CAPITULO IV-

O caminho de volta estendia-se sob o céu carregado, rasgado por relâmpagos que, por instantes breves, iluminavam a campina como se revelassem segredos guardados na noite. Júlia seguia adiante sem apressar o passo. A chuva encharcava-lhe as saias, tornava o tecido pesado contra as pernas, mas ela mal percebia. O corpo sentia o frio; o pensamento, não. Este permanecia preso ao salão da Estância Soledad.

A lembrança da aproximação de Don Fernando surgia nítida, quase palpável. Ele havia se colocado perto demais — o suficiente para que ela sentisse o calor de sua respiração, o leve roçar de sua presença, o silêncio carregado que se instalara entre ambos. Não fora um gesto indevido, tampouco uma palavra imprópria, mas havia algo em seu olhar que a buscava com insistência, como se tentasse atravessar-lhe a alma. Um olhar que não pedia permissão, apenas reconhecia.

Um novo clarão cortou o céu, e por um instante o mundo tornou-se branco. Júlia respirou fundo. Quase lhe escapou um sorriso — não de alegria plena, mas daquele tipo inquieto que nasce quando algo desperta por dentro e não encontra nome. Não se importava com a roupa encharcada, com o caminho escuro, com a tempestade que parecia acompanhá-la. Havia em si uma estranha sensação de estar viva demais para se preocupar com o desconforto.

Na Estância Soledad, longe dali, Don Fernando permanecia desperto em seu quarto. A chuva tamborilava contra as janelas, e os relâmpagos desenhavam sombras inquietas nas paredes de pedra. Ele tentava concentrar-se em qualquer outra coisa — nos negócios, na rotina, no peso das responsabilidades — mas era inútil. A imagem de Júlia partindo da estância insistia em voltar, repetida, persistente: o modo como se afastara, a postura firme, o silêncio que deixara para trás.

Ele passou a mão pelo rosto, incomodado consigo mesmo. Não era costume permitir que pensamentos assim o acompanhassem. Ainda assim, naquela noite, a Estância Soledad parecia maior, mais vazia, como se algo essencial tivesse sido levado com a partida dela.

A estrada de volta, então, pareceu-lhe mais longa do que a ida.

No silêncio do quarto, Don Fernando sentiu o peso antigo que sempre retornava nas noites de tempestade. A lembrança da esposa vinha sem aviso, como vinha desde o dia em que a doença a tomara aos poucos, enfraquecendo-lhe o corpo enquanto ele assistia, impotente, à perda diária de tudo o que fora vida. Não houve desespero ruidoso, apenas aquela dor prolongada que se instala e não vai embora, feita de vigílias, remédios inúteis e despedidas silenciosas. Desde então, aprendera a conter o que sentia.

O pai fora outro aprendizado duro. Um homem ríspido, de palavras cortantes e gestos severos, cuja autoridade se impunha mais pelo temor do que pelo respeito. Don Fernando jamais aprovara as crueldades que ele praticara contra a mãe — pequenas violências, repetidas, disfarçadas de correção e silêncio. Ainda assim, herdara dele não apenas a Estância Soledad, mas a obrigação de sustentá-la, como quem carrega um legado que mistura poder e culpa.

Grande parte das terras e dos negócios viera por herança, é verdade, mas fora Don Fernando quem lhes dera ordem e prosperidade. Tinha talento raro para o comércio, visão segura, mão firme. Em poucos anos, tornara-se o comerciante mais importante da região, respeitado nos acordos, temido nas negociações, justo nos pagamentos. Sabia lidar com números como poucos, talvez porque aprendera cedo que o mundo não oferecia garantias além daquelas que se construía sozinho.

Ainda assim, nenhuma conquista lhe ensinara a lidar com a ausência. A imagem de Júlia, naquela noite, misturava-se às memórias antigas, despertando algo que ele acreditara definitivamente enterrado. Não era desejo apenas — era reconhecimento. E isso o inquietava mais do que qualquer perda já sofrida.

Muitas mulheres da capital passavam pela Estância Soledad, atraídas não apenas pela imponência do lugar, mas pelo nome de Don Fernando, que corria com respeito e admiração entre salões e mesas de negociação. Eram belas, bem vestidas, habituadas aos elogios fáceis e às conversas leves. Algumas se aproximavam com sorrisos calculados, outras com promessas sutis de companhia e distração.

Nada disso, porém, o encantava. Havia naquela atenção uma pressa que ele conhecia bem — a pressa de ser vista, desejada, escolhida. Don Fernando observava tudo com cortesia e distância, como quem reconhece o valor da forma, mas sente falta da profundidade. Aquela superficialidade lhe parecia ruidosa demais, incapaz de alcançar os lugares silenciosos onde ele aprendera a viver.

Depois da perda da esposa, aprendera a desconfiar dos afetos fáceis. O que buscava — ainda que não soubesse nomear — não se oferecia em risos ensaiados nem em olhares treinados. Talvez por isso a lembrança de Júlia o tivesse perturbado tanto: nela não havia artifício, apenas presença. Um silêncio atento, uma firmeza discreta, algo que não pedia nada, mas permanecia.

