Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV CATARINA
José Eduardo me encurralava contra a parede, a centímetros de mim, vociferando como um animal selvagem. A respiração quente dele queimava meu rosto, e eu sentia o cheiro de pasta de dente — algo com menta. — Se não me deixar sair, eu vou gritar — disse, respirando profundamente. Ele riu com presunção: — Pode gritar o quanto quiser, priminha… Ninguém vai te escutar. Meu quarto tem isolamento acústico. — Isso não tem graça, José Eduardo. — E quem disse que é pra ser engraçado, hein? — Seus olhos eram escuros. — Peça desculpas pelo que disse e eu te deixo ir. Vendo que não havia saída, não tive outra escolha a não ser ceder aos caprichos dele. — Desculpa. Não sei se ele esperava que eu fosse ceder tão facilmente. Creio que esperava alguma resistência. — Tão pequena e, ao mesmo tempo, tão… — falou, reparando no meu rosto com atenção. — Tão o quê? — Nada… Pode ir! — disse, dando passagem. Ainda permaneci alguns segundos encostada na parede, observando José Eduardo — ainda de toalha, agora de costas para mim, com os ombros largos e as costas bem desenhadas. — Sei lá, acho que você tá projetando alguma coisa em mim. Não pode ser só o fato de não aceitar que sou mesmo sobrinha do seu pai. — Do que tá falando? — Ele riu com esforço. Isso queria dizer que eu estava no caminho certo. — O motivo de não gostar de mim — completei. — Não viaja, garota. Pode ir. Vai lá, antes que eu te pegue e jogue pra fora à força. Seria tolice insistir, mas que ele estava descontando algo em mim… disso eu estava quase certa. — Beleza. Boa noite. — Pra você também! Eu o deixei a sós e fiquei longos segundos parada perto da porta, pensando se deveria voltar lá e confrontá-lo até ele me contar tudo. Porém, seria inútil. Eu não tinha qualquer tipo de intimidade ou respeito por ele. — Olha só quem tá boazinha de novo! Achei que tivesse se afogado! Natália subia as escadas, com os cabelos ainda molhados. — Vejo que usou a piscina — comentei, reparando nos fios úmidos. — Hum, sim. Diferente de algumas garotas, eu sei nadar. Tudo em que consegui pensar foi nela e na Leila armando pra me empurrar na água mais cedo. Maldade pura. Gratuita. — Você se acha muito esperta, né? — eu disse. — Pior que não. Se eu fosse esperta mesmo, teria te jogado naquela água com as mãos amarradas. Mantive a pose. Não ia recuar diante daquela desaforada. — Pena que não pode. E, ah, Natália… você vai se arrepender todos os dias por não ter feito isso. O semblante altivo da funhanha se desfez. — Qual foi? Isso é uma ameaça, sua caipira imunda? — disse ela, já instável. — Ameaçando você? Eu? — me fiz de dissimulada. — Imagina, querida. Que isso! Coisa da sua cabeça. — Não sou burra, menina. Sei bem quando estão falando comigo na ironia. Natália deu dois passos à frente. — Melhor manter distância — avisei. — Escuta aqui, Maria Brejo: eu sei que você quer roubar o José Eduardo de mim, mas já vou logo avisando que ele é meu! Aí eu entendi tudo. O ressentimento dela fazia sentido agora. — Ah, então é isso, queridinha. O meu primo… você gosta dele — falei, olhando por cima do ombro em direção à porta do quarto dele. — Exatamente. Está tudo dando certo, e não vai ser você que vai estragar. Eu ri. — Será mesmo que eu não vou conseguir estragar, Natzinha? Porque, olha, acabei de sair do quarto dele, e devo dizer: José Eduardo só de toalha é uma perdição! Mas te desejo sorte, viu? — falei rindo e passando por ela. — Melhor dormir com a porta trancada se não quiser acordar careca, Catarina! — Eu vou dormir com a porta bem aberta. Se ousar entrar no meu quarto, eu arranco seu cabelo fio a fio. Passar bem. Natália não disse mais nada. Apenas ouvi sua respiração ruidosa de ratazana. Antes de entrar no meu quarto, escutei a conversa dela com José Eduardo. Certamente foi se queixar de mim. ⸻ POV JOSÉ EDUARDO Dia seguinte. Manhã. — Merda, merda, merda! Acordei atrasado. Havia uma reunião importante de advogados do escritório onde meu pai tinha me arrumado um emprego. Na verdade, seria em um restaurante. No convite estava bem claro: eu precisava de um par. Uma mulher, pra ser mais exato. Poderia muito bem ter chamado Natália, mas me esqueci — e agora ela já estava em outra cidade. Eu tinha uma conhecida que poderia ligar, mas seria inconveniente demais pedir esse favor. E acho que ela estava namorando. — Inferno — grunhi, olhando meus contatos no celular. — O que eu faço? Tá quase na hora. Eu sabia quais eram as minhas chances. E essas chances estavam a algumas portas de distância, no quarto de hóspedes. A minha reunião importante no escritório agora dependia da ajuda dela: minha prima Catarina. Será que ela aceitaria ir comigo?






