13

POV CATARINA

José Eduardo me encurralava contra a parede, a centímetros de mim, vociferando como um animal selvagem. A respiração quente dele queimava meu rosto, e eu sentia o cheiro de pasta de dente — algo com menta.

— Se não me deixar sair, eu vou gritar — disse, respirando profundamente.

Ele riu com presunção:

— Pode gritar o quanto quiser, priminha… Ninguém vai te escutar. Meu quarto tem isolamento acústico.

— Isso não tem graça, José Eduardo.

— E quem disse que é pra ser engraçado, hein? — Seus olhos eram escuros. — Peça desculpas pelo que disse e eu te deixo ir.

Vendo que não havia saída, não tive outra escolha a não ser ceder aos caprichos dele.

— Desculpa.

Não sei se ele esperava que eu fosse ceder tão facilmente. Creio que esperava alguma resistência.

— Tão pequena e, ao mesmo tempo, tão… — falou, reparando no meu rosto com atenção.

— Tão o quê?

— Nada… Pode ir! — disse, dando passagem.

Ainda permaneci alguns segundos encostada na parede, observando José Eduardo — ainda de toalha, agora de costas para mim, com os ombros largos e as costas bem desenhadas.

— Sei lá, acho que você tá projetando alguma coisa em mim. Não pode ser só o fato de não aceitar que sou mesmo sobrinha do seu pai.

— Do que tá falando? — Ele riu com esforço.

Isso queria dizer que eu estava no caminho certo.

— O motivo de não gostar de mim — completei.

— Não viaja, garota. Pode ir. Vai lá, antes que eu te pegue e jogue pra fora à força.

Seria tolice insistir, mas que ele estava descontando algo em mim… disso eu estava quase certa.

— Beleza. Boa noite.

— Pra você também!

Eu o deixei a sós e fiquei longos segundos parada perto da porta, pensando se deveria voltar lá e confrontá-lo até ele me contar tudo. Porém, seria inútil. Eu não tinha qualquer tipo de intimidade ou respeito por ele.

— Olha só quem tá boazinha de novo! Achei que tivesse se afogado!

Natália subia as escadas, com os cabelos ainda molhados.

— Vejo que usou a piscina — comentei, reparando nos fios úmidos.

— Hum, sim. Diferente de algumas garotas, eu sei nadar.

Tudo em que consegui pensar foi nela e na Leila armando pra me empurrar na água mais cedo. Maldade pura. Gratuita.

— Você se acha muito esperta, né? — eu disse.

— Pior que não. Se eu fosse esperta mesmo, teria te jogado naquela água com as mãos amarradas.

Mantive a pose. Não ia recuar diante daquela desaforada.

— Pena que não pode. E, ah, Natália… você vai se arrepender todos os dias por não ter feito isso.

O semblante altivo da funhanha se desfez.

— Qual foi? Isso é uma ameaça, sua caipira imunda? — disse ela, já instável.

— Ameaçando você? Eu? — me fiz de dissimulada. — Imagina, querida. Que isso! Coisa da sua cabeça.

— Não sou burra, menina. Sei bem quando estão falando comigo na ironia.

Natália deu dois passos à frente.

— Melhor manter distância — avisei.

— Escuta aqui, Maria Brejo: eu sei que você quer roubar o José Eduardo de mim, mas já vou logo avisando que ele é meu!

Aí eu entendi tudo. O ressentimento dela fazia sentido agora.

— Ah, então é isso, queridinha. O meu primo… você gosta dele — falei, olhando por cima do ombro em direção à porta do quarto dele.

— Exatamente. Está tudo dando certo, e não vai ser você que vai estragar.

Eu ri.

— Será mesmo que eu não vou conseguir estragar, Natzinha? Porque, olha, acabei de sair do quarto dele, e devo dizer: José Eduardo só de toalha é uma perdição! Mas te desejo sorte, viu? — falei rindo e passando por ela.

— Melhor dormir com a porta trancada se não quiser acordar careca, Catarina!

— Eu vou dormir com a porta bem aberta. Se ousar entrar no meu quarto, eu arranco seu cabelo fio a fio. Passar bem.

Natália não disse mais nada. Apenas ouvi sua respiração ruidosa de ratazana.

Antes de entrar no meu quarto, escutei a conversa dela com José Eduardo. Certamente foi se queixar de mim.

POV JOSÉ EDUARDO

Dia seguinte. Manhã.

— Merda, merda, merda!

Acordei atrasado. Havia uma reunião importante de advogados do escritório onde meu pai tinha me arrumado um emprego. Na verdade, seria em um restaurante.

No convite estava bem claro: eu precisava de um par. Uma mulher, pra ser mais exato. Poderia muito bem ter chamado Natália, mas me esqueci — e agora ela já estava em outra cidade.

Eu tinha uma conhecida que poderia ligar, mas seria inconveniente demais pedir esse favor. E acho que ela estava namorando.

— Inferno — grunhi, olhando meus contatos no celular. — O que eu faço? Tá quase na hora.

Eu sabia quais eram as minhas chances. E essas chances estavam a algumas portas de distância, no quarto de hóspedes.

A minha reunião importante no escritório agora dependia da ajuda dela: minha prima Catarina.

Será que ela aceitaria ir comigo?

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App