pai antes de estar acamado, e mesmo estando estes em grupos opostos, os negócios eram tratados com seriedade sem intervenções políticas, já que o Capitão Ernesto era pessoa muito bem vista e respeitada nos dois lados da fronteira. Tinha habilidade para negociar em ambos os lados e o conheciam por ser um homem justo e integro.

Sentiu-se segura e até orgulhosa ao seu lado, percebendo o ranger de dentes daquelas senhoras que pareciam não acreditar na atenção que Don Fernando dispensava aos visitantes recém chegado.

O contraste daquele momento á atravessou: vinha ali como forasteira, suja da estrada, marcada pela chuva, mas o anfitrião a olhava com dignidade e respeito, como se o barro preso em suas botas fosse apenas sinal de verdade não de vergonha.

A conversa fluía breve, entre pausas que carregavam mais que palavras. Don Fernando gentil, cordialmente oferecendo-lhe o braço a conduzindo pelo salão. Era impossível não notar como a presença dele a cercava de respeito, como se a poeira da estrada, os cabelos desalinhados, molhados, tivessem perdido importância diante sua apresentação.

- Esta é filha de um velho amigo de meu pai, e meu consequentemente! O Senhor Ernesto Dias Gomes! - dizia erguendo a voz o bastante para que se ouvisse, sem jamais deixar de olhar para ela. Como se ele mesmo afrontasse os paizanos declarando em voz alta o nome do velho Coronel. As adversidades semeadas pela Revolução não lhe impressionava.

Enquanto isto ao outro lado já distante, Pedro brevemente esqueceu da esposa que ficou na estancia velha cuidando do pai e sorria encabulado pelas provocações de duas moças curiosas pela sua “rusticidade” que aparentava apenas pelo simples das suas vestimentas, entretanto Pedro tinha seu orgulho por também haver lutado na Revolução Federalista.

Don Fernando à levou até seu filho Antônio, que trazia grave deficiência em uma das mãos afetada por ferimento na batalha. Ele a recebeu com sorriso largo, olhar doce e cortês. Muitos daqueles homens traziam cicatrizes, suas próprias feridas, físicas ou psicológicas, afinal, como Don Fernando mesmo dizia: - Nas revoluções não há vencedores, apenas vítimas.

Logo em seguida, aproximou-se um homem mais velho, imponente, de fala alta, que parecia gostar de ser ouvido. Ao fita-la de alto a baixo para suas roupas de campo, e, num tom entre curioso e provocador, lançou:

- E então muchacha, qual o melhor gado para investir por esta querência?

Houve silêncio breve, alguns risos contidos, como se esperassem dela apenas o silêncio constrangedor. Mas ela não vacilou.

- Os britânicos estão chegando com força , cruzam bem com o nosso, serão o futuro destas terras!

O homem estancou. O sorriso no canto da boca morreu, substituído por um gesto de surpresa. Alguns ao redor trocaram olhares rápido reconhecendo nela mais que uma jovem perdida, uma forasteira atrevida.

Don Fernando a observava. Aproximou-se em um passo tão perto que ela sentiu sua respiração. Sentiu o calor da sua presença. Havia um imã invisível entre ambos. Não era só cortesia, era uma energia profunda, uma força que escapava ao controle de ambos e o faziam querer aquela aproximação.

O entardecer entrava pelas janelas do salão trazendo o cheiro de terra molhada. Ela permaneceu ali, olhando os pátios repletos de flores as quais ela desconhecia os nomes mas reconheciam pelos seus respectivos perfumes e cores. Observava quieta escapando da multidão curiosa ao seu redor. Enquanto isto, Don Fernando convidou Pedro a um aposento lateral, um escritório forrado por mapas, livros de contas, e retratos de seu pai. Sobre a mesa, Don Fernando dispôs um embrulho de couro fechado por cordas.

- Está aqui o pagamento- disse entregando o embrulho à Pedro. Pelas cargas de couro e lã, devo reconhecer de primeira qualidade!

Pedro conferiu em silêncio, contou rapidamente as notas e guardou-as no bornal de viagem.

- Negócio é negócio- respondeu seco.

Don Fernando não se afastou, serviu dois copos de vinho e o ofereceu um.

- Vossa viagem foi longa, o tempo está traiçoeiro- disse olhando através da cortina o céu que escurecia enfurecido.

- Fiquem esta noite na Estancia, temos quartos de sobra, seria uma honra recebê-los com mais comodidade.

Pedro ergueu o olhar e terminou o vinho num único trago.

- Agradeço, mas não será necessário. Minha irmã e eu não buscamos honras, apenas o que é justo pelo que negociou nosso pai.

Houve uma pausa e silêncio. Os olhos de Don Fernando não disfarçavam, ele não falava somente por cortesia, havia uma intenção voltada para Júlia e Pedro sabia disto, o recebendo como uma ameaça.

- Ainda sim, deixo minha oferta. Por vossa irmã, não é justo que ela enfrente o mau tempo ou tenham que passarem a noite em algum acampamento sem comodidade e segurança, usted sabe que ainda vivemos tempos difíceis, mesmo sendo um militar meu caro.

Antes que Don Fernando insistisse, seu filho adentrou no escritório pedindo sua atenção para algo, que havia ocorrido no salão.

Pedro silenciou e aproveitando a distração de Don Fernado saiu, sem despedir-se

Retornando, o Estancieiro Uruguaio pousou o copo sobre a mesa e se deu conta que Pedro havia partido.

- Já recebemos o pagamento. Não há mais o que tratar aqui. Partiremos agora minha irmã.

Tomou-lhe o braço com decisão

- Vamos!

- Mas... – ela tentou protestar, ainda atordoada pela agitação daquela tarde e sem compreender a rispidez de seu irmão.

Sem esperar, Pedro a conduziu para fora onde os cavalos já esperavam prontos, assim como seus empregados da velha estância que o acompanhavam. Em poucos instantes já estavam montados e cortaram o pátio enlameado rumo ao portão da Estância Soledad. A noite baixava dentre as encostas.

No salão ao perceber que haviam partido, afastou-se dos convidados, empurrando as portas cruzando o saguão, saindo à varanda. Do alto da escadaria, viu apenas as silhuetas que se distanciavam na escuridão, e o lenço vermelho que Júlia trazia nos cabelos, balançava ao vento como chama viva contra o horizonte.

A primeira gota de chuva caiu sobre seu rosto. Enquanto o céu se abriu novamente em aguaceiro. E sobre o clarão de um trovão, Don Fernando sentiu algo que não ousava admitir nem para si: não era apenas desejo, era destino!

Um dos convidados, um militar já grisalho, se aproximou com certa curiosidade vendo que Don Fernando estava atônito enquanto a chuva molhava seu rosto.

- Alencastro, quem era aquela moça?

Don Fernando não respondeu de imediato. Apenas manteve os olhos fixos no portão distante. Depois de alguns segundos, murmurou como quem conta um segredo:

- Aquela que o destino me trará de volta. Maria Júlia Saraiva de Gomes, filha de Jaguarão.

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