E isso, mais do que qualquer beleza, era o que o desarmava.

Por tantos anos, Don Fernando respeitara a memória da esposa como quem guarda um território sagrado, intocado pelo tempo e pelas tentações. Nenhum gesto fora além do permitido, nenhum pensamento se demorara onde não devia. A ausência transformara-se em regra, e a solidão, em disciplina.

Agora, porém, a imagem de Maria Júlia adentrando o salão não lhe saía da mente. Havia nela algo quase selvagem — não no excesso, mas na liberdade. Uma afronta silenciosa às convenções que ele aprendera a respeitar, uma mistura rara de audácia e coragem que o desarmava. Ao mesmo tempo, seus traços delicados, a postura firme e o olhar atento compunham uma beleza que não pedia aprovação, apenas existência.

Essa contradição o perturbava. Não era desejo imediato, tampouco simples curiosidade. Era o reconhecimento inquietante de algo que atravessava defesas construídas ao longo de anos. E, enquanto a tempestade seguia lá fora, Don Fernando compreendeu, com incômodo e lucidez, que algumas presenças chegam não para pedir passagem — mas para permanecer

O retorno à fazenda aconteceu sob um silêncio denso, quebrado apenas pelo ranger da porteira antiga. Assim que desmontou, Pedro caminhou apressado até o alpendre, o semblante tenso, o peito tomado por uma inquietação que já não conseguia conter.

— Não faremos mais negócios com Don Fernando — disse, firme, diante do pai. — Hoje percebi o interesse dele por Júlia. Aquilo não foi acaso.

O velho Coronel, abatido pela doença, ergueu o olhar com esforço. Apesar do corpo frágil, ainda havia autoridade em sua voz.

— Contenha-se, Pedro — ordenou, respirando com dificuldade.

Júlia aproximou-se da cama, ajoelhou-se ao lado do pai e envolveu-o num abraço respeitoso.

— A bênção, meu pai — murmurou, com doçura.

Ele pousou a mão trêmula sobre a cabeça da filha. Por instantes raros, sua mente parecia clara. Mesmo tendo lutado do lado dos Farrapos, guardava uma dívida silenciosa com Don Fernando. Fora ele quem, anos antes, o socorrera quando caiu ferido do cavalo, poupando-lhe a vida mesmo estando em campos opostos da guerra.

— Há homens que devemos enfrentar… e outros com quem precisamos negociar — disse o Coronel, num tom grave. — Don Fernando é um deles. Os negócios devem continuar.

Pedro cerrou os punhos, mas permaneceu em silêncio.

O velho então voltou-se para Júlia, fitando-a com uma seriedade que a fez estremecer.

— E você, minha filha, não se afaste do compromisso assumido com o Capitão Sales. — Fez uma pausa curta, como se medisse o peso das próprias palavras. — Esse enlace é necessário. É bom para a fazenda. Há interesses que vão além do coração… interesses políticos e de sobrevivência.

Júlia assentiu em silêncio, sentindo que, naquela noite, seu destino era selado não pelo amor, mas pela terra, pelo nome da família e pelas alianças que sustentavam aquele mundo.

Pedro desviou o olhar. Do lado de fora, o vento varria os campos como um presságio — anunciando que nenhuma decisão ali tomada ficaria sem consequências.

No quarto, a casa parecia ainda mais silenciosa. Júlia sentou-se à beira da cama, sentindo no peito um aperto estranho, desses que não se sabe nomear. Era um peso novo, inquieto, que não vinha do cansaço do dia, embora a madrugada já avançasse e o corpo pedisse descanso.

O sono, porém, não vinha.

Levantou-se e foi até a janela. Por trás das cortinas leves, observou o céu distante ser rasgado por relâmpagos silenciosos, que por instantes pintavam o horizonte de prata e sombra. A tempestade ainda não chegara à fazenda, mas anunciava-se — como aquele sentimento que começava a se formar dentro dela.

Pensou em Don Fernando. Apenas uma vez o havia visto, e ainda assim sua imagem retornava com uma insistência que a assustava. Não havia razão. Havia a diferença de idade, os compromissos assumidos, as convenções que regiam sua vida como trilhos já traçados. Ainda assim, algo nela se movia contra a ordem conhecida.

Não era amor. Júlia sabia disso. Mas também não era simples curiosidade. Era um chamado silencioso, uma inquietação que lhe roubava a calma e a fazia sentir-se viva de um modo novo e quase impróprio.

Apoiou a testa no vidro frio da janela e fechou os olhos por um instante, como quem pede forças para ignorar o que começa a nascer. Lá fora, outro relâmpago rasgou o céu.

Júlia compreendeu, sem coragem de admitir, que algumas tempestades não vêm do horizonte — formam-se dentro da gente.

E assim, sem dormir, deixou que a madrugada guardasse seu segredo.

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