Capítulo 03

Foi Pedro quem decidiu que partiriam até a Estância Soledad, ou Estância Solidão como era conhecida por alguns do lado brasileiro da fronteira.

Os negócios de lã precisavam de novos acordos, e o Pai que negociava antes da doença com alguns estancieiros uruguaios.

Iriam até o outro lado, a banda Oriental como chamam o lado Uruguaio. Haviam mercadores interessados na lã e no Charque que ali eram produzidos.

A Estância Solidão, era a promissora Estância do capitão Fernando. Capitão Fernando Ávila de Medeiros, que assim como Pedro esteve na Revolução Federalista, mas em lados opostos.

Foi Don Fernando que salvou a vida do Pai de Júlia no campo de batalha. Mesmo sendo de lados opostos, poupou-lhe a vida e lhe entregou ao seu pelotão para que fosse socorrido.

O capitão Fernando era homem respeitado e admirado pelos dois lados da Fronteira. Pedro, precisava entregar mercadorias e receber o dinheiro negociado em acordos que eram feitos antes da Saúde precária do pai, piorar. Antes de se agravar, o Coronel era um homem perfeitamente lúcido, mas ali já antes de falecer, poucos meses antes, já não reconhecia os filhos.

Don Fernando era conhecido por possuir terras em ambos os lados da fronteira — brasileiros e orientais ao mesmo tempo, como se a própria estância fosse o reflexo da ambiguidade daquelas campanhas.

Naqueles dias, que antecederam a viagem apesar do peso do luto que habitava a casa, María Júlia se permitia um contentamento raro. Havia completado mais um ano de vida, e o irmão, atento às delicadezas que ela já não pedia em voz alta, decidira surpreendê-la.

Sabia que, desde que o pai adoeceu , a solidão se tornara sua companheira mais fiel, silenciosa e constante para ela, pois precisava estar todo o tempo aos cuidados da Fazenda e principalmente do Pai. A viagem era mais do que um presente: era um respiro para Júlia após a morte do Coronel.

Sua esposa ficaria na estância, zelando pela casa junto aos empregados. Cuidando dos filhos, e assim tudo foi planejado para partirem na manhã seguinte.

Júlia sentiu o coração bater com a mesma ansiedade doce das manhãs de infância. Não era apenas a travessia do rio que a aguardava, mas a esperança de, ainda que por poucos dias, lembrar-se de quem fora antes das renúncias.

Entre uma bagagem discreta e pensamentos guardados, ela compreendia que aquela viagem não era fuga, mas um gesto de amor: do irmão que a via, e dela mesma, que ousava atravessar a fronteira em busca de algo novo, experiência para aquela vida que se resumia em obrigações e lamentos.

Partiram cedo, cruzando campos alagados, arroios e coxilhas que pareciam não terminar. A cada trecho, Júlia sentia o peso e o fascínio daquele espaço sem fronteiras: ali, o comércio misturava sotaques, a vida confundia identidades, e as histórias corriam livres, como o gado que passava de um lado ao outro sem conhecer limites. De tempo em tempo, parava-se para preparar o charque , num fogo de chão, onde histórias acompanhavam a comida e o chimarrão que se fazia testemunha.

O vento da campanha não respeitava fronteiras, atravessava cercas, riachos e planícies onde a terra parecia não acabar nunca. Homens e mulheres traziam nas bombachas as manchas da lida, o dia a dia das estancias que começavam antes mesmo do sol surgir.

Júlia vinha montada num cavalo zaino, postura ereta, tranças presas num lenço rubi, o lenço era regalo do pai , o mesmo lenço que o pai usou tantas vezes por tantas batalhas, a cor, as cores dos lenços que se usava no pescoço, apresentavam a procedência de cada um.

Na cadência do trote havia algo de insubmisso, como se cavalo, campo e corpo fosse um só.

Chamavam-lhe de muchacha, guria, menina, conforme a boca que a nomeava junto à um aceno por onde passava. E mesmo distintas, cada palavra lhe caia bem, porque não havia muro entre o espanhol que se aprendia do outro lado do rio, nem o português das rodas de mate. Era tudo um só idioma: o da fronteira!

Naquele tempo pós revoluções, o calendário se marcava pelas estações: o da tosquia, a marcação, a espera da chuva. Chuva esta que foi por companhia por quase todo o caminho naquela manhã. A tarde veio em tons de cobre, trazendo uma brisa morna secando o rosto cansado mas não vencido pela viagem.

Quando, finalmente avistaram na distância a Estância Soledad, que ergueu-se diante deles em um conjunto imponente de casas de pedra e madeira, rodeado de currais e galpões. Era mais que uma fazenda: era um domínio, um lugar de poder e tradição, onde o próprio ar parecia carregar ecos de guerra e de grandeza.

Erguia-se altiva no coração da campanha uruguaia, como um segredo antigo guardado entre campos sem fim. Próxima às margens de um lago largo e sereno, refletia o céu em suas águas mansas, como se o tempo ali aprendesse a andar mais devagar.

As construções principais, feitas de pedra e cal, ostentavam paredes espessas que protegiam do sol impiedoso do verão e acolhiam o calor das brasas durante os invernos rigorosos, quando o vento soprava livre pela planície. Era impossível não se maravilhar com aquela presença, com a beleza de seus telhados.

No pátio interno, envolto por corredores de arcos antigos, pulsava a vida cotidiana da estância. Peões cruzavam o espaço em passos firmes, trazendo consigo o cheiro do couro e da terra; arreios pendiam silenciosos nas paredes; cães pastores repousavam à sombra, atentos, como guardiões discretos daquele mundo.

O som distante dos cascos e o ranger suave das portas compunham uma música simples, repetida há gerações.

Ao centro, um poço de pedra e um velho jacarandá ofereciam abrigo aos que buscavam descanso. Suas raízes profundas pareciam conhecer todas as histórias ali vividas — amores contidos, despedidas silenciosas, promessas nunca ditas.

O casarão, de janelas altas com venezianas pintadas de verde escuro, abria-se em varandas amplas voltadas para a vastidão da planície, onde o olhar se perdia e o coração também.

Mais adiante, os galpões de tropeiros e a mangueira de pedra lembravam a força e a resistência que sustentavam a estância. Era um lugar de trabalho duro, mas também de silêncios cheios de significado.

À medida que o entardecer caía, a luz dourada envolvia a Soledad com delicadeza, como um véu, fazendo-a parecer menos um espaço físico e mais um estado de espírito — solene, bela e inevitavelmente solitária.

À entrada da Estância, os olhos foram primeiro para os cavalos: mouros de pelagem quase prateadas, respirando forte o vapor em pequenas nuvens que se dissipavam no ar. Cada relincho anunciava que aquele lugar era de importância... Sua soberania e importância atravessaram campos e décadas de revoluções, chegadas e partidas, ela pertencia e era parte da própria história daquele lugar.

A tal Estância Soledad, Estancia Solidão! Estava ali diante os seus olhos, acessível ao toque das suas mãos. Só não sabia Júlia, que depois de ultrapassar o limites daquelas porteiras, a sua vida jamais voltaria a ser a mesma. Talvez seja isto o que se chamava de destino, as surpresas, chegadas e partidas que aconteciam sem aviso, sem permissão, apenas aconteciam...

Assim que Júlia e Pedro cruzaram os limites da estância Solidão, o céu, que até então apenas ameaçava, desabou sem aviso. A chuva caiu pesada, grossa, como se o mundo resolvesse confessar tudo de uma vez. Encharcou a estrada, os cabelos de Júlia, o tecido leve do vestido que agora colava à pele, fria e vulnerável. Cada gota parecia marcar a fronteira entre o que ficara para trás e o que, dali em diante, não teria retorno.

A estância os recebeu sem palavras, sob o véu da água que escorria dos telhados antigos e afundava a terra aos seus pés. Pedro seguia à frente, silencioso, enquanto Júlia sentia a chuva atravessá-la — não apenas o corpo, mas algo mais fundo, íntimo.

Era como se a Solidão a batizasse à força, lavando ilusões, preparando-a para um lugar onde o tempo era mais lento e os sentimentos, inevitavelmente, mais densos.

